Representantes do Departamento de Estado dos EUA se reúnem nesta quinta-feira (15) com mineradoras que atuam no Brasil para avançar no diálogo sobre possíveis acordos no setor de minerais críticos, com foco em terras raras.
A reunião ocorre em formato virtual e conta também com a participação de representantes da Amcham Brasil e do Citibank.
Além das terras raras, os americanos também citam como estratégicos nas reuniões minerais como níquel e grafite, insumos essenciais para baterias de veículos elétricos, armazenamento de energia, ligas metálicas de alta resistência, eletrônicos avançados e produtos de defesa.
Segundo relatos, o Citibank tem demonstrado interesse em atuar como agente financeiro desses eventuais acordos.
Na prática, o banco poderia estruturar operações de crédito, organizar financiamentos de longo prazo, coordenar garantias e facilitar a conexão entre mineradoras brasileiras, compradores industriais e instrumentos de financiamento nos Estados Unidos.
A reunião ocorre no contexto da prioridade da gestão Donald Trump de reduzir a dependência americana de minerais processados pela China.
Dados da IEA (Agência Internacional de Energia) indicam que cerca de 91% do refino global de terras raras é feito por empresas chinesas, que também respondem por aproximadamente 94% da produção de ímãs permanentes usados em turbinas, motores e equipamentos de defesa.
As conversas entre Brasil e Estados Unidos sobre terras raras tiveram início ainda durante a gestão Biden e se intensificaram sob Trump.
Em outubro, o encarregado de Negócios dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, chegou a propor ao Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração) a criação de um grupo de trabalho para discutir o tema, iniciativa que não avançou.
Ainda assim, Escobar se reuniu ao menos três vezes com mineradoras que operam no país para tratar do assunto.
Apesar de não existir um acordo formal entre os governos dos Estados Unidos e do Brasil, empresas e agências oficiais do governo americano já participam do financiamento de ao menos dois projetos de terras raras em território nacional.
Um deles é o projeto da Alclara Resources, mineradora com atuação no Brasil voltada ao desenvolvimento de ativos de terras raras.
Outro é a mineradora Serra Verde, atualmente uma das únicas produtoras comerciais de terras raras fora da China, com operação em Goiás baseada em argilas iônicas, modelo semelhante ao chinês, conhecido por reduzir riscos ambientais.
Além desses casos, o Export-Import Bank of the United States, agência oficial de crédito à exportação do governo americano, também já emitiu carta de interesse para avaliar uma possível estrutura de financiamento ao Projeto Caldeira, da mineradora australiana Meteoric Resources, localizado em Minas Gerais.
Terras raras e domínio da China
A IEA classificou essa concentração de mercado como um risco geopolítico severo, alertando que o domínio chinês permite a Pequim influenciar preços, controlar o acesso de países concorrentes e definir o ritmo de avanço de tecnologias estratégicas, como semicondutores, veículos elétricos e sistemas de armazenamento de energia.
Para Washington, o tema é especialmente sensível: a supremacia militar e tecnológica dos EUA pode ser ameaçada se a China ampliar o controle sobre insumos essenciais a setores de defesa, inteligência artificial e energia limpa.
É nesse contexto que o Brasil ganha destaque.
O país detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, mas ainda produz e refina quase nada.
Não há um marco regulatório específico para o setor, e a cadeia produtiva é incipiente. Mesmo assim, empresas ocidentais já começaram a adquirir projetos e realizar pesquisas e mapeamentos geológicos em território nacional.