Uma testemunha afirmou à Polícia Civil de São Paulo que três policiais militares estiveram no apartamento onde a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada morta com um tiro na cabeça, no bairro do Brás, região central de São Paulo. Segundo o depoimento, as agentes teriam ido ao local para realizar uma limpeza no imóvel.
A informação consta em depoimento da inspetora do condomínio, identificada como Fabiana Capinan de Carvalho Pereira. Ela declarou em inquérito que, por volta das 17h48, três policiais, identificadas como soldado Santana, cabo Selma e soldado Lobão, foram ao apartamento acompanhadas por ela para realizar a limpeza do imóvel.
Gisele foi encontrada morta no dia 18 de fevereiro, no apartamento onde vivia com o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. Inicialmente registrada como suicídio, a ocorrência passou a ser investigada como morte suspeita.
Bombeiro estranhou cena do local
Em depoimento à polícia, um bombeiro que participou do atendimento afirmou ter estranhado a forma como a policial foi encontrada. Segundo ele, Gisele estava caída entre o sofá e uma estante da sala, com grande quantidade de sangue na região da cabeça, parte dele já coagulado.
O socorrista relatou ainda que a vítima não apresentava rigidez cadavérica e que teria sido “muito fácil” retirar a arma da mão direita da policial, que segurava o armamento com o dedo fora do gatilho. De acordo com o depoimento, ele decidiu fotografar a cena por conta própria para preservar o registro do local antes da remoção da vítima.
Durante a análise do ambiente, o bombeiro também afirmou que não encontrou o cartucho da arma no local.
O profissional relatou ainda que a postura do marido da vítima, o tenente-coronel Neto, chamou sua atenção por ele não aparentar desespero diante da situação.
Com base em sua experiência, o bombeiro afirmou que a cena não apresentava características típicas de suicídio. Ele mencionou que, em geral, casos desse tipo ocorrem em locais mais isolados da residência e destacou que, ao longo de oito anos de trabalho como socorrista, suicídios envolvendo mulheres com filhos pequenos são raros.
Desembargador esteve no apartamento
O inquérito também aponta que o desembargador Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan, do TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo), esteve no apartamento após ser chamado pelo tenente-coronel Neto, que afirmou tratar-se de um amigo pessoal.
Segundo registros da investigação, o magistrado teria entrado no imóvel junto com o oficial.
Testemunhas ouvidas pela polícia relataram que o tenente-coronel afirmou que iria tomar banho no apartamento mesmo após ser orientado por policiais a não entrar no imóvel naquele momento, para preservar o local.
De acordo com depoimentos, Neto teria retornado ao apartamento acompanhado do desembargador antes de seguir para atendimento psicológico no Hospital das Clínicas de São Paulo.
Em sua versão inicial, o oficial disse que estava tomando banho quando ouviu o disparo e, ao sair, encontrou a esposa caída no chão.
Em nota, o desembargador Cogan afirmou que foi chamado ao local como amigo do policial e declarou que eventuais esclarecimentos serão prestados à polícia.
Corpo exumado
O corpo da soldado Gisele foi exumado na última sexta-feira (6) para a realização de novas perícias. A medida foi adotada pela Polícia Civil para aprofundar a investigação sobre as circunstâncias da morte.
Segundo a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, o caso foi registrado inicialmente como suicídio no 8º Distrito Policial do Brás, mas a natureza da ocorrência foi posteriormente alterada para morte suspeita.
Os laudos do IML (Instituto Médico Legal) ainda são aguardados e devem integrar o conjunto de provas analisado no inquérito. A Corregedoria da Polícia Militar acompanha as investigações, e o tenente-coronel citado no caso está afastado de suas funções a pedido, segundo a SSP.