Desde os nove anos, Bruna Moura prometeu a si mesma que faria algo grande da própria vida. Ela se lembra claramente de ser chamada à frente da sala, em Foz do Iguaçu, para que a professora a humilhasse por não responder uma pergunta com 100% de precisão.
“Ela disse que eu era burra demais e que nunca chegaria a lugar nenhum, nunca seria nada, nunca seria ninguém”, lembrou em entrevista à CNN.
A pergunta? “Quais países da América do Sul fazem fronteira com o Brasil — e quais não fazem?”
Ela afirma que respondeu quase tudo corretamente, esquecendo apenas Bolívia e Suriname. Ao voltar para o lugar, decidiu provar que a professora estava errada.

O sonho olímpico nasce cedo
“Foi naquele momento que decidi que, fosse o que fosse que eu quisesse ser na vida, eu chegaria ao topo”, disse.
Aos 15 anos, suas ambições começaram a ganhar forma: ela seria atleta profissional e disputaria os Jogos Olímpicos.
“O topo de uma carreira esportiva é chegar às Olimpíadas. Não importa se você fica em primeiro ou em último, se você é olímpico, seu nome está nos livros.”
Em 10 de fevereiro, aos 31 anos, Bruna Moura se tornou olímpica nos Jogos de Inverno de Milão-Cortina — mas o caminho até lá foi muito mais difícil do que poderia imaginar.
Do ciclismo à neve
Foram 16 anos de jornada, passando por esportes de verão e de inverno, um susto com a Covid-19 e um acidente de carro fatal que quase tirou sua vida.
O plano inicial era competir na Rio 2016, em casa, como mountain biker. Mas o destino tinha outros planos.
Promessa no circuito júnior da Copa do Mundo, ela foi diagnosticada com um defeito no septo atrial e precisaria passar por cirurgia. Sem dinheiro para o tratamento, um ex-treinador — que também era esquiador cross-country — a convidou para um camp de treino para arrecadar fundos.
O convite mudou tudo: além de pagar a cirurgia, ela descobriu um novo esporte.
A primeira frustração olímpica
“Vi no esqui cross-country uma oportunidade, talvez uma chance melhor de realizar meu sonho”, contou.
Ela disputou seu primeiro Mundial em 2017 e mirou os Jogos de Pequim 2022. Conquistou a última vaga da equipe feminina brasileira na Suíça.
“Foi uma explosão de alegria. Eu mal podia acreditar.”
Mas, no dia seguinte ao anúncio oficial, testou positivo para Covid-19 e entrou em quarentena na Áustria.
O acidente que mudou tudo
A viagem para Pequim estava marcada para 26 de janeiro. Em 27 de janeiro, liberada da quarentena, seguiu de Obertilliach para Munique.
Para reduzir riscos, contratou uma van espaçosa. O motorista decidiu fazer um trajeto alternativo pelo norte da Itália. Ela sentiu ansiedade, colocou o cinto e tentou dormir.
Quando abriu os olhos, tudo estava preto.
“Eu só sabia que eu era Bruna”, disse. Logo depois, dores intensas e dificuldade para respirar.

Entre a vida e a morte
Foi uma colisão frontal devastadora. O motorista morreu no impacto. Ela sofreu lesões no pulmão, fraturas no braço, três costelas quebradas, três fraturas no pé, além de concussão severa.
Se não estivesse de cinto, Bruna teria morrido. “Eu tinha anjos nos ombros”, afirmou.
O acidente ocorreu a cerca de 80 km de Tesero, sede do esqui cross-country em 2026. Tão perto, mas tão longe.
Recomeço e superação
Em casa, na Holanda, assistiu aos Jogos pela TV. A cerimônia de abertura foi “como um soco no rosto”.
Dois meses depois, já caminhava sem muletas. Em agosto, voltou aos treinos com esqui sobre rodas e passou a mirar 2026.
Quatro anos depois, finalmente largou em uma prova olímpica: a classificatória do Sprint Classic.

O círculo se fecha
Entre 89 atletas, ficou em 74º. Dois dias depois, foi 99ª nos 10 km. Em ambas, celebrou cada chegada como vitória.
Competiu com fotos da avó e de uma amiga, Maíra Marques de Oliveira, que prometera vê-la nos Jogos, mas morreu em 2024.
Convive com dores constantes e pensa no acidente todos os dias. Antes de deixar a Itália, voltará ao local da colisão.
“Minha medalha de ouro”
“Pensar que tudo deu tão errado aqui perto e agora estou vivendo o momento da minha vida neste mesmo lugar é loucura. Parece que estou fechando um ciclo.”
As estrelas olímpicas são as medalhistas, mas Bruna prova que toda atleta tem uma história inspiradora.
“Não importa os obstáculos, você precisa continuar lutando pelo que acredita.”
“Ser olímpica é um sonho, mas ver minha história levar esperança às pessoas é minha medalha de ouro.”