No topo de uma vila palestina com vista para Jerusalém, Atallah Mazara’a reflete sobre um sonho antigo. Sua vila beduína de Jabal al-Baba fica próxima ao centro geográfico da Cisjordânia ocupada, equilibrada entre o norte e o sul do que seria um futuro Estado palestino.
Mas a cada dia que passa, esse sonho parece desaparecer no horizonte, mais distante do que nunca.
O ministro das Finanças israelense de ultradireita, Bezalel Smotrich, anunciou na semana passada a aprovação final de milhares de novas unidades habitacionais para expandir o assentamento israelense da cidade de Ma’ale Adumim, que efetivamente dividiria a Cisjordânia em duas partes – um plano conhecido como E1.
Smotrich deixou claro que o objetivo era acabar com as perspectivas de um Estado palestino, afirmando: “O Estado palestino está sendo apagado da mesa não com slogans, mas com ações.”
O ministro “quer confiscar esta área para impedir a criação de um Estado palestino… nosso destino tornou-se incerto, não apenas o meu, mas de cada criança, cada mulher, todos. Estou com medo”, disse Mazara’a, líder do comitê da vila, à CNN.
Segundo a Governadoria de Jerusalém da Autoridade Palestina, aproximadamente 7 mil palestinos que vivem em 22 comunidades beduínas enfrentam a ameaça de deslocamento forçado devido ao E1.
Jabal al-Baba é uma dessas comunidades, onde 80 famílias, totalizando 450 palestinos, vivem. A vila também possui cerca de 3 mil animais, base fundamental da vida para os pastores beduínos.
Enquanto Mazara’a caminha ao redor das casas que, segundo ele, podem ser demolidas a qualquer momento, ele aponta para o assentamento judaico próximo de Ma’ale Adumim.
“A presença beduína nesta terra complementa e beneficia a natureza, diferentemente da presença dos assentamentos”, afirmou ele.
Assentamentos judaicos na Cisjordânia
Israel capturou a Cisjordânia da Jordânia na guerra de 1967 e posteriormente começou a estabelecer assentamentos judaicos lá, que são considerados ilegais sob a lei internacional, pela ONU (Organização das Nações Unidas) e por grande parte da comunidade internacional.
A ONU também considera a Cisjordânia e Jerusalém Oriental como território ocupado, que os palestinos buscam para um futuro Estado.
Os assentamentos são amplamente vistos como o maior impedimento para a criação de um Estado palestino, com muitas comunidades judaicas se expandindo ao redor de centros populacionais palestinos, frequentemente construídas em terras de propriedade privada palestina.
Hoje, segundo números da ONU, há 700 mil colonos judeus vivendo entre aproximadamente 3 milhões de palestinos na Cisjordânia e Jerusalém Oriental.
“Essas famílias estão aqui por toda a vida, desde antes de 1967”, diz Mazara’a. “Elas estavam aqui antes do assentamento ser construído… Como beduíno, é importante para mim permanecer nesta área. Não é direito de Israel escolher minha vida em outra área.”
Eliminar as perspectivas de um Estado palestino tem sido um desejo declarado de Bezalel Smotrich e outros membros do gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Ele tem defendido há muito tempo a expansão dos assentamentos judaicos.
Segundo um áudio vazado de junho de 2024, Smotrich declarou que a maneira de impedir um Estado Palestino que colocaria em risco o estado de Israel era desenvolver assentamentos judaicos. “O objetivo é mudar o DNA do sistema por muitos, muitos anos.”
Papel de Donald Trump nos planos de Israel
Após a vitória do presidente dos EUA, Donald Trump, na eleição americana, o ministro das Finanças israelense, Bezalel Smotrich, ordenou preparativos para a anexação de assentamentos na Cisjordânia.
Ele disse ao Knesset (parlamento de Israel) que a vitória de Trump “traz uma oportunidade importante para o país.”
“A única maneira de remover a “ameaça” de um estado palestino, acrescentou Smotrich, “é aplicar a soberania israelense sobre todos os assentamentos em Judeia e Samaria”, o termo bíblico pelo qual os israelenses se referem à Cisjordânia.
Ao sul da vila está a cidade palestina de Al-Eizariya, que faz fronteira com Jerusalém Oriental. É uma comunidade agitada com buzinas e ruas movimentadas, atendendo às necessidades comerciais.
Alguns dos beduínos que seriam deslocados seriam forçados a se mudar para a cidade, falou Mohammad Mattar, um funcionário da municipalidade, à CNN. Seria um mundo diferente para os beduínos, um ambiente desconhecido para navegar ou ganhar a vida, e sem lugar para pastorear seu gado.
Junto com a construção do assentamento E1, Israel planeja construir uma estrada que cortará Al-Eizariya e criará sistemas viários separados para israelenses e palestinos ao redor do assentamento, segundo a Peace Now, uma organização que acompanha de perto a expansão dos assentamentos.
Palestinos recebem ordens de demolição
Quando a CNN visitou a cidade, Mattar informou que 112 ordens de demolição haviam sido entregues aos lojistas, com o prazo de despejo já vencido.
Em conversas sussurradas, palestinos perguntavam uns aos outros, angustiados, se haviam ouvido alguma notícia sobre o que aconteceria em seguida.
Algumas pessoas já haviam decidido interromper os negócios e fecharam suas lojas assim que as ordens chegaram, apesar de não haver perspectiva de compensação. Outros, que já experimentaram essas ameaças antes, optaram por permanecer.
“Eles estão esperando pela intervenção divina ou estatal para interromper este projeto”, declarou Mattar.
Al-Eizariya é considerada uma “cesta básica” para a cidade de Jerusalém, segundo os moradores. A cidade abriga o maior mercado comercial da Cisjordânia, conectando o norte ao sul.
Se a estrada planejada por Israel for construída, eles terão que ir para outros lugares para encontrar suas necessidades, tornando tudo mais difícil e caro. Quanto aos lojistas, eles temem que as economias sejam esgotadas.
“Coloquei todo meu dinheiro aqui. Se eles destruírem, não terei mais nada para fazer. Tenho 65 anos. Espero que eles não façam isso”, disse Abdullah à CNN, contendo as lágrimas, proprietário de supermercados e um restaurante na área.
Durante o primeiro mandato de Donald Trump, a administração apresentou uma visão que ficou conhecida como “O Acordo do Século”.
O plano do presidente americano fazia referência vaga a partes limitadas de Jerusalém Oriental como capital de um estado palestino.
Mas ele mal mencionou este plano há muito adormecido desde que assumiu o cargo novamente.
Guerra em Gaza e ocupação na Cisjordânia
Hagit Ofran é uma ativista israelense pela paz e codiretora do Settlement Watch na Peace Now. Ela tem monitorado assentamentos israelenses e defendido o fim da ocupação israelense da Cisjordânia há décadas.
A ofensiva de Israel em Gaza, que já dura quase dois anos, tem dificultado chamar a atenção das pessoas para a Cisjordânia, segundo ela.
“Estamos lutando para acabar com a guerra em Gaza e com a ocupação na Cisjordânia. É um mundo louco aqui”, declarou ela à CNN.
Ao considerar a construção da estrada para facilitar o movimento dos moradores do assentamento E1, Ofran comentou que isso efetivamente fechará o centro da Cisjordânia para os palestinos e controlará o movimento. Casas palestinas serão demolidas e comunidades serão isoladas.
“Não sei como eles terão acesso aos territórios que normalmente acessam. Depende da boa vontade deste governo, que não demonstrou nenhuma boa vontade com os palestinos”, falou ela.
“Você não pode desenvolver uma economia viável, para não dizer um estado”, acrescentou ela. “Será impossível ter uma capital em Jerusalém Oriental para os palestinos.”
Para alguns palestinos, a recente aprovação final do assentamento E1 não extinguiu a ideia de um Estado palestino, porque Israel já a havia extinguido há muito tempo ao criar fatos consumados no território.
“Se você olhar para os assentamentos, que agora estão em toda parte, é impossível construir um Estado palestino com contiguidade geográfica”, disse à CNN Khalil Toufakji, um cartógrafo palestino que monitora assentamentos israelenses desde 1983.
Ele relatou que, embora esta medida signifique o fim de um futuro palestino, seu fim já havia sido confirmado há muito tempo.
“Eles (governo israelense) aproveitaram o 7 de outubro e o Presidente Trump para realizar seus planos.”
De volta ao topo da colina, na brisa da tarde sob uma árvore frondosa, Mazara’a contempla sua aldeia, sem saber se ainda será seu lar pela manhã.
“Não é apenas minha vida; são minhas memórias e minha infância. Conheço cada canto desta área”, falou ele.
“Jabal al-Baba não é apenas o fim dos sonhos dos beduínos que vivem aqui, é também o fim do sonho de todo palestino de ter um estado no futuro.”