A investigação dos EUA contra países com trabalho forçado, incluindo o Brasil, pode ser uma nova ferramente pressão comercial de Washington, segundo analistas ouvidos pelo CNN Money.
Em última instância, dizem os especialistas, as ações podem resultar em novas sanções contra produtos brasileiros.
Fábio Murad, economista e CEO da Super-ETF Educação, afirma que a decisão americana deve ser interpretada como um instrumento de pressão comercial e geopolítica.
“O mecanismo usado permite ao governo americano investigar práticas consideradas injustas e, caso identifique prejuízo à indústria local, adotar medidas de resposta como tarifas adicionais, restrições comerciais ou negociações entre governos”, explica.
Por isso, o economista não descarta a possibilidade de que novas tarifas sejam aplicadas, embora ainda seja dificil estimar valores. Para Murad, existem três caminhos possíveis em um cenário como esse: negociação bilateral, imposição de tarifas adicionais ou restrições a produtos específicos.
Mas, para esses caminhos sejam seguidos, algumas etapas anteriores precisam acontecer.
Carlos Castro, planejador financeiro e CEO da SuperRico, explica: “Após investigação e coletar as informações, existe uma tentativa de negociação com os países envolvidos. Se, ao final, eles entenderem que essas práticas são consideradas prejudiciais ao comércio americano, aí sim os EUA podem aplicar sanções“.
Castro ainda indica que esse processo não é simples, certeiro ou até mesmo do dia para noite. A investigação e negociação, provavelmente, irão perdurar por alguns meses. “Temos que lembrar que nós estamos falando de Trump, e que tudo se torna imprevisível”, acrescenta.
Mas, apesar das incertezas, algo já é consenso entre os especialistas: existe a possibilidade dos EUA implicar novas tarifas ao Brasil.
Efeitos imediatos na economia brasileira
Em relação a impacto de mercado, Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, diz que o efeito imediato costuma ser “mais reputacional e de percepção de risco” do que econômico.
Isso porque, quando há uma investigação desse porte, acionistas reavaliam os setores exportadores que podem ser expostos a eventuais restrições comerciais.
“É possível que exista volatilidade em empresas ligadas ao comércio exterior e também no câmbio, porque disputas comerciais sempre trazem incerteza sobre fluxo de comércio”, explica.
Em uma questão mais ampla, Assis afirma que esse episódio precisa ser entendido dentro de uma tendência mais ampla de transformação do comércio internacional.
“Nos últimos anos, temas como direitos trabalhistas, sustentabilidade e rastreabilidade passaram a influenciar cada vez mais as regras de acesso aos mercados globais. Para o Brasil, o risco não é apenas a tarifa em si, mas o aumento do escrutínio sobre cadeias produtivas exportadoras”, avalia.
Em outra perspectiva, o CEO avalia que o cenário permite com que o Brasil demonstre padrões elevados de governança, com transparência e boas práticas, o que pode ser positivo na seara de novos parceiros comerciais.
Já para Murad, o cenário mais provável neste primeiro momento é de pressão diplomática e negociação. “Não vejo, necessariamente, uma ruptura comercial“, diz. O executivo acrescenta, também, que a investigação é ampla e envolve 60 economias, ou seja, um movimento que não é focado apenas no Brasil.
“Em solo nacional, no entanto, o principal risco seria uma eventual escalada para tarifas ou barreiras comerciais que afetem exportações relevantes, embora historicamente muitos desses processos terminem em ajustes regulatórios ou acordos entre os países envolvidos”, avalia. Nesse histórico citado por Murad, está o cenário de julho de 2025, quando o presidente impôs tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros – as quais foram removidas depois de alguns meses de negociação e impacto em ambas economias.
Ação dos EUA
O embaixador e Representante Comercial, Jamieson Greer, afirmou que governos anteriores não conseguiram aplicar medidas que proíbam a entrada de produtos fabricados com trabalho forçado no país.
A autoridade ainda acrescentou que “por muito tempo, trabalhadores e empresas americanas foram forçados a competir com produtores estrangeiros que podem ter uma vantagem de custo artificial obtida com o flagelo do trabalho forçado”.
Nesta manhã, o efeito já passou a repercutir no mercado e especialistas já avaliam as consequências dessas investigações no Brasil.