O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, afirmou, nesta terça-feira (17), que o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, restabeleceu seu visto americano.
Os EUA tinham cancelado o visto de Petro, em setembro do ano passado, depois que ele pediu publicamente aos soldados americanos para desobedecerem as ordens de Trump.
“Meu visto para os EUA como presidente foi restabelecido até o final do meu mandato”, escreveu o presidente colombiano nas redes sociais, nesta terça.
Mi visa hacia EEUU como presidente me fue devuelta hasta el final del mandato. Después realmente no necesito visa, pero espero, dado que no hay razón alguna para estar allí, que se me retire de la lista por decisión propia del governo de EEUU.
Había Europa y el resto del mundo… https://t.co/ra26k2SNc6
— Gustavo Petro (@petrogustavo) March 17, 2026
“Depois disso, não precisarei do visto, mas acredito que, como não há motivo para eu estar lá, serei removido da lista por decisão do próprio governo americano”, acrescentou Petro, dizendo que não terá problema em viajar enquanto houver a Europa e o resto do mundo.
Depois de um ano marcado por tensões e embates públicos, Trump e Petro normalizaram a relação em um encontro na Casa Branca, em fevereiro deste ano.
Após a reunião, o presidente dos EUA disse que se deu “muito bem” com o líder colombiano e que o considerou “fantástico”.
Ao ser questionado se havia avançado em um acordo para o combate às drogas — uma das principais exigências dos EUA à Colômbia — Trump afirmou que trabalhará nisso com Petro.
“Nos demos muito bem. Ele e eu não éramos exatamente melhores amigos, mas não me senti ofendido porque nunca o tinha conhecido. Eu não o conhecia de forma alguma”, disse.
O presidente americano acrescentou que foi uma reunião “muito boa” e que os líderes trabalharam em outras questões, como “sanções”, sem dar mais detalhes.
Quando questionado se os Estados Unidos colaborariam com Petro para combater grupos guerrilheiros e organizações terroristas na Venezuela, Trump respondeu: “Eles querem que façamos isso, e nós faremos”.
Relembre a crise entre Petro e Trump
A relação entre os Estados Unidos e a Colômbia é frequentemente considerada uma das mais estáveis das Américas, especialmente em termos de segurança e defesa. Mas começou a apresentar sinais de tensão em janeiro de 2025, mês em que Trump iniciou seu segundo mandato presidencial.
Como parte de sua repressão à imigração ilegal, uma das primeiras medidas de Trump foi lançar uma campanha de deportação em massa, que incluiu o uso de aviões militares para expulsar imigrantes, às vezes com as mãos atadas.
Indignado com a forma como os deportados estavam sendo devolvidos, Petro impediu que dois desses voos pousassem em seu país, afirmando que “nunca permitiria que colombianos fossem trazidos de volta algemados em voos”.
No entanto, Petro voltou atrás mais tarde naquele mesmo dia, depois que o governo Trump ameaçou impor tarifas e sanções. A Colômbia anunciou que aceitaria “todas” as condições de Trump, incluindo a “aceitação irrestrita de imigrantes indocumentados” que entrassem nos EUA.

Disputa sobre gangue criminosa
Em março de 2025, durante uma reunião em Bogotá, a então secretária de Segurança Interna dos EUA, Kristi Noem, afirmou que Petro se referiu a membros da organização criminosa venezuelana Tren de Aragua como “seus amigos” e os descreveu como pessoas incompreendidas que simplesmente precisavam de “mais amor e mais compreensão”.
Petro negou ter feito esses comentários e sugeriu que a confusão pode ter surgido de uma interpretação errônea de suas palavras devido ao seu domínio limitado do inglês.
O Tren de Aragua, designado como organização terrorista estrangeira pelo governo Trump, é uma gangue criminosa transnacional que teve origem em uma prisão venezuelana e expandiu gradualmente sua atuação por todo o continente nos últimos anos.
Revogação do visto de Petro
Os Estados Unidos são o principal parceiro comercial da Colômbia, e Bogotá é considerada um dos principais aliados de Washington na luta contra as drogas e o narcoterrorismo.
No entanto, em meados de setembro do ano passado, o governo Trump afirmou que a Colômbia havia falhado em suas obrigações de combater o narcotráfico e decidiu retirar a certificação do país como parceiro no combate às drogas.
O governo Trump culpou Petro pelos supostos fracassos, mas Petro insistiu que a Colômbia estava ajudando os EUA e que o uso de drogas era um problema da sociedade americana, não da Colômbia.
“Os EUA revogaram nossa certificação após dezenas de mortes entre policiais, soldados e civis que tentavam desmantelar o tráfico de cocaína”, disse Petro.
Mais tarde naquele mês, o presidente colombiano irritou os EUA depois de ter instado publicamente os soldados americanos a desobedecerem a Trump.
Petro esteve em Nova York para discursar na Assembleia Geral da ONU, onde também chamou Trump de “cúmplice do genocídio” em Gaza.

Em resposta, o Departamento de Estado dos EUA anunciou que revogaria o visto de Petro “devido às suas ações imprudentes e incendiárias”.
Petro alegou posteriormente que não precisava de visto para viajar aos EUA porque é cidadão europeu.
Sancionado pelos EUA
Em outubro de 2025, Trump intensificou seus ataques contra Petro.
Ele o chamou de “bandido” e o culpou pela produção de drogas ilícitas que chegam aos Estados Unidos. Isso aconteceu um mês depois de os militares americanos lançarem uma campanha no Caribe e no Pacífico para destruir supostos navios de tráfico de drogas, uma operação que Petro criticou.
Petro afirmou na época que se defenderia “contra as calúnias que lhe foram imputadas” com o auxílio de advogados americanos.
Apenas dois dias após essa troca, o Departamento do Tesouro dos EUA anunciou sanções contra o líder colombiano, com acusações de envolvimento no tráfico internacional de drogas.
“Desde que o presidente Gustavo Petro chegou ao poder, a produção de cocaína na Colômbia explodiu, atingindo o nível mais alto em décadas, inundando os Estados Unidos e envenenando americanos”, disse o secretário do Tesouro, Scott Bessent.

Petro, que rejeitou repetidamente tais acusações, afirmou ter contratado um advogado americano e que pretendia contestar as sanções.
Ele também insistiu que a produção de cocaína não aumentou durante seu mandato. “Pelo contrário, meu governo apreendeu mais cocaína do que em toda a história do mundo”, declarou.
A lista de pessoas sancionadas pelo Tesouro dos EUA também incluía a esposa de Petro, Verónica Alcocer, seu filho Nicolás Petro e o ministro do Interior, Armando Benedetti.
Em novembro, Petro tornou públicas suas contas bancárias para demonstrar, segundo ele, que não possui ligações com o tráfico de drogas.
Escalada de tensão e captura de Maduro
A disputa entre Trump e Petro se intensificou nos primeiros dias de dezembro.
Após o presidente dos EUA sugerir que qualquer país que traficasse drogas para os Estados Unidos estaria “sujeito a ataques”, Petro alertou Trump para não ameaçar a soberania da Colômbia.
Ele também convidou Trump para visitar a Colômbia para que pudesse ver em primeira mão os esforços do país para desmantelar o tráfico de drogas.
Dias depois, Trump sugeriu que os EUA poderiam aplicar a mesma pressão sobre Petro que estavam exercendo na época sobre Maduro, da Venezuela.

“É melhor ele cair na real ou será o próximo”, disse Trump, alegando que o líder colombiano havia sido “bastante hostil” aos Estados Unidos.
Petro respondeu dizendo que Trump estava “mal informado” sobre a Colômbia.
Um ponto de virada ocorreu em 3 de janeiro de 2026, quando os militares dos EUA realizaram um ataque dentro da vizinha Venezuela e capturaram Nicolás Maduro.
Inicialmente, Petro minimizou as consequências da operação americana, enquanto Trump emitiu um alerta severo ao presidente colombiano.
“Ele está produzindo cocaína e enviando para os Estados Unidos”, disse Trump. “Então, ele precisa esperto.”
Trump prosseguiu descrevendo Petro como “um homem doente que gosta de produzir cocaína e vendê-la para os Estados Unidos, e ele não vai continuar fazendo isso por muito tempo”.
Petro rejeitou as acusações e falou em “pegar em armas”, se necessário, para defender a soberania da Colômbia.
A trégua
Dias depois, a ministra das Relações Exteriores da Colômbia, Rosa Yolanda Villavicencio, indicou que se reuniria com um representante dos Estados Unidos para discutir as ameaças de Trump.
Em 7 de janeiro, os dois líderes realizaram uma ligação telefônica inesperada que sinalizou uma trégua diplomática.
Petro afirmou que sua conversa telefônica com Trump ajudou a aliviar as tensões entre os dois governos. Ele disse que concordaram em restabelecer os canais de comunicação direta, mas insistiu que a operação dos EUA na Venezuela era “ilegal”.

Trump disse que “apreciou” a ligação e convidou Petro para uma reunião na Casa Branca, um gesto que interrompeu abruptamente meses de crescente atrito.
Antes da reunião, Trump disse que Petro havia mudado seu tom no último mês.
“Ele certamente era crítico antes disso. Mas, de alguma forma, depois do ataque à Venezuela, ele se tornou muito simpático. Ele mudou muito de atitude”, disse Trump a repórteres.
A presidência colombiana afirmou que a reunião serviria para “definir prioridades estratégicas e fortalecer as linhas de cooperação”.
A viagem de Petro incluiu também atividades políticas, acadêmicas e empresariais, além de encontros com a diáspora colombiana nos Estados Unidos. A presidência descreveu como um “marco nas relações bilaterais”.