Os negócios de agro e alimentos do Grupo Fictor já sentem os efeitos da crise reputacional desencadeada pela tentativa de compra do Banco Master, segundo laudo da Laspro Consultores anexado ao processo de recuperação judicial, ao qual a CNN Brasil teve acesso.
O documento aponta que a associação do grupo ao caso envolvendo o Banco Master levou a cancelamentos de contratos, retração de fornecedores e a uma forte pressão de investidores, com reflexos diretos na liquidez e no encerramento de parte das operações de grãos.
“A crise reputacional enfrentada pelo Grupo Fictor, decorrente da associação com o Banco Master, teve um impacto direto nos negócios de comercialização de grãos, que foram encerrados”, disse a Laspro Consultores no laudo.
“A crise também afetou a confiança de investidores e parceiros comerciais, resultando em cancelamentos contratuais, retração de fornecedores e dificuldades financeiras. Apesar disso, algumas unidades do segmento de alimentos e agro continuam operando, com plantas industriais e estruturas produtivas em funcionamento”, acrescentou.
O documento também destaca a necessidade de maior transparência. “No entanto, o documento aponta para a necessidade de maior transparência e monitoramento das operações financeiras e patrimoniais do grupo, especialmente no que diz respeito às transações entre as empresas do segmento agro e alimentos e outras subsidiárias do Grupo Fictor”, disse.
Em outubro de 2025, a Fictor Holding transferiu R$ 131,6 milhões para as subsidiárias, incluindo R$ 14,7 milhões para a Fictor Alimentos e R$ 7 milhões para a Fictor Agro
A Fictor Holding e a Fictor Invest entraram com pedido de recuperação judicial em 2 de fevereiro. As empresas afirmam que sofreram um “abalo reputacional súbito e relevante” após a proposta de aquisição do Banco Master e a posterior liquidação extrajudicial da instituição pelo Banco Central do Brasil.
De acordo com o laudo, investidores que aplicaram recursos por meio de SCPs (Sociedades em Conta de Participação), modelo previsto no Código Civil, teriam solicitado o resgate de cerca de R$ 3 bilhões, o equivalente a 71,38% do total aportado. Segundo as requerentes, os recursos eram destinados principalmente à comercialização de grãos, atividade que foi posteriormente encerrada.
Agro
No braço agrícola, o laudo descreve situações distintas entre as empresas do grupo.
A Fictor Agro Holding, controlada diretamente pela holding do grupo, foi verificada em fevereiro de 2026 com funcionamento administrativo ativo, embora predominantemente em regime de home office.
Já a Fictor Agro Comércio de Grãos não apresentava atividade operacional no endereço informado. Em diligência realizada no início de fevereiro, a unidade estava de portas fechadas, sem funcionários ou movimentação.
Por outro lado, a Fictor Agroindustrial, subsidiária integral da holding, mantém operações no Maranhão em parceria com empresas detentoras de silos. Na unidade de Balsas (MA), foram constatados galpão de armazenamento, balança em funcionamento, maquinário para movimentação de carga, estoque físico de arroz e prédio administrativo. A operação está vinculada à safra 2025/26, com colheita prevista para março.
O laudo também registra que alguns endereços indicados para diligência não possuem vínculo societário direto com o Grupo Fictor, apontando a necessidade de esclarecimentos adicionais.
Alimentos
No setor de alimentos, as empresas Fictor Alimentos Ltda. e Fictor Alimentos S.A., também controladas pela holding, apresentavam atividades principais em funcionamento, com operações administrativas centralizadas e majoritariamente remotas.
A Fredini Alimentos opera com cerca de 430 colaboradores. As unidades de armazenagem em Pequi (MG) e a fábrica de ração em Maravilhas (MG) estavam em funcionamento. A fábrica tem capacidade de produção de 30 toneladas por hora e realiza cerca de 10 rotas diárias para abastecimento de aviários integrados.
A Fictor Alimentos Betim, conhecida como Mellore, também foi verificada em plena atividade, com produção, movimentação de cargas e administração em operação. Embora não esteja incluída no pedido de recuperação judicial, é integralmente controlada pela Fictor Alimentos S.A.
No caso do Frigorífico Atalaia, após um embaraço inicial à fiscalização, o laudo apontou funcionamento regular das unidades industriais. A fábrica de ração em Coronel Xavier Chaves (MG) tem capacidade de 30 toneladas por hora e emprega cerca de 30, enquanto o frigorífico em Prados (MG) possui capacidade de abate de 40 mil aves por dia e cerca de 500 empregados.
Situação diferente foi registrada na Fictor Alimentos Rio. Em janeiro de 2026, houve a rescisão do contrato de arrendamento firmado com a empresa Rica, marca da Reginaves Indústria e Comércio de Alimentos, por descumprimento de obrigações pela Fictor. Uma decisão judicial determinou a devolução imediata das unidades fabris arrendadas, incluindo imóveis, instalações, maquinários e a marca “Rica” à proprietária.