Os buracos negros estão entre os objetos mais impressionantes do Universo — e também entre os mais mal compreendidos pelo público. Enquanto eles já foram observados diretamente pela ciência, outros conceitos populares da ficção científica, como buracos brancos e buracos de minhoca, ainda não passam de soluções matemáticas sem comprovação observacional.
Em entrevista à CNN Brasil, o astrofísico Rodrigo Nemmen, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP), explica o que já é realidade científica e o que permanece no campo da teoria.
O que é um buraco negro — e o que foi comprovado
Buracos negros são objetos astronômicos que concentram uma enorme quantidade de matéria em uma região muito pequena do espaço. Essa combinação faz com que sua gravidade seja tão intensa que nada consegue escapar — nem mesmo a luz.
“Eles se tornam uma verdadeira prisão gravitacional”, explica Nemmen. É justamente essa incapacidade da luz de escapar que faz com que esses objetos sejam chamados de “negros”.
A existência dos buracos negros já é amplamente comprovada pela ciência. Segundo o professor, há duas evidências principais:
A primeira imagem de um buraco negro, divulgada em 2019 pelo projeto internacional Event Horizon Telescope, que registrou a chamada “sombra” de um buraco negro.

A detecção de ondas gravitacionais, produzidas pela colisão de buracos negros em diferentes partes do universo, observadas por detectores como o LIGO.
Há ampla comprovação científica e experimental da existência dos buracos negros.
Buracos brancos: curiosidade matemática ou teoria?
Apesar do nome parecido, os buracos brancos são completamente diferentes dos buracos negros — e não têm qualquer comprovação científica.
Segundo Nemmen, eles não são sequer uma hipótese científica no sentido clássico. “Chamar buraco branco de hipótese é até um elogio”, diz.

Em termos simples, um buraco branco seria o oposto de um buraco negro: enquanto o buraco negro aprisiona tudo o que cruza seu horizonte de eventos, inclusive a luz, o buraco branco apenas ejeta matéria e energia, não permitindo que nada entre em seu interior.
Essa ideia não nasceu da observação do Universo, mas de extensões matemáticas das mesmas equações que descrevem os buracos negros.
É simplesmente uma curiosidade matemática de soluções exóticas, não sabemos se eles existem.
Buracos de minhoca e por que aparecem tanto em filmes
Os buracos de minhoca também surgem das equações da relatividade geral, mas se tornaram muito mais conhecidos do grande público por causa da ficção científica.
Séries como “Dark” e “Stranger Things”, por exemplo, exploram a ideia de forma abstrata, apresentando túneis no espaço-tempo, atalhos entre pontos distantes ou até conexões entre diferentes realidades.

Eles seriam túneis que conectam duas regiões distantes do espaço-tempo, permitindo que alguém viaje entre esses pontos por um “atalho” cósmico. Em teoria, isso possibilitaria deslocamentos mais rápidos do que a própria luz seguiria por um caminho convencional.
A ideiam, segundo Nemmen, é fascinante — e justamente por isso aparece com frequência em produções. No entanto, assim como os buracos brancos, não há nenhuma evidência observacional de que buracos de minhoca existam.
É uma ótima ideia que roteiristas e escritores usam para fazer os personagens viajarem rapidamente entre dois pontos do universo.
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Diferença entre o que é real e o que é teórico
Para o professor, a diferença central entre buracos negros e os outros dois conceitos está no fato de que os buracos negros foram observados diretamente, enquanto buracos brancos e de minhoca permanecem apenas no campo matemático.
Outra distinção importante está no comportamento físico desses objetos:
- Buracos negros: apenas atraem matéria e não permitem saída após o cruzamento do horizonte de eventos.
- Buracos brancos: seriam o oposto, com ejeção constante de matéria e energia — algo considerado extremamente exótico.
- Buracos de minhoca: permitiriam entrada por uma “boca” e saída por outra, conectando pontos diferentes do universo.
O que mudou com as descobertas recentes
Apesar do avanço tecnológico, a compreensão básica dos buracos negros não mudou muito desde os anos 1970. Segundo Nemmen, os físicos já haviam estabelecido, naquela época, um verdadeiro “manual de instruções” sobre como esses objetos funcionam do ponto de vista gravitacional.
Desde então, o trabalho dos astrônomos tem sido principalmente confirmar essas previsões na prática.
Algumas vezes a teoria vai na frente e outras, as observações — e a gente observa coisas que não conseguimos explicar.
Hoje, os cientistas conseguem medir massa, rotação e os efeitos gravitacionais dos buracos negros sobre a matéria ao redor. Todas essas observações seguem exatamente o que a relatividade geral prevê.
A grande fronteira atual da pesquisa está nas regiões microscópicas próximas aos buracos negros, onde o comportamento das partículas ainda não é totalmente compreendido.