Maryam terminou seus afazeres matinais em Teerã na quinta-feira, 8 de janeiro, antes de voltar para casa para se trocar e encontrar amigos para um café. Ao anoitecer, ela estava entre as multidões protestando contra as péssimas condições econômicas do país.
Os acontecimentos dos dois dias seguintes poderiam ser decisivos na história do Irã.
Aqueles que se dirigiam aos protestos esperavam violência, mas o que aconteceu naquela noite foi além do que haviam imaginado. Era o décimo segundo dia de agitação nacional, mas o clima nas manifestações permanecia otimista e determinado – pelo menos inicialmente.
“A noite de quinta-feira foi linda”, relembrou Maryam, enquanto amigos e famílias enchiam as ruas, protestando por melhores condições de vida e pelo fim de um regime repressivo.
“Parecia distópico e estranhamente surreal”, disse a artista de 30 anos. “A vida estava normal pela manhã, mas à noite todos estavam nas ruas protestando”. A CNN está usando um pseudônimo para a mulher e outros manifestantes citados nesta reportagem por questões de segurança.
Na Rua Shariati, uma importante via norte-sul na capital iraniana, Hasan, de 33 anos, dirigiu-se a uma rotatória onde amigos haviam se reunido para participar dos protestos.
“Havia um sentimento de que faríamos a diferença, que talvez uma revolução realmente fosse acontecer”, disse ele. O derramamento de sangue que se seguiu foi rápido em matar essa esperança.
Foi a noite em que Reza Pahlavi, o príncipe herdeiro do último xá do Irã, exilado nos Estados Unidos, incitou os iranianos a irem às ruas a partir das 20h. Muitos dos manifestantes cantavam a seu favor.
Enquanto manifestantes se reuniam em mais de 100 cidades por todo o país após o anoitecer, o Irã mergulhou na escuridão.
Às 20h, as autoridades cortaram o acesso à internet e bloquearam ligações internacionais, impondo um apagão sem precedentes nas comunicações sobre os 92 milhões de habitantes do país.
Na escuridão, as forças de segurança iniciaram a repressão.
O que se desenrolou nas 48 horas seguintes foi revelado como o ataque mais letal do Estado iraniano contra seu próprio povo desde a fundação da República Islâmica, há quase 47 anos.
Conforme o blecaute foi sendo gradualmente suspenso, a CNN reconstituiu os eventos daquele fim de semana por meio de relatos em primeira mão de manifestantes que deixaram o país desde então, e através de vídeos da carnificina compartilhados por grupos ativistas.
Testemunhas, ativistas de direitos humanos e profissionais de saúde relataram à CNN que as forças de segurança desencadearam violência generalizada durante o fim de semana de 8 e 9 de janeiro, transformando ruas em todo o Irã no que parecia uma zona de guerra, indicando um ataque armado coordenado.
Durante a investida contra os manifestantes, milhares foram mortos, um número chocante posteriormente reconhecido pelo regime.
Na sequência, hospitais lutavam para tratar os feridos, mulheres choravam em cemitérios sobrecarregados pelos mortos e necrotérios estavam repletos de sacos contendo corpos não identificados.
Ruas cobertas de sangue
Outros vídeos mostram ruas cobertas de sangue, manifestantes imóveis com aparentes ferimentos de bala, dispositivos de laser projetados para desorientar multidões, sons de tiros de armas semiautomáticas e gritos.
Um manifestante em outra cidade próxima a Teerã, Kiarish, contou à CNN como deixou sua casa para se juntar a milhares em um protesto grande, mas pacífico, que se tornou mortal quando as forças de segurança abriram fogo.
“Eu ouvi os tiros… Foi totalmente diferente”, disse Kiarish, recordando protestos dos quais havia participado no passado.
Em Teerã, Hasan voltou às ruas, apesar do derramamento de sangue que testemunhara.
“Não havia como escapar da violência”, ele disse.

A Basij, uma força paramilitar voluntária, frequentemente empregada para policiar protestos e impor controles sociais do regime, usou revólveres, espingardas e as chamadas bombas de chumbinho que espalham projéteis no impacto, disse Nazanin, uma mulher de 38 anos que se juntou aos protestos em Teerã.
Lasers montados em rifles apontavam para manifestantes enquanto drones com luzes verdes, vermelhas e azuis pairavam no ar. Alguns manifestantes foram atingidos no rosto, ela contou à CNN.
Em resposta, os manifestantes atearam fogo nas ruas para tentar bloquear a dispersão do gás lacrimogêneo e criar barreiras contra as forças de segurança, acrescentou Nazanin.
Na noite do dia 9 de janeiro, imagens terríveis capturadas em Teerã começaram a circular online.
Em um vídeo, um manifestante improvisa um torniquete com seu cinto para estancar o sangramento de um ferimento na perna enquanto está sentado na calçada, ao mesmo tempo em que outros se afastam da área em meio a confrontos iluminados por feixes de laser que dispersam a multidão.
“Energia diferente”
Em dezenas de outras cidades do Irã, o caos se espalhava. Manifestantes incendiavam veículos e edifícios, atiravam pedras enquanto enfrentavam forças de segurança e paramilitares leais ao governo.
As autoridades alegaram que os protestos foram infiltrados por “baderneiros” que trabalhavam em nome de Israel e dos Estados Unidos, que haviam realizado um ataque militar sem precedentes ao Irã apenas sete meses antes.
Nos dias que antecederam a violência de 8 de janeiro, o presidente dos EUA, Donald Trump, alertou repetidamente que Washington “atacaria com força total” se as autoridades iranianas reprimissem violentamente as manifestações, afirmando que o país estava “pronto e armado”.
Mesmo após aquele fim de semana, ele pediu aos iranianos que “continuassem protestando”, prometendo que “a ajuda estava a caminho”.
Para Hasan, esta onda de protestos também parecia diferente, refletindo tanto a brutalidade de um regime cada vez mais paranoico quanto um novo nível de indignação pública e disposição para o confronto. “Tinha uma energia totalmente diferente”, disse ele. “As pessoas estão tão furiosas e só querem estar nas ruas”.

Conforme os números de vítimas começaram a surgir nos dias seguintes, ficou claro que o número de mortos era significativamente maior do que em qualquer protesto anterior.
Segundo uma estimativa da HRANA (Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos), com sede nos EUA, mais de 5.000 pessoas foram mortas nos confrontos – o maior número de vítimas de qualquer onda de protestos já vista no Irã.
Até mesmo o Líder Supremo, aiatolá Ali Khamenei, reconheceu o grande número de baixas, dizendo que milhares foram mortos e culpando “aqueles ligados a Israel e aos EUA” pelo massacre.
O Conselho Nacional de Segurança iraniano informou que 3.117 pessoas foram mortas nos protestos, sendo 2.427 delas consideradas “inocentes” mortas por “terroristas” que semeavam a desordem.
As autoridades também os acusaram de atacar bancos, mesquitas, centros médicos e postos de gasolina, mostrando imagens de edifícios incendiados na televisão estatal.
Sem apresentar evidências, eles também acusaram manifestantes de cometerem “atrocidades semelhantes ao Estado Islâmico”, como “queimar pessoas vivas, decapitações e esfaqueamentos.”
“Pior do que poderíamos imaginar”
Ativistas afirmaram que as autoridades tentavam enviar uma mensagem aos manifestantes ao empregar a força violenta.
“É como se tivesse sido planejado e coordenado, a forma como as autoridades iniciaram a repressão”, disse à CNN Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor do grupo Iran Human Rights, baseado na Noruega.
Ele acrescentou que testemunhas de diferentes locais descreveram ter visto autoridades usando munição real e armas de nível militar “com o objetivo de matar o máximo possível.”
Um médico que tratou alguns dos feridos disse à CNN que o tipo das lesões mudou a partir daquele fim de semana de 8 a 9 de janeiro, quando as autoridades começaram a intensificar o uso de força letal.
“Era como se uma ordem tivesse sido dada: ‘Usem munição real agora'”, disse o médico.

Uma imagem mostra um veículo militar iraniano equipado com uma metralhadora montada nas ruas da capital naquela quinta-feira à noite. A CNN verificou a localização na Praça Sadeghieh, pouco mais de quatro quilômetros ao sul de onde as maiores multidões se reuniriam na estrada Boulevard Ashrafi Esfahani.
Outros vídeos mostravam homens armados gritando apoio ao aiatolá Ali Khamenei enquanto andavam em caminhões equipados com metralhadoras.
Apesar do apagão e com poucas informações saindo do Irã, Amiry-Moghaddam afirma que as imagens mostram um “massacre” ainda “pior do que poderíamos imaginar.”
No sábado, 10 de janeiro, o cemitério Behesht-e Zahra de Teerã, o maior do país, estava lotado de famílias tentando enterrar seus entes queridos, segundo Kiarish e Maryam.
Kiarish, que estava lá procurando por Nasim – um amigo da família que ele ouviu ter sido baleado no pescoço na quinta-feira, 8 de janeiro – disse que dois depósitos do cemitério continham centenas de corpos. Ele descreveu ter visto camadas de cadáveres empilhados em sacos pretos com zíper.
A cena se repetiu em outros locais também. Em Kahrizak, ao sul de Teerã, vídeos mostraram grandes multidões reunidas em torno de dezenas de sacos com corpos dispostos na calçada próxima a um necrotério.
Na década de 1980, durante sua primeira década no poder, a República Islâmica executou milhares de pessoas em uma ampla repressão à oposição — uma onda de violência que, segundo Amiry-Moghaddam, traumatizou uma geração inteira.
“Foram necessários anos até que eles se levantassem novamente”, disse ele.
O objetivo do regime agora, afirmou Amiry-Moghaddam, parece ser mais uma vez “traumatizar uma geração.”