Insegurança e desigualdade: O que está em jogo nas eleições da Costa Rica?

A Costa Rica vai às urnas neste domingo (1°) para definir a presidência da república, duas vice-presidências e as 57 cadeiras da Assembleia Legislativa, em meio a uma crescente preocupação com a segurança, que, segundo as pesquisas, é a prioridade dos eleitores na hora de escolher um candidato.

Outras novas preocupações também mobilizarão os costarriquenhos: a deterioração da educação pública e a ausência de um diálogo social que permita traçar um rumo claro para o país.

O processo eleitoral contou com 20 candidatos, mas especialistas concordam que a fragmentação política não foi acompanhada por um debate nacional profundo sobre os principais desafios.

Segurança na cidade, o declínio da educação e da saúde e a necessidade de um modelo de desenvolvimento que aborde esses desafios são questões centrais, porém sem consenso ou acordos de longo prazo. Pelo contrário, a polarização marcou a campanha para suceder Rodrigo Chávez.

Laura Fernández, de 39 anos, ex-ministra do Planejamento Nacional e integrante do partido governista, lidera as intenções de voto com 43,8%, segundo a pesquisa mais recente do CIEP-UCR (Centro de Pesquisas e Estudos Políticos da Universidade da Costa Rica).

A candidata presidencial de direita, Fernández, vota na abertura das urnas na Costa Rica • REUTERS
A candidata presidencial de direita, Fernández, vota na abertura das urnas na Costa Rica • REUTERS

Com esses resultados, Fernández permanece próxima de garantir a presidência no primeiro turno, enquanto os indecisos ocupam o segundo lugar, representando 25,9% do eleitorado.

Na Costa Rica, um candidato precisa obter pelo menos 40% dos votos válidos para vencer a presidência no primeiro turno. Caso nenhum candidato atinja esse patamar, os dois candidatos mais votados disputam um segundo turno, conforme estabelecido pelo Tribunal Supremo Eleitoral.

Crescimento econômico com benefícios desiguais

Segundo o relatório PEN (Estado da Nação 2025), uma iniciativa que analisa o desempenho do país há mais de 30 anos, a Costa Rica apresentou uma recuperação econômica em 2024 e no primeiro semestre de 2025.

O país se posicionou como o melhor desempenho econômico dentro da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

Embora esse crescimento tenha permitido maior estabilidade de preços e redução em alguns indicadores, como a pobreza, o estudo alerta que o sucesso é desigual.

O dinamismo permanece concentrado nas zonas de livre comércio, enquanto a economia tradicional e a geração de empregos formais crescem a um ritmo muito mais lento, aprofundando a desigualdade social.

Segundo a Enaho (Pesquisa Nacional de Domicílios) de 2025, a pobreza na Costa Rica caiu para 15,2%, uma redução significativa de 2,8 pontos percentuais em comparação com os 18% registrados em 2024.

lei do regime de zona franca acomoda indústrias em uma área delimitada e com um conjunto de incentivos que o Estado concede às empresas que realizam novos investimentos no país, como dispositivos médicos que levam às exportações para os Estados Unidos, além de software e serviços de segurança cibernética.

O Ministério do Comércio Exterior afirma que a OCDE elogia as conquistas, levando em consideração que, em 2024, a Costa Rica liderou o desempenho econômico entre as economias que compõem a organização, com 4,3%, enquanto a média foi de 1,8%.

Enfraquecimento da ligação entre economia e bem-estar

No entanto, o relatório Estado da Nação destaca uma discrepância crítica entre o aumento da produtividade e a renda real dos trabalhadores. Apesar de apresentar indicadores macroeconômicos de destaque internacional, o país enfrenta sérios problemas com a redistribuição de renda, alerta o relatório.

Ele acrescenta que a redução da pobreza não se deve ao fortalecimento do mercado de trabalho, mas a fatores externos ao crescimento, o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade a longo prazo diante do aumento da informalidade.

'Precisamos aproveitar esta oportunidade', dizem os costarriquenhos em meio às eleições gerais • REUTERS
‘Precisamos aproveitar esta oportunidade’, dizem os costarriquenhos em meio às eleições gerais • REUTERS

De acordo com Leonardo Merino, cientista político e pesquisador do PEN, o país atravessa um momento crítico, pois também vivencia um enfraquecimento contínuo de sua cultura cívica e dos mecanismos tradicionais de representação política.

“Hoje não estamos construindo o diálogo social que a Costa Rica desenvolveu no passado, particularmente em meados do século XX, quando o país concebia seu Estado, seu sistema público de educação, a saúde e o meio ambiente como parte de um projeto comum de bem-estar”, destaca Merino.

O cientista político explica que, durante pelo menos três décadas, não houve uma discussão nacional articulada e concreta sobre como corrigir, adaptar e atualizar o estilo de desenvolvimento que, durante anos, permitiu melhorias sustentadas na qualidade de vida.

“Não há deliberação democrática sobre a direção que o país deve tomar. O contrato social que presumimos ter — baseado em trabalho, educação, mobilidade social e proteção ambiental — enfrenta atualmente problemas estruturais que ainda não foram resolvidos”, afirma Merino.

Merino também destaca que a Constituição Política estabelece a promessa de uma sociedade democrática orientada para o bem-estar coletivo, por meio da distribuição justa da riqueza, do incentivo à produção e da proteção ambiental, inclusive reconhecida como um direito constitucional.

No entanto, ele argumenta que esse pacto social foi corroído por um modelo econômico que conseguiu crescer sem gerar bem-estar para a maioria da população.

“A Costa Rica dissociou o crescimento econômico do bem-estar da população. As zonas francas são o principal motor do crescimento, mas representam apenas 12% do emprego e cerca de 15% da produção. A economia de mercado interna, onde vive a maioria da população, está crescendo lentamente e tem sido negligenciada”, explica.

Essa erosão também se reflete no crescente desinteresse do público pela política partidária. Segundo Merino, há três décadas, quase 100% da população se declarava apoiadora de algum partido político; hoje, esse número gira em torno de apenas 17%.

“De todo o recenseamento eleitoral, o último presidente foi eleito por apenas 10% dos eleitores aptos a votar, e o anterior por 16%. É uma tendência preocupante: cada vez menos pessoas votam, os jovens participam menos e agora até os idosos estão se abstendo das urnas”, alerta ele.

Em 2022, a Costa Rica registrou a menor taxa de comparecimento às urnas da sua história recente, com a abstenção próxima a 40%. Isso significa que dois em cada cinco eleitores não votaram, em um país onde o modelo de desenvolvimento já não gera bem-estar ou segurança para a maioria, segundo o relatório Estado da Nação.

Eleitor nas urnas das eleições de 2026 na Costa Rica • REUTERS
Eleitor nas urnas das eleições de 2026 na Costa Rica • REUTERS

Uma interpretação semelhante é oferecida por José Andrés Díaz González, cientista político e coordenador do Programa Limiar Político do IDESPO (Instituto de Estudos Sociais em População) da Universidade Nacional, que enfatiza que o que está em jogo transcende um processo eleitoral.

“Os alicerces do contrato social estão se enfraquecendo: a saúde, com a deterioração acelerada do Fundo de Seguridade Social da Costa Rica; a educação, como motor da mobilidade social; e a segurança, com o aumento dos homicídios e a perda da sensação de segurança nos lares”, destaca Díaz.

O judiciário relata que os últimos três anos foram os mais violentos na Costa Rica, com 905 homicídios em 2023, um recorde histórico, muitos deles atribuídos ao narcotráfico pelo governo.

A Costa Rica não está sozinha nessa tendência: o aumento da criminalidade, particularmente relacionada ao crime organizado, e o medo da insegurança determinaram o voto de milhares de latino-americanos em eleições do Equador ao Chile e Honduras nos últimos meses.

Díaz também destaca a forma como os conflitos sociais e a dissidência democrática estão sendo geridos.

“O que está em jogo é se permitiremos uma sociedade onde as opiniões divergentes sejam excluídas, onde a busca coletiva por soluções deixe de importar e onde as pessoas que expressam as ideias tenham mais peso do que as próprias ideias”, salienta.

A este cenário soma-se uma mudança demográfica significativa que, segundo Díaz, não tem sido seriamente incorporada ao debate político.

“Estamos em uma transição demográfica, o que significa que menos pessoas terão que produzir mais. Daqui a 15 ou 20 anos, o sistema previdenciário estará sob maior pressão, haverá menos contribuintes, menos arrecadação de impostos e maiores demandas por cuidados com a população idosa”, explica ele.

Essa mudança também terá impactos no desenvolvimento urbano, no mercado imobiliário e na estrutura de emprego, aspectos que, segundo o acadêmico, não fazem parte da atual discussão eleitoral.

Ambos os cientistas políticos concordam que o pacto social da Costa Rica — construído ao longo de mais de um século e baseado na democracia, em instituições fortes, na educação, na saúde e na proteção ambiental — está em risco.

O ambientalismo, outro pilar histórico da identidade nacional, também enfrenta tensões. O discurso de uma “Costa Rica verde”, fortalecido desde a década de 1990, agora coexiste com propostas de exploração de recursos naturais como mineração, gás e petróleo,

Segundo especialistas, isso coloca em questão um dos fundamentos do orgulho nacional.

“Não se trata apenas de uma eleição. Se nada for feito, a deterioração poderá continuar, e até agora nenhum partido político abordou esta questão com a seriedade que ela exige”, afirma Díaz.

Segundo dados do Tribunal Supremo Eleitoral, mais de 3,7 milhões de pessoas estão cadastradas no conselho eleitoral, 4,3% a mais do que nas eleições presidenciais de 2022. A província de San José concentra o maior número de eleitores cadastrados.

Nesse contexto, o dia da eleição não apenas definirá as autoridades, mas também testará a capacidade do sistema político de se reconectar com uma cidadania cada vez mais distante e de responder às tensões acumuladas no contrato social costarriquenho.

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