A literatura de autoria indígena e a valorização dos saberes dos povos originários ganham novos espaços nas escolas municipais do Rio de Janeiro.
A partir do dia 12 de março, às 9h, a Escola Municipal Barão de Itacurussá, na Tijuca, será o palco do lançamento da nova edição do projeto “Lá Vem História” em conjunto com o projeto de Formação Antirracista.
Realizada pela ONG Parceiros da Educação Rio, a iniciativa beneficiará mais de 5 mil alunos de 28 unidades escolares.
Ao completar três anos de atuação, o programa reafirma seu papel na transformação do ambiente escolar através da doação de 600 exemplares de autores renomados, como Daniel Munduruku, Yaguarê Yamã e Eliane Potiguara, além de promover oficinas de artes visuais, teatro, música e dança.
Um novo paradigma educativo
Inspirado pelo pensamento de intelectuais como Ailton Krenak e Antônio Bispo, o projeto propõe uma ruptura com a lógica da aceleração moderna. A proposta é centrada na “pedagogia do cuidado”, que utiliza elementos da natureza e mitos de criação para reconectar os estudantes com o meio ambiente e com o senso de coletividade.
Idealizado e coordenado por Lêda Fonseca, o projeto defende que a presença de vozes indígenas no cotidiano escolar é uma ferramenta poderosa contra o preconceito e a invisibilidade. Segundo a coordenadora:
“Quando autores como Daniel Munduruku e Carina Pataxó entram no acervo de uma escola, as crianças começam a perceber que os indígenas não pertencem só ao passado da nossa história aqui do Brasil, mas que eles estão presentes hoje na contemporaneidade. São autores, ilustradores, são pessoas que vivem hoje o nosso tempo e trazem uma possibilidade de ver o mundo de uma maneira diferente, trazendo os seus valores e os valores da sua ancestralidade. Isso é fundamental, porque muda a perspectiva e ajuda a gente a repensar esse mundo que a gente vive.”
Combate a estereótipos
A iniciativa surge também como uma resposta à visão simplificada que muitas vezes ainda persiste no ensino tradicional. Ao introduzir a filosofia e a cultura dos povos originários, o “Lá Vem História” busca substituir estereótipos por uma compreensão profunda da diversidade brasileira.
A meta para 2026 é consolidar essa mudança de perspectiva, utilizando a arte como um “gesto capaz de manter o mundo aberto” e cultivando, no presente, a postura ética necessária para a preservação do futuro. “É muito importante que as crianças percebam a natureza não como um recurso apenas, mas que elas fazem parte, nós fazemos parte da natureza e que essa conjunção é fundamental para termos o entendimento do nosso espaço no mundo, de manter uma relação mais ética com o mundo. É isso que queremos provocar”, reforça Lêda.