Contrariando o que muitos pensam, o burnout não é causado apenas pela sobrecarga de trabalho. No CNN Sinais Vitais, especialistas apontaram que outros fatores têm papel fundamental no desenvolvimento dessa síndrome de esgotamento profissional, como a sensação de injustiça no ambiente de trabalho e a falta de reconhecimento.
Os psiquiatras Rodrigo Bressan e Gustavo Estanislau, da Universidade Federal de São Paulo e do Instituto Ame Sua Mente, explicaram que situações como ver uma pessoa ser promovida sem aparente mérito ou não receber valorização pelo esforço dedicado geram um sentimento de injustiça que pode ser determinante para o desenvolvimento do burnout.
“Isso pode levar, porque isso gera na pessoa uma sensação de injustiça no lugar do trabalho. E uma falta de reconhecimento do investimento”, explica Estanislau.
Relações interpessoais e estresse
Outro fator destacado pelos profissionais é o impacto das relações interpessoais no ambiente de trabalho. Quando questionadas sobre o que mais causa estresse, cerca de 90% das pessoas apontam os relacionamentos com colegas e superiores, e não as tarefas em si. “O que o Gustavo está trazendo aqui é como a pessoa percebe esses eventos no trabalho. Então é óbvio que alguns vão ser diferenciados, vão ganhar mais ou menos. E esse senso de injustiça tem que ser trabalhado”, afirma Bressan.
Os especialistas destacam que o trabalho tem uma relação positiva com a saúde mental, pois está ligado à identidade e realização pessoal. No entanto, a impossibilidade de descanso e a constante sensação de não estar dando conta das demandas, especialmente intensificadas pelos meios digitais que exigem disponibilidade permanente, contribuem significativamente para o burnout.
Profissões com maior risco
Médicos e professores estão entre os grupos com maior risco de desenvolvimento de burnout. A explicação, segundo os especialistas, está no alto nível de idealismo e investimento emocional relacionado a essas profissões.
“Quando o investimento é mais alto, a vulnerabilidade aumenta”, explica Bressan, que menciona trabalhar com professores de escolas públicas na prevenção de transtornos mentais. Ele ressalta que o nível de afastamento por burnout entre professores é extremamente elevado, gerando um alto índice de incapacitação.
Os especialistas concluem que, embora a sobrecarga de trabalho seja um fator importante, é o desequilíbrio entre o investimento feito pelo profissional e o retorno recebido – seja em reconhecimento, valorização ou justiça – que representa o principal gatilho para o desenvolvimento do burnout. Por isso, trabalhar muito não é necessariamente prejudicial se a pessoa se sente valorizada e realizada em suas funções.