Como Bill e Hillary Clinton se preparam para depor sobre Jeffrey Epstein

Um quarto de século após deixarem a Casa Branca, Bill e Hillary Clinton estão a poucas horas de mais um confronto jurídico com os republicanos da Câmara, enquanto se preparam para depor em uma investigação parlamentar sobre o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein.

Para os Clinton, os depoimentos desta semana marcam uma reviravolta impressionante.

Após meses lutando vigorosamente para evitar o testemunho no que denunciaram como uma trama republicana contra eles, eles concordaram em cumprir a exigência apenas depois que a Câmara avançou em direção a uma votação bipartidária para declará-los em desacato criminal ao Congresso.

Espera-se que os Clinton estejam acompanhados por seus advogados, David Kendall e Cheryl Mills, que têm trabalhado nos detalhes minuciosos sobre quais áreas poderão ser abordadas durante o interrogatório.

Não está claro quem mais da equipe dos Clinton se juntaria a eles em seus respectivos depoimentos, disseram autoridades.

Os depoimentos estão programados para ocorrer em Chappaqua, Nova York, onde os Clinton vivem. Hillary Clinton comparecerá na quinta-feira (26) e Bill Clinton na sexta-feira (27). O local para o testemunho foi negociado entre Kendall e o deputado James Comer, presidente do Comitê de Fiscalização da Câmara, na esperança de evitar a indignidade e o movimento sem precedentes de convocar um ex-presidente ao Capitólio para interrogatório.

“Ninguém está acusando os Clinton de qualquer irregularidade”, disse Comer. “Nós apenas temos muitas perguntas.”

Para se preparar, os Clinton têm se isolado — às vezes juntos, às vezes separadamente, para refrescar suas memórias sobre os anos Epstein, mas, acima de tudo, para se defenderem e planejarem linhas de ataque contra questionadores potencialmente hostis.

Os republicanos tentaram tratar os Clinton como um “pacote único”, mas seus depoimentos separados ressaltam as diferenças potencialmente vastas entre qualquer informação que os dois possam oferecer ao comitê.

Bill Clinton viajou no avião particular de Epstein pelo menos 16 vezes, de acordo com uma análise da CNN, e foi fotografado com mulheres em uma jacuzzi em arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA. Ele também foi fotografado com Ghislaine Maxwell, ex-namorada de Epstein e cúmplice no tráfico de vítimas. Hillary Clinton afirmou que nunca conheceu Epstein.

Bill Clinton nunca foi acusado pelas autoridades de qualquer irregularidade relacionada a Epstein, e um porta-voz afirmou repetidamente que ele cortou laços antes da prisão de Epstein por acusações federais em 2019 e que não tinha conhecimento de quaisquer crimes.

O ex-presidente e seus advogados seguem para a sessão de sexta-feira com a expectativa de que ele possa enfrentar um longo dia de interrogatório, de acordo com uma fonte familiarizada com o processo, possivelmente até mais longo do que as cinco horas em que o associado de Epstein, Les Wexner, prestou depoimento na semana passada.

Os depoimentos serão gravados em vídeo e a equipe republicana do comitê pretende divulgar as imagens poucos dias após a conclusão das entrevistas, disse uma fonte familiarizada com o assunto à CNN.

Os Clinton e os membros do Comitê de Fiscalização da Câmara concordaram com cinco áreas temáticas para os depoimentos, informou à CNN uma person familiarizada com o acordo. São elas:

  • Suposta má gestão da investigação do governo federal sobre Epstein e Maxwell;
  • As circunstâncias e as investigações subsequentes sobre a morte de Epstein em 2019;
  • As formas pelas quais o governo federal poderia combater eficazmente as redes de tráfico sexual;
  • Como Epstein e Maxwell buscaram angariar favores para proteger suas atividades ilegais; e
  • Potenciais violações de regras de ética relacionadas a autoridades eleitas.

Sobreviventes de Epstein e advogados que os representam disseram à CNN acreditar ser importante que os Clinton — o ex-presidente, em particular — prestem depoimento. Em entrevistas, eles ressaltaram que a presença de um indivíduo nos arquivos de Epstein e sua cooperação com o Congresso não indicam irregularidades.

Ainda assim, Bill Clinton deve compartilhar com os parlamentares tudo o que sabe sobre o passado de Epstein, disseram vários sobreviventes e advogados.

“Ele era ligado a Epstein. Ele foi o presidente do nosso país. Acho que as vítimas querem entender essa ligação um pouco melhor”, disse à CNN Jennifer Plotkin, advogada que representa inúmeros sobreviventes de Epstein. “Ninguém deve estar acima da lei. Se você recebe uma intimação válida, deve cumprir.”

Porta-vozes dos Clinton não responderam aos pedidos de comentários na quarta-feira (25).

Um clima político diferente

O mero fato de os Clinton estarem programados para depor é um novo lembrete de como a saga Epstein é diferente de qualquer escândalo da era Clinton.

A princípio, o vai e vem entre os advogados dos Clinton e o comitê aconteceu nos bastidores, por meio de trocas de e-mails, cartas e telefonemas. Os Clinton queriam ser tratados como outras testemunhas da investigação que puderam trocar suas intimações para depoimentos presenciais por declarações por escrito sob juramento.

Os republicanos não aceitaram isso, o que os democratas acusaram de ser por fins políticos.

Os Clinton acabaram tentando lançar uma campanha contundente contra Comer, disparando mensagens do gabinete oficial do ex-presidente atacando o presidente republicano do comitê. Eles viram o esforço para buscar seus depoimentos como parte de uma tentativa partidária de tirar o foco da investigação de Epstein do presidente Donald Trump.

“Embora a prática leve à perfeição, Jim Comer não consegue nem mentir direito”, dizia um comunicado enviado por e-mail pelos Clinton. “Ligue para o gabinete de Jim Comer e pergunte por que as audiências de Epstein estão escondidas do público.”

O que a liderança democrata na Câmara não esperava é que alguns de seus próprios membros se juntassem aos republicanos para tentar declarar os Clinton em desacato.

O clima político hoje é muito diferente de qualquer uma das outras épicas batalhas jurídicas dos Clinton contra o Partido Republicano: o impeachment de Bill Clinton por suas declarações sobre o relacionamento com uma estagiária da Casa Branca, a investigação do ataque de 2012 à missão dos EUA em Benghazi, na Líbia, ou a investigação sobre Hillary Clinton conduzindo assuntos do Departamento de Estado usando um servidor de e-mail privado.

Hoje, as vítimas de Epstein exercem muito mais influência sobre muitos parlamentares democratas do que qualquer sentimento de lealdade aos Clinton.

“Os sobreviventes merecem transparência e justiça”, disse a deputada democrata Rashida Tlaib à CNN. “Deveríamos declarar em desacato qualquer pessoa ligada a Epstein que não nos forneça informações, independentemente do partido político.”

Mais de 40 atuais democratas na Câmara nasceram em 1980 ou depois, o que lhes confere memórias da presidência de Bill Clinton diferentes das dos líderes do partido que estavam em Washington quando ele encerrou 12 anos de controle republicano na Casa Branca.

Até mesmo alguns aliados leais admitem que foi um certo erro de cálculo dos Clinton abordar isso como apenas mais uma briga com os republicanos.

“Olhando para trás, este não era o momento para uma campanha de ‘terra arrasada’ contra os republicanos”, disse à CNN um conselheiro de longa data dos Clinton, falando sob condição de anonimato para evitar indispor-se com o ex-presidente e a ex-primeira-dama. “A velha guarda não percebeu que muita coisa mudou.”

Líderes democratas na Câmara incentivaram seus membros a votar contra a iniciativa porque os Clinton ainda estavam negociando com o comitê, disseram fontes à CNN na época. Eles argumentaram que os republicanos estavam escolhendo os Clinton como alvo para desviar a atenção da demora do Departamento de Justiça em divulgar os arquivos de Epstein.

A ex-presidente da Câmara, Nancy Pelosi, repreendeu privadamente os membros democratas por votarem a favor do desacato contra os Clinton.

Nove membros democratas no Comitê de Fiscalização ainda se juntaram aos republicanos para apoiar a acusação de desacato ao Congresso contra o ex-presidente. Três democratas votaram para declarar Hillary Clinton em desacato.

Aqueles que votaram com os republicanos argumentaram que queriam preservar o poder de uma intimação do Congresso e queriam demonstrar consistência para com os sobreviventes de Epstein, que pediam que o Congresso garantisse a prestação de contas, independentemente de partido.

“Foi muito difícil”, relembrou a deputada Yassamin Ansari, uma democrata do Comitê de Fiscalização que não assumiu uma posição firme ao votar “presente” (abstenção), referindo-se às discussões que os democratas tiveram naquela época.

Ansari, de 33 anos, nasceu em 1992, o ano em que Bill Clinton foi eleito presidente pela primeira vez, e lembrou de ter crescido acompanhando a história de Epstein.

“Acho que entendi os diferentes lados do argumento nesse aspecto”, disse ela.

Como os dois lados veem os depoimentos desta semana

Mesmo antes da votação do desacato, ambos os lados tentaram várias alternativas de saída. Comer adiou as datas dos depoimentos enquanto as duas partes continuavam em negociação.

Os Clinton propuseram entrevistas voluntárias em Nova York, mas queriam controlar o tema, a duração e quem poderia comparecer. Depois, eles pressionaram para que as entrevistas fossem realizadas de forma aberta.

“Cada pessoa tem que decidir quando já viu ou suportou o suficiente e está pronta para lutar por este país, seus princípios e seu povo, não importa as consequências. Para nós, esse momento é agora”, escreveram os Clinton em janeiro, quando anunciaram que não compareceriam aos seus depoimentos presenciais agendados.

Mas Comer queria que os Clinton comparecem sob os seus termos. Ele seguiu adiante com o agendamento dos depoimentos e, quando nenhum dos dois compareceu, decidiu convocar uma votação para declará-los em desacato criminal ao Congresso, marcando uma grande escalada na investigação bipartidária.

Pouco depois de os parlamentares aprovarem o encaminhamento do desacato dos Clinton no comitê — onde o processo teria um caminho facilitado para a aprovação final — os Clinton concordaram, na última hora, com os termos de depoimento de Comer, e a iniciativa de desacato foi cancelada.

“Os Clinton cederam completamente”, disse Comer na época.

O principal democrata no painel, o deputado Robert Garcia, disse à CNN antes dos depoimentos que sempre quis ouvir os Clinton; era apenas uma questão de como obteriam o testemunho.

“Acho que eles estão, na verdade, ansiosos por isso, pelo que entendi. Eles realmente querem apresentar ao público as informações que possuem”, disse Garcia. “E acredito que teremos muitas perguntas respondidas, mas acho que eles também poderão ser muito claros sobre quais informações têm e o que sabiam.”

Além de questionar Bill Clinton sobre suas interações com Epstein, Garcia disse que quer saber se Epstein tinha algum vínculo com a inteligência estrangeira ou conexões com governos estrangeiros.

“Acho que o ex-presidente estaria exclusivamente qualificado para compartilhar essa informação”, disse Garcia.

Os democratas são, em geral, mais céticos quanto aos republicanos tomarem o depoimento de Hillary Clinton, considerando que a ex-secretária de Estado afirmou que nunca conheceu Epstein.

“A única razão pela qual ela está sendo deposta é porque os republicanos continuam tendo delírios sobre prendê-la”, disse à CNN o deputado democrata James Walkinshaw, da Virgínia, membro do Comitê de Fiscalização. “É puramente político.”

Apesar de todo o contentamento republicano por conseguir os depoimentos dos Clinton, surgiu um sentimento de inquietação entre alguns aliados leais a Trump, que temem que um futuro Congresso controlado pelos democratas possa intimar Trump ou sua família com mais facilidade.

O presidente sinalizou seu próprio cansaço ao ser questionado sobre os Clinton no início deste mês.

“Eu odeio ver isso, de várias maneiras”, disse Trump aos repórteres. “Odeio ver isso, mas olhem para mim, eles vieram atrás de mim.”

Mas Comer sustenta que os democratas tentarão levar Trump para um depoimento se retomarem a maioria, independentemente dos passos que ele tomou agora.

“Eles vão atrás de Trump, quer a gente tome o depoimento dos Clinton ou não”, disse Comer à CNN.

Sobreviventes afirmaram estar preocupados que, se os Clinton tivessem recusado uma intimação do Congresso, isso teria estabelecido um precedente semelhante para outros indivíduos que forem convidados a depor.

“Se eles escaparem disso, todos seguirão seus passos”, disse a sobrevivente Sharlene Rochard à CNN.

Liz Stein, outra sobrevivente de Epstein, acrescentou que o interrogatório não deve terminar com os Clinton.

“Por que o foco é apenas nos Clinton?”, disse Stein. “E por que não estamos focando no escopo mais amplo das pessoas das quais precisamos obter informações?”

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