A morte do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, representou uma vitória para os Estados Unidos e Israel, mas não significa necessariamente uma mudança de regime na República Islâmica. Existem fatores estruturais que indicam a continuidade do sistema político iraniano, mesmo após o assassinato de sua principal liderança, conforme explicou o analista sênior de Internacional da CNN, Américo Martins.
Em primeiro lugar, o regime ditatorial dos aiatolás foi construído ao longo de décadas justamente para resistir a ataques externos e continuar operando. Embora Ali Khamenei fosse um ditador que concentrava as maiores decisões em suas mãos, o sistema político iraniano não dependia exclusivamente dele. Existem diversos outros líderes capazes de ocupar esse espaço de poder.
O segundo ponto fundamental é que o regime conta com instituições militares, políticas e religiosas profundamente integradas na sociedade iraniana. Muitas dessas entidades possuem interesses econômicos na sobrevivência do regime e farão tudo para mantê-lo em funcionamento, garantindo assim a continuidade de seus privilégios e influência.
Em terceiro, a Guarda Revolucionária do Irã desempenha papel crucial na manutenção do regime. Esta força é responsável pela segurança interna e externa do país, além de reprimir a população quando necessário para proteger os interesses da ditadura iraniana. Com fortes interesses econômicos e ideológicos, a Guarda Revolucionária certamente lutará até o fim para preservar a República Islâmica.
O quarto fator relevante é a fragilidade da oposição iraniana, que se apresenta extremamente dividida e desorganizada. Esta fragmentação deve-se em grande parte à intensa reflexão contra opositores desde o início da Revolução Islâmica em 1979, o que dificultou a formação de uma frente unificada capaz de desafiar o regime.
Por fim, é importante destacar que uma mudança de regime dificilmente ocorreria sem uma invasão militar do país. Tanto Estados Unidos quanto Israel não demonstram interesse em enviar tropas para ocupar o território iraniano, o que seria necessário para efetivamente derrubar o governo atual. Sem essa presença militar no terreno, a elite iraniana continuará trabalhando para manter o regime no poder, ainda que com ajustes e adaptações necessárias após a morte de Khamenei.