Apesar de uma oferta limitada no curto prazo, as cotações do arroz em casca continuam sob pressão negativa no Rio Grande do Sul. O levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) aponta que produtores rurais têm priorizado negociações atreladas a contratos de exportação, o que reduz a disponibilidade imediata do produto no mercado interno, mas não é suficiente para sustentar os preços.
De acordo com as informações do Evandro Oliveira, consultor da Safras & Mercado, o principal desafio para o setor é o excesso de oferta de arroz no mercado brasileiro. Estoques de passagem estão elevados, estimados em níveis históricos para este período e muito acima do consumo interno, o que limita o espaço para valorização de preços.
Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam que a área semeada de arroz no Brasil deve recuar 9,9% nesta temporada de 2026, totalizando 1,6 milhão de hectares. A produção nacional é estimada em 11,1 milhões de toneladas, queda de 13,3% em relação à safra anterior.
A área irrigada apresenta redução de 6,6%, com estimativa de 1,3 milhão de hectares e produção de 10,2 milhões de toneladas. Já o arroz de sequeiro registra retração de queda de 21,4% na área, para 310,1 mil hectares, e produção estimada em 857 mil toneladas, volume 26% inferior ao da safra passada.
Mesmo com preços deprimidos no mercado interno, o arroz brasileiro segue competitivo no cenário internacional, impulsionado pela qualidade do produto. Segundo analistas do setor, o país pode alcançar um dos maiores volumes de exportação da história, especialmente diante da expectativa de liberação de prêmios de escoamento.
Ainda segundo o consultor da Safras & Mercado, o cenário da safra ainda é de indefinição, com múltiplos fatores influenciando as perspectivas da produção e da comercialização do grão. As condições climáticas no Rio Grande do Sul — principal região produtora — tem sido instável, alternando períodos de sol forte, chuva intensa e frentes frias, gerando impactos nas lavouras. No entanto, Oliveira destaca que ainda é cedo para afirmar prejuízos severos nas plantações.
Mercado internacional
No cenário internacional, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) destaca que o aumento dos estoques iniciais no Brasil, somado à perspectiva de maior oferta global em 2025/26, reforça um ambiente estrutural de ampla disponibilidade ao longo da cadeia.
De acordo com o USDA, os embarques globais de arroz beneficiado devem alcançar 62,8 milhões de toneladas, alta de 5,2% em relação à temporada do ano passado. A produção mundial é estimada em 541,16 milhões de toneladas.
Esse quadro já se reflete nos preços internacionais. O índice global de preços do arroz, calculado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), caiu para 96,9 pontos em novembro de 2025, o menor patamar desde abril de 2017, acumulando retração anual de 19,72% frente a novembro de 2024.
No Mercosul, as cotações também recuaram de forma expressiva ao longo do ano de 2025, sendo que na Argentina a queda foi de 38,69%, no Uruguai ficou em 31,49% e no Brasil foi de 31,35% , reforçando o ambiente de pressão sobre o mercado regional.
A expectativa atual é que as exportações brasileiras de arroz girem em torno de 1,6 a 1,7 milhão de toneladas em 2026, abaixo da necessidade ideal estimada pela cadeia produtiva, que aponta para 2 milhões de toneladas como patamar mínimo tradicional para equilíbrio do mercado.
Preços ao consumidor
Para o consumidor final, o impacto imediato dos baixos preços é, neste momento, limitado. De acordo com o consultor, o arroz deve continuar barato nas prateleiras, com promoções frequentes e preços de pacotes de 5 kg de marcas tradicionais e comerciais em níveis historicamente baixos. Mesmo assim, esses valores não refletem os custos reais de produção, que permanecem elevados e insustentáveis para boa parte dos produtores.
Esse cenário de preços abaixo do custo de produção tem gerado preocupação na cadeia produtiva, que teme um impacto psicológico no consumidor, levando-o a acreditar que esses preços baixos são “normais” — quando, na verdade, não remuneram adequadamente o setor.