O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem reforçado nos últimos dias que leva a sério a ideia de assumir o controle da Groenlândia — uma proposta que ele já havia levantado em 2019, mas que agora voltou ao centro do debate internacional.
“Vamos fazer alguma coisa em relação à Groenlândia, gostem eles ou não”, disse Trump na sexta-feira (9). No domingo (18), afirmou: “De um jeito ou de outro, nós vamos ficar com a Groenlândia”. Em uma publicação nas redes sociais, afirmou que “qualquer coisa menos que isso é inaceitável”.
As declarações são tão frequentes que, para aliados e críticos, começa a parecer que não concretizar a promessa poderia ser vista como um fracasso político em seu segundo mandato.
Mesmo assim, a proposta ainda soa tão improvável que muitos republicanos tratam o assunto como exagero ou provocação. Alguns acreditam que Trump não fala sério e apenas usa o tema como estratégia política.

Provocação, distração ou estratégia
Uma das interpretações mais comuns é que Trump estaria apenas provocando adversários ou desviando a atenção de outros problemas, como a inflação persistente ou episódios recentes de violência interna.
Para os aliados de Trump, são apenas jogadas de “provocação” que comprovam a vantagem psicológica de Trump sobre seus inimigos.
“Quer dizer, eu sei que vocês foram enganados para morderem a isca”, disse o senador republicano Kevin Cramer, da Dakota do Norte , na semana passada, sobre o uso das forças armadas por Trump na Groenlândia.
Pressão sobre a Dinamarca
Há, porém, sinais de que Trump pode estar falando sério. A ideia de assumir a Groenlândia aparece de forma recorrente em seus discursos e se encaixa em uma estratégia mais ampla de reforçar a influência dos EUA no Hemisfério Ocidental.
A Groenlândia é um território semiautônomo ligado à Dinamarca, país-membro da OTAN, e tem importância estratégica e econômica. Trump já deixou claro que não descarta o uso de força militar, o que poderia gerar uma crise inédita dentro da própria aliança militar ocidental.
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A Groenlândia também faz sentido como alvo por muitas das mesmas razões que a Venezuela – estrategicamente e em termos de recursos naturais.
Nesse cenário, analistas avaliam que a ameaça poderia ser uma forma de pressionar a Dinamarca e o governo local da Groenlândia a negociar algum tipo de acordo.
Resistência e riscos
O problema é que tanto a Dinamarca quanto a Groenlândia rejeitam qualquer negociação sobre venda ou transferência de soberania. Autoridades locais afirmam que o território “nunca esteve à venda e nunca estará”.
Pesquisas indicam que a população da Groenlândia é amplamente contrária a ficar sob controle dos EUA. Além disso, uma ação militar poderia provocar um rompimento grave entre Washington e seus aliados europeus.
“A Groenlândia nunca esteve à venda e nunca estará”, disse Aaja Chemnitz, membro do parlamento dinamarquês pela Groenlândia, na semana passada
Apesar disso, assessores próximos a Trump minimizam o risco de reação internacional, argumentando que nenhum país entraria em guerra com os EUA por causa da Groenlândia.
“Ninguém vai entrar em guerra com os Estados Unidos pelo futuro da Groenlândia”, declarou Stephen Miller, assessor da Casa Branca, no início deste mês.
Apoio limitado nos EUA
Internamente, Trump também enfrenta resistência. Uma pesquisa da CNN mostrou que apenas 25% dos americanos apoiam a ideia de assumir o controle da Groenlândia.
No Congresso, até republicanos sinalizam oposição, e já existem projetos de lei para impedir o uso de força militar nesse caso. Trump tem muito poder como comandante-em-chefe, mas essa falta de apoio também importa.
Um acordo alternativo?
A alternativa mais provável seria Trump recuar da ideia de “posse” e fechar algum tipo de acordo de cooperação militar ou estratégica. Os EUA já mantêm acordos desse tipo com a Groenlândia há décadas.
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Mas Trump afirmou que acordos de defesa não seriam suficientes. Ele argumentou que a propriedade é necessária porque, segundo ele, caso contrário, a Rússia ou a China assumiriam o controle.
Com isso, Trump adota uma postura maximalista. Resta saber até onde ele está disposto a ir — e se suas palavras vão se transformar em ações concretas.