Máscaras e agressões: Como está a atuação dos agentes de imigração dos EUA

Em Los Angeles, uma imigrante colombiana que fazia uma transmissão ao vivo foi tirada à força do carro por agentes federais mascarados e detida no chão enquanto gritava.

Nas proximidades da cidade de San Bernardino, também na Califórnia, oficiais mascarados da Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA, durante uma operação de fiscalização de imigração, quebraram a janela de um veículo e dispararam várias vezes contra o carro ao mesmo tempo em que as pessoas dentro dele aceleravam.

E na capital Washington, um vídeo mostra oficiais mascarados lutando para prender um homem antes que ele aparentemente seja atingido por um taser e imobilizado na calçada, enquanto testemunhas observavam e zombavam da situação.

Estes são apenas alguns exemplos do crescente número de prisões similares de imigrantes por todo o país. Agentes federais usando máscaras, vindos de agências não identificadas e dirigindo veículos sem identificação, têm usado táticas agressivas para prender imigrantes em cidades movimentadas.

Essas prisões se tornaram mais visíveis e notáveis desde o início do segundo mandato do presidente Donald Trump. Para os espectadores, essas prisões podem parecer verdadeiros sequestros.

Ainda assim, o uso da força pelos agentes federais nestas situações não é totalmente diferente das táticas comuns de aplicação da lei, segundo especialistas em policiamento.

“O trabalho policial pode ser bastante feio”, disse Thaddeus Johnson, ex-oficial da lei no Tennessee e membro sênior do Conselho de Justiça Criminal. “O policiamento pode ser feio, mas ainda assim deve ser profissional.

E pode ficar ainda mais feio quando as pessoas resistem ou não obedecem às ordens, como mostram vários vídeos das prisões de imigrantes.

Prisão de imigrante feita por agentes federais mascarados em São Francisco • Reuters
Prisão de imigrante feita por agentes federais mascarados em São Francisco • Reuters

“Quando há resistência, pode ficar feio, sempre foi assim, e as pessoas se machucam”, disse Jerry Robinette, ex-agente especial responsável pelas Investigações de Segurança Interna do ICE (Imigração e Alfândega dos EUA). Agentes e oficiais se machucam.”

Mesmo assim, a repressão tem provocado medo nas comunidades imigrantes e forçado famílias a viverem nas sombras. Esse é exatamente o objetivo, disse Thaddeus Johnson.

“Não nos importamos com a carnificina que isso causa, não nos importamos se isso destrói as coisas, nosso principal objetivo é garantir que tenhamos apenas cidadãos documentados em nosso país.” Essa é a mensagem que está sendo enviada”, disse Johnson.

“Isso está sendo feito propositalmente em lugares que parecem chamar a atenção do público para enviar essa mensagem de dissuasão sobre a qual estou falando”, acrescentou o ex-oficial da lei.

Identidades ocultas em áreas públicas

Muitas dessas gravações de prisões de imigrantes apresentam táticas policiais agressivas, identidades mascaradas e ocorrem em áreas públicas. O diretor interino do ICE, Todd Lyons, disse que os oficiais federais estão ocultando suas identidades para proteger suas famílias depois que alguns foram identificados publicamente e assediados.

“Lamento se as pessoas se ofendem com eles usando máscaras, mas não vou deixar meus oficiais e agentes saírem por aí e colocarem suas vidas em risco, e suas famílias em risco, porque as pessoas não gostam do que é a aplicação da lei de imigração”, disse Lyons.

Não existe uma política federal que determine quando os oficiais podem ou devem cobrir seus rostos durante as prisões. Historicamente, os oficiais quase sempre ocultaram seus rostos apenas durante trabalhos disfarçados para proteger a integridade das investigações em andamento, especialistas em aplicação da lei disseram à CNN.

O Departamento de Segurança Interna disse que os oficiais do ICE enfrentaram um aumento significativo de agressões este ano em comparação com o ano anterior.

“Bravos agentes da lei do ICE estão arriscando suas vidas todos os dias para manter nossas comunidades seguras dos piores criminosos”, disse a secretária assistente do DHS (Departamento de Segurança Interna), Tricia McLaughlin.

“Os agentes do ICE estão conseguindo remover terroristas, assassinos, pedófilos e os mais depravados entre nós das comunidades americanas, mesmo quando a retórica insana de políticos deploráveis está inspirando um aumento massivo nas agressões contra eles. É reprovável que nossos oficiais estejam enfrentando essa ameaça enquanto simplesmente fazem seu trabalho e aplicam a lei”, completou McLaughlin.

A CNN entrou em contato com o ICE para comentários adicionais sobre suas táticas de prisão e políticas de identificação.

As prisões também são mais públicas e acontecem durante o dia, frequentemente em grandes cidades. Em estados de tendência Democrata, cerca de 70% das prisões do ICE ocorreram na comunidade, enquanto em estados de tendência Republicana, 59% das prisões ocorreram em presídios e cadeias, segundo uma análise da CNN.

Autoridades de Trump dizem que as diferentes táticas são resultado das chamadas “políticas santuário” em muitas áreas controladas pelos Democratas que limitam a cooperação de presídios e cadeias com o ICE, fazendo com que as prisões de imigrantes ocorram na comunidade em vez de em centros de detenção.

Cidades santuário vão receber exatamente o que não querem, mais agentes nas comunidades e mais fiscalização nos locais de trabalho”, disse o czar da fronteira de Trump, Tom Homan.

“Por que isso? Porque eles não permitem que um agente prenda um criminoso em uma prisão.”

‘O risco é realmente óbvio’

Na prática, porém, o ocultamento dos rostos, distintivos e uniformes de identificação dos agentes tem dificultado o público a saber se as prisões são legítimas. John Sandweg, ex-diretor interino do ICE durante o governo do presidente Barack Obama, disse que era “extremamente perigoso” os agentes realizarem prisões sem se identificarem claramente.

“O risco é realmente óbvio, certo? Você está lá e, de repente, um grupo de homens mascarados surge e agarra alguém na rua”, disse ele no podcast CNN One Thing. “Existem pessoas bem-intencionadas que podem pensar que precisam intervir para ajudar e que estão testemunhando um sequestro.”

Agentes federais mascarados andando nas ruas de São Francisco • Reuters
Agentes federais mascarados andando nas ruas de São Francisco • Reuters

Thaddeus Johnson, o ex-oficial da lei no Tennesse, disse que, como homem negro, ele entende o medo da polícia comum nas comunidades negras e pardas. A resistência, segundo ele, é frequentemente baseada nesse medo.

“Sempre digo às pessoas: “Sim, obedeçam”, mas quando as pessoas não veem as operações, a polícia ou o governo como legítimos, é uma montanha difícil de escalar para simplesmente confiar e obedecer quando você tem agentes usando máscaras”, disse ele.

“(Eles pensam,) “Não confio nisso, não sei o que está acontecendo, não tenho como reclamar ou identificar ou saber quem realmente são essas pessoas, se são realmente agentes federais.” … Você acaba colocando os policiais em mais perigo também”, acrescentou Johnson.

Além disso, a repressão total do governo Trump aos imigrantes é uma mudança drástica em lugares onde as leis de imigração raramente, ou nunca, foram aplicadas – e em uma era em que todos têm uma câmera no bolso.

“Naturalmente, as pessoas não estavam realmente acostumadas a ver o que estão vendo agora”, disse Jerry Robinette, ex-agente especial responsável pelas Investigações de Segurança Interna do ICE.

Um vídeo da prisão de dois irmãos indocumentados em Norwalk, Connecticut, na semana passada, mostrou o caos e a confusão em torno de muitas das detenções de imigração que se espalharam online.

O vídeo feito por Leonel Chavez mostra dois oficiais, um mascarado, puxando agressivamente seu braço enquanto ele está sentado dentro de um carro, parcialmente preso pelo cinto de segurança.

Enquanto os oficiais exigem que ele saia do veículo e diga seu nome, Chavez repetidamente pergunta por quê e o que os oficiais estão procurando. Eles não respondem suas perguntas e dizem que ele está preso.

Um segundo vídeo filmado por um pedestre mostra o irmão de Chavez, Ricardo, fugindo de um agente antes de ser atingido por um taser e cair no chão. O agente é então visto colocando seu joelho próximo ao pescoço de Ricardo, cujo rosto aparece ensanguentado pela queda, numa tentativa de dominá-lo, antes de levá-lo.

Leonel pode ser ouvido gritando ao fundo e depois é visto algemado contra uma caminhonete vermelha, enquanto grita para ver um mandado de prisão.

O DHS disse à CNN em um comunicado que agentes do ICE estavam operando em Norwalk na semana passada, mas não especificou se foram oficiais do ICE que prenderam os irmãos Chavez.

Leonela Chavez, filha de Leonel, confirmou à CNN que tanto seu pai quanto seu tio não possuem documentos legais, mas questionou as ações dos agentes. De acordo com documentos judiciais, Leonel tem várias condenações por contravenções, mas registros públicos não fornecem informações detalhando a situação de cada infração.

A CNN não encontrou antecedentes criminais de Ricardo Chavez em Connecticut.

Impacto a longo prazo na confiança pública

O uso de máscaras também cria um ceticismo mais amplo sobre o trabalho do ICE, incluindo seus esforços para investigar grupos transnacionais, tráfico de drogas e tráfico humano, disse John Sandweg, ex-diretor interino do ICE.

“Acho que, de certa forma, as máscaras só estão alimentando essa indignação. Elas estão reforçando essa narrativa que, infelizmente, muitas pessoas atribuem ao ICE de uma agência sem lei”, disse ele.

Há também preocupação de que os esforços da agência prejudiquem a confiança do público no policiamento, criando riscos de segurança pública a longo prazo.

Para conduzir uma investigação adequada, a polícia precisa que vítimas e testemunhas – independentemente de seu status de cidadania – se apresentem e falem honestamente com a polícia sobre os perigos para o público.

Mas um imigrante que testemunha um crime pode ter menos probabilidade de se manifestar se temer ser preso.

As forças policiais locais geralmente entendem a importância de ganhar a confiança da comunidade, disse Jenn Rolnick Borchetta, diretora adjunta de projeto sobre policiamento na ACLU (União Americana pelas Liberdades Civis) – algo que ela disse não ter visto no nível federal de imigração.

“Uma coisa que acho impressionante é que, neste momento, parece que os agentes federais de imigração não têm ideia do que deveriam estar fazendo para ganhar confiança, ou que a confiança é importante de se conquistar”, disse Borchetta.

FONTE

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *