Bateria de estado sólido promete carga em 5 minutos e intriga setor

Vistas pela indústria automotiva como uma espécie de “santo graal” tecnológico, as baterias de estado sólido entregariam as características perfeitas para o funcionamento de veículos elétricos: leveza, durabilidade, alta densidade energética e capacidade de recarga em minutos.

Ao contrário das baterias de lítio convencionais — em que o eletrólito é predominantemente líquido (e inflamável) — as suas equivalentes de nova geração poderiam substituir esse componente por um material sólido, com consequências imediatas: maior vida útil, eliminação do risco de incêndio e maior tolerância térmica.

Na prática dos carros elétricos, isso pode ser lido como autonomias superiores, tempos de recarga comparáveis aos de um abastecimento em um posto de gasolina e baterias com décadas de duração. Não por acaso, gigantes como Toyota, Samsung SDI, CATL e BYD investem bilhões nessa tecnologia.

Em janeiro de 2026, quando um clima de ceticismo dominava o setor após uma série de promessas frustradas, uma pequena startup finlandesa chamada Donut Lab subiu ao palco da CES em Las Vegas e apresentou algumas maquetes do que chamou de primeira bateria all-solid-state do mundo, pronta para uso imediato em produção OEM (fabricantes de equipamento original).

As especificações impressionaram: 400 Wh/kg de densidade energética — o dobro das células atuais —, recarga completa em cinco minutos, vida útil de 100 mil ciclos e operação entre -30°C e +100°C, tudo isso sem o uso de materiais de terras raras. “A disponibilidade para fabricação é agora, hoje, não depois”, assegurou o CEO Marko Lehtimäki.

Quem acredita no “I Donut Believe”?

A reação ao anúncio da Donut foi explosiva. O presidente da fabricante chinesa Svolt Energy, Yang Hongxin, disse que essa bateria “não pode existir”, pois todos esses parâmetros anunciados em conjunto eram fisicamente contraditórios. O ceticismo foi replicado por especialistas de universidades e analistas do setor.

A empresa então dobrou a aposta: Lehtimäki, admitiu ter deixado os críticos falarem primeiro, de propósito, para que o público em geral pudesse assimilar a magnitude da suposta descoberta. Em seguida, lançou a campanha “I Donut Believe”, prometendo realizar e divulgar testes independentes semanalmente.

O parceiro escolhido foi o Centro de Pesquisa Técnica da Finlândia (VTT), uma instituição estatal com credibilidade científica consolidada. Além disso, Lehtimäki prometeu que as motos elétricas da Verge Motorcycles — empresa mãe da Donut — sairiam de fábrica equipadas com as novas baterias já no primeiro trimestre de 2026.

No final de fevereiro, o primeiro relatório do VTT, com foco na velocidade de recarga, foi divulgado. Uma célula pouch (parecida com um sachê selado a vácuo) com capacidade energética de 94 Watts-hora — o equivalente a pouco mais de sete iPhones 15 — foi testada em taxas de 5C e 11C, carregamentos em 1/5 e 1/11 de hora respectivamente.

No teste de 5C (12 minutos), a célula atingiu 80% de carga em menos de dez minutos e 100% em cerca de 13 minutos, com temperatura de pico de apenas 47°C. O teste de 11C (5 minutos) — o mais agressivo — carregou a célula a 80% em 4,6 minutos e ao máximo em menos de oito minutos. Os resultados confirmaram pelo menos uma das afirmações extraordinárias da empresa.

Os testes de calor: revelações e novas dúvidas

Com o ceticismo parcialmente abalado, mas o time do “ver para crer” ainda atento, o VTT publicou sua segunda série de testes em 2 de março de 2026, avaliando o desempenho da célula — identificada como DL2 — em altas temperaturas. Ela foi submetida a ciclos de carga e descarga a 80°C e 100°C, com uma placa de aço de 2,4 kg posicionada em cima para simular pressão mecânica.

Os resultados foram, no mínimo, desconcertantes. O que é esperado em baterias de íon de lítio convencionais é que a capacidade caia à medida que a temperatura sobe: o eletrólito líquido se degrada, o lítio fica instável, a membrana que separa os eletrodos pode derreter e, em casos extremos, a bateria entra em fuga térmica, com risco de incêndios.

Mas a célula da Donut Lab fez exatamente o contrário: quanto mais quente, melhor ela performou. A 80°C entregou 110,5% da capacidade nominal; a 100°C, ainda operou em 107%. Isso indica que a química interna da célula se beneficia do calor em vez de ser prejudicada por ele. Porém, após o teste a 100ºC, a embalagem externa da célula perdeu o vácuo.

Entrevistado pelo site InsideEVs, Eric Wachsman — autoridade global no assunto e professor da Universidade de Maryland — afirmou que, “para serem comercialmente relevantes, as células precisam ser estáveis com menos de 10-20% de capacidade de desaparecimento por milhares de ciclos. Sem isso, os testes são essencialmente irrelevantes”, concluiu.

Fiel ao rigor científico, o VTT limitou-se a registrar os fatos: no segundo teste, a bateria suportou até 100°C e manteve sua capacidade. Quanto à perda de vácuo, o laboratório observou que os materiais da célula permaneceram intactos e continuaram operando sem qualquer sinal de combustão. Prometidos para as próximas semanas, os próximos testes precisarão ir mais longe.

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