Dezenas de depoimentos de testemunhas do FBI, a agência federal de investigações dos Estados Unidos, na apuração sobre Jeffrey Epstein parecem estar faltando no enorme conjunto de arquivos divulgado pelo Departamento de Justiça americano no mês passado, de acordo com uma análise da CNN.
Isso inclui três depoimentos relacionados a uma mulher que acusou o presidente Donald Trump de tê-la agredido sexualmente décadas atrás.
Um registro de evidências fornecido aos advogados de Ghislaine Maxwell, ex-namorada e cúmplice de Epstein, inclui números de série para cerca de 325 registros de depoimentos de testemunhas do FBI – mas mais de 90 desses arquivos, equivalente a mais de um quarto da lista, não parecem estar presentes no site do Departamento de Justiça, de acordo com a análise da CNN.
Entre esses registros desaparecidos estão três depoimentos relacionados a uma mulher que disse aos agentes que Epstein a abusou repetidamente desde que ela tinha aproximadamente 13 anos de idade, e que também acusou Trump de tê-la agredido sexualmente.
Um parlamentar democrata falou na terça-feira (24) sobre os documentos que teriam sumido para questionar a divulgação feita pelo Departamento de Justiça e se o governo Trump seguiu a lei que exige que a agência publique seus arquivos relacionados a Epstein.
“Temos uma sobrevivente que fez sérias alegações contra o presidente”, disse o deputado Robert Garcia, o principal democrata no Comitê de Supervisão da Câmara, à CNN.
“Mas há uma série de documentos, e aparentemente também entrevistas, que o FBI realizou com a sobrevivente, que estão desaparecidos, aos quais não temos acesso”, adicionou.
Trump tem negado qualquer irregularidade em relação a Epstein. Em um comunicado, a Casa Branca chamou as alegações contra ele de “falsas e sensacionalistas” e apontou para uma declaração anterior do Departamento de Justiça de que “alguns dos documentos contêm alegações falsas e sensacionalistas contra o presidente”.
Detalhes sobre os documentos desaparecidos relacionados à acusadora de Trump foram relatados anteriormente pela NPR e pelo jornalista independente Roger Sollenberger.
Um porta-voz do Departamento de Justiça negou que quaisquer registros de Epstein tivessem sido apagados e enfatizou que o departamento estava cumprindo a lei.
“Não excluímos nada e, como sempre dissemos, todos os documentos pertinentes foram apresentados”, afirmou o porta-voz.
Os documentos não incluídos na divulgação eram “duplicados, confidenciais ou faziam parte de uma investigação federal em andamento”, explicou o porta-voz. Ele não respondeu a perguntas sobre arquivos específicos.
É possível que alguns dos documentos mencionados nos registros de evidências de Maxwell estejam presentes em outros locais dos arquivos, sem os números de série listados nos registros, ou com esses números de série ocultados.
Muitos documentos também foram removidos e adicionados novamente ao site dos arquivos Epstein do Departamento de Justiça nas semanas que se seguiram à divulgação inicial.
Na semana passada, uma análise da CNN constatou que cerca de uma dúzia de relatórios de entrevistas também estavam faltando, mas estavam disponíveis online na tarde de terça-feira.
Um dos dois registros de evidências também estava offline na semana passada, mas agora está acessível novamente. O porta-voz do Departamento de Justiça disse que ele foi “temporariamente removido para ocultação de informações das vítimas”.
Vítimas dizem que depoimentos não foram divulgados
Diversas vítimas de Epstein afirmaram ter vasculhado o site do Departamento de Justiça nas últimas semanas em busca de arquivos que documentassem seus próprios depoimentos ao FBI, sem sucesso.
“Todas nós estávamos procurando nossos depoimentos de vítimas”, disse Jess Michaels, que foi abusada por Epstein aos 22 anos, à CNN após a divulgação dos arquivos.
Relatórios de depoimentos com muitas partes censuradas e trechos faltando sugerem que “este Departamento de Justiça está, na verdade, manipulando a opinião pública de todo o país”, argumentou Michaels.
Entre as mais de 3 milhões de páginas de arquivos divulgadas, encontra-se um conjunto de documentos que os promotores federais forneceram aos advogados de Maxwell antes de seu julgamento por tráfico sexual em 2021.
Esses registros incluem centenas de memorandos do FBI, conhecidos como “Formulários 302”, que documentam depoimentos, bem como outros materiais relacionados a dezenas de testemunhas, algumas das quais depuseram no julgamento, de acordo com dois registros de evidências incluídos na divulgação do Departamento de Justiça.
Especialistas disseram estarem preocupados com o aparente desaparecimento dos Formulários 302, pois eles são fundamentais para a compreensão da longa investigação do FBI sobre Epstein e Maxwell.
Normalmente, os Formulários 302 descrevem o que um entrevistado disse aos agentes, mas não incluem outras informações corroborativas ou opiniões dos agentes.
“É o tijolo mais básico e importante na construção da investigação”, disse Andrew McCabe, ex-diretor adjunto do FBI e colaborador da CNN.
Arquivo relacionado a testemunha contra Trump
Detalhes sobre a maioria dos Formulários 302 desaparecidos, incluindo a identidade das pessoas entrevistadas, foram amplamente omitidos dos registros de evidências.
Mas alguns dos registros de entrevistas desaparecidos parecem estar relacionados a uma testemunha que acusou Trump de agressão sexual.
A mulher ligou pela primeira vez para uma linha direta do FBI e relatou ter sido vítima de Epstein em 10 de julho de 2019, vários dias após sua prisão, de acordo com os autos do processo.
Agentes do FBI a entrevistaram no escritório de seu advogado duas semanas depois, segundo um Formulário 302 que descreve o que ela disse na entrevista.
A mulher contou aos agentes que Epstein a abusou repetidamente em uma casa na Carolina do Sul onde ele estava hospedado, após responder a um anúncio de serviços de babá.
O abuso começou quando ela tinha aproximadamente 13 anos, segundo o relato da mulher.
Em um dado momento da entrevista, quando a mulher mostrou aos agentes uma foto conhecida de Trump e Epstein juntos, enviada por uma amiga, seu advogado disse que ela estava “preocupada em incriminar outras pessoas, especialmente aquelas que eram conhecidas, por medo de represálias”, de acordo com o documento.
O registro de evidências de Maxwell menciona três documentos adicionais, referentes ao Formulário 302, datados de agosto e outubro de 2019, relacionados à mesma vítima, bem como três outros conjuntos de “anotações de entrevista”.
Nenhum desses documentos parece estar presente nos arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça, embora haja cópias de várias fotos que ela forneceu ao FBI, além de registros de correspondências com seu advogado.
Garcia, o congressista democrata, afirmou que, com base nos arquivos não editados que analisou, a mesma mulher “fez sérias acusações contra o presidente”.
Alguns arquivos com trechos omitidos parecem fornecer mais detalhes sobre a alegação. Uma apresentação do FBI preparada em 2025, listando “nomes proeminentes” relacionados a Epstein, inclui a alegação de uma mulher (cujo nome foi omitido) de que Trump a forçou a praticar sexo oral e a agrediu na cabeça depois que Epstein os apresentou. O suposto abuso teria ocorrido entre 1983 e 1985.
Outro arquivo observou que a acusadora de Trump tinha uma ligação com a Carolina do Sul e que a pista foi encaminhada a um escritório do FBI para uma entrevista.
Um processo contra o espólio de Epstein também inclui uma vítima com detalhes biográficos que coincidem com as alegações feitas pela mulher na entrevista ao FBI.
Uma das autoras da ação, identificada como “Jane Doe 4” — um pseudônimo usado para não revelar os nomes das testemunhas –, descreve Epstein abusando dela na Carolina do Sul depois que ela se ofereceu para cuidar de crianças.
Os advogados da mulher escreveram que Epstein a levou de avião para Nova York três ou quatro vezes e “levou Jane Doe 4 a encontros íntimos com outros homens ricos e influentes” que a agrediram sexualmente.
Um desses “homens proeminentes” a forçou a praticar sexo oral, deu-lhe um tapa no rosto e a estuprou, alegou o processo. A seção do processo referente a Jane Doe 4 não nomeia o homem nem outros que supostamente a abusaram.
A mulher foi “considerada inelegível para receber indenização” pelo Programa de Compensação às Vítimas de Epstein, um sistema criado para analisar de forma independente as reivindicações das vítimas, de acordo com um registro judicial de maio de 2021. Não está claro por que ela foi considerada inelegível.
Ela desistiu voluntariamente do processo em dezembro de 2021, e seu advogado disse ao jornal The Post and Courier no mês passado que ela recebeu um acordo financeiro do espólio. Seu advogado se recusou a comentar com a CNN na terça-feira.
Não está claro o que aconteceu com a investigação do FBI sobre as alegações da mulher. Um e-mail trocado entre agentes do FBI no verão passado e incluído nos arquivos observa que “uma vítima identificada alegou abuso por Trump, mas acabou se recusando a cooperar”, embora não especifique se é A mesma pessoa que Jane Doe 4.
*Katelyn Polantz, Hannah Rabinowitz, Lauren Fox, Jeremy Herb e Casey Gannon, da CNN, contribuíram para esta reportagem