A Polícia Civil aguarda o resultado de laudos de exumação do corpo da policial militar Gisele Alves Santana, encontrada morta em 18 fevereiro, para avançar nas investigações. O inquérito tramita no 8° DP (Belenzinho).
Segundo a SSP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo), o caso é apurado como morte suspeita, mas “a tipificação pode ser revista em qualquer momento, sem prejuízo ao inquérito”. Após o surgimento de novas evidências e relatos de socorristas que atenderam a ocorrencia, a Justiça paulista determinou que a morte de Gisele seja investigada como feminicídio.
A soldado da PM foi encontrada morta dentro do apartamento que morava com o marido, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, no bairro do Brás, na região central da capital paulista. Em um primeiro momento, o caso era investigado como suicídio, mas passou a ser visto como morte suspeita.
Laudos do IML (Instituto Médico-Legal) e do Instituto de Criminalística já revelaram marcas de lesões no pescoço e no rosto da PM, que morreu com um tiro na cabeça. As lesões são compatíveis com pressão de dedos na face inferior, na transição com a mandíbula e no pescoço, na lateral direita, descritas como estigmas digitais.
Os novos laudos da exumação do corpo da policial, autorizada pela Justiça e realizada na última sexta-feira (6), devem ser finalizados até esta sexta-feira (13). Geraldo, marido de Gisele, não é tratado pela polícia como investigado ou suspeito pela morte.
A SSP afirma que a investigação é acompanhada pela Corregedoria da Polícia Militar. A defesa do tenente-coronel diz que ele tem colaborado com as autoridades e reforça que não figura como investigado, suspeito ou indiciado no procedimento formal em curso.
PM encontrada morta em SP: veja dinâmica descrita pela polícia
O que se sabe sobre o caso
O disparo que matou a policial ocorreu às 7h28, de acordo com uma vizinha que acordou com o estampido e verificou o relógio do celular. No apartamento estava apenas o marido da vítima, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos.
Em depoimento à polícia, Geraldo afirmou que acordou por volta das 7h e comunicou à esposa que desejava se separar. Segundo ele, Gisele teria se exaltado e o expulsado do quarto.
O tenente-coronel disse que foi tomar banho e que, excepcionalmente naquele dia, deixou a porta da suíte destrancada, onde sua pistola calibre .40 estava guardada sobre um armário.
Cerca de um minuto depois de entrar no chuveiro, afirmou ter ouvido um estrondo. Ao sair do banheiro, relatou ter encontrado a esposa caída na sala, vestindo apenas uma toalha, com ferimento na cabeça e segurando a arma.
Após o ocorrido, ele acionou o resgate e telefonou para um amigo pessoal, o desembargador do TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo), Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan.
Contradições
Relatos de funcionários do condomínio e socorristas levantaram dúvidas sobre a versão apresentada. Testemunhas disseram que o tenente-coronel aguardava no corredor do prédio sem camisa e sem manchas de sangue nas mãos ou no corpo, o que indicaria que ele não tentou prestar socorro à esposa.
Socorristas também relataram estranhamento com a cena. Um dos bombeiros afirmou que conseguiu retirar a arma da mão da vítima com facilidade, sem o espasmo muscular normalmente observado em suicídios por arma de fogo.
Além disso, o cartucho da munição deflagrada não foi encontrado no local, mesmo após buscas feitas pelas equipes de resgate.
Banho e limpeza no apartamento
Outro ponto questionado pela investigação foi a decisão do oficial de retornar ao apartamento e tomar banho logo após a vítima ser levada ao hospital.
Segundo policiais presentes, ele ignorou orientações para preservar o local e seguiu para o imóvel acompanhado do desembargador Cogan, permanecendo cerca de 20 minutos no interior do apartamento antes de trocar de roupa.
A inspetora do condomínio relatou à polícia que, no final da tarde do mesmo dia, três policiais militares foram ao apartamento e realizaram a limpeza do imóvel.
No dia seguinte, outros dois policiais voltaram ao local afirmando que buscariam munições pertencentes à vítima, permanecendo cerca de uma hora no apartamento sem localizar o material.