Lideranças europeias defenderam uma maior “independência” dos Estados Unidos ao longo do segundo dia de cerimônias no Fórum Econômico de Davos, na Suíça. As declarações são uma resposta às pressões e ameaças de Donald Trump à integridade territorial da Groenlândia.
“A velha ordem mundial acabou”, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Ao longo do discurso, von der Leyen externalizou a frustração da União Europeia diante dos americanos e destacou a tentativa do bloco econômico de encontrar uma resposta a Trump.
“A Europa precisa acelerar sua corrida para a independência”, seguiu a presidente, “da segurança à economia, da defesa à democracia. Ter um diálogo com nossos amigos e parceiros, mas também, se necessário, com adversários. O ponto é que o mundo mudou permanentemente, e nós precisamos mudar com ele”, afirmou.
Ao longo dos últimos anos, o continente demonstrou ter uma burocracia arrastada para mudanças substanciais e dificuldades para organizar ações conjuntas.
Diante das críticas de Trump, algumas lideranças cobram decisões mais duras contra o republicano, mostrando o fim da “leniência” do continente. O presidente da França, Emmanuel Macron, voltou a pedir que a União Europeia utilize a “bazuca comercial” contra os Estados Unidos.
“A Europa tem várias ferramentas poderosas agora, e nós temos que utilizá-las quando não somos respeitados e quando as regras do jogo também não são respeitadas. O mecanismo anti-coerção é um instrumento poderoso e nós não deveríamos hesitar em acioná-lo no ambiente duro de hoje”, disse o francês.
Além de impor tarifas, a medida dificulta investimentos e seria capaz de bloquear parte do acesso americano ao mercado do bloco.
O primeiro-ministro belga, Bart De Wever, subiu o tom e disse que a Europa estava sendo “escrava” dos EUA.
“Até agora, nós tentamos apaziguar o novo presidente na Casa Branca. Mas muitas linhas vermelhas estão sendo cruzadas. Você tem a escolha entre seu autorrespeito — ser um vassalo feliz é uma coisa, ser um escravo miserável é algo diferente”, apontou Wever durante uma conferência em Davos.
Em uma primeira reação às ameaças de Trump, o Parlamento Europeu suspendeu o acordo tarifário com os Estados Unidos assinado em 2025. O texto era visto com ceticismo, considerando que os americanos deixaram uma tarifa de 15% contra os europeus sem nenhuma retaliação.
Em discurso aos eurodeputados, a chefe da Política Externa do bloco, Kaja Kallas, rechaçou os planos de Trump de anexar a Groenlândia e reforçou que não irá ceder às intimidações da Casa Branca.
“Deixe-me ser clara: ameaças de tarifas não vão pressionar a Dinamarca a entregar a Groenlândia. Elas só arriscam tornar a Europa e os Estados Unidos mais pobres. Nós não temos interesse em começar uma briga, mas nós vamos defender o nosso solo”, disse Kallas.
Com as idas e vindas, Trump mantém na instabilidade sua principal arma – mesmo contra aliados – e deixa a porta aberta para qualquer possibilidade frente à Groenlândia e às relações com a Europa e com outros membros da Otan.