Embora sejam obrigadas a reduzir as suas emissões apenas a partir de 2027, as companhias aéreas Latam e Azul já estão antecipando a introdução do SAF (combustível sustentável de aviação) em suas operações.
Sancionada em 2024, a Lei do Combustível do Futuro obriga os operadores aéreos a reduzirem as emissões de gases do efeito estufa nos voos domésticos por meio do uso do SAF a partir do ano que vem. As metas começam com 1% de redução e crescem gradativamente até atingir 10% em 2037.
A Latam já tem utilizado SAF em algumas operações, como é o caso de Salvador (BA). A empresa tem investido em quatro frentes para acelerar a entrada do combustível em suas atividades:
- Atuação junto aos formuladores de políticas públicas para a regulamentação da Lei de Combustíveis do Futuro;
- Adesão ao registro SAF da IATA (Associação Internacional de Transportes Aéreos);
- Investimentos em eficiência operacional, que resultaram na redução de mais de 98 mil toneladas de CO₂ em 2024, e compensação de aproximadamente 400 mil toneladas de carbono provenientes de projetos de conservação ambiental;
- Diálogo contínuo com governos, fornecedores e organismos internacionais para destravar barreiras e consolidar um mercado continental de SAF.
De olho em 2027, a Latam diz estar “avaliando todas as alternativas disponíveis para o uso de combustíveis mais sustentáveis”, considerando inclusive a importação do SAF. No entanto, a empresa defende que o desenvolvimento do SAF no Brasil deve valorizar a sua matriz energética, priorizando a produção nacional.
Segundo a Latam, a sua frota encontra-se tecnicamente apta a operar com SAF. Em julho de 2023, a empresa recebeu no Brasil sua primeira aeronave abastecida com SAF, após voo entre Toulouse, na França, e Fortaleza (CE), que utilizou 30% do combustível produzido a partir de óleo de cozinha usado.
“Para garantir uma transição energética justa, é fundamental que políticas públicas apoiem a produção e a aquisição desse combustível, assegurando que o custo não recaia exclusivamente sobre as empresas aéreas e os passageiros, uma vez que a elevação de custos impacta diretamente o preço das passagens”, disse a Latam ao CNN Money.
Também visando se adequar às novas exigências em 2027, a Azul estuda realizar neste ano voos-testes com um de seus parceiros comerciais utilizando o SAF disponível no mercado. Os aviões da empresa também são certificados para operar com o combustível verde.
A Azul prevê adquirir SAF integralmente produzido no Brasil, como o projeto anunciado pela Petrobras. Apesar dos planos para abastecer os seus aviões com SAF, a empresa quer cumprir suas metas de descarbonização sem depender do combustível verde em larga escala, apoiando-se principalmente em eficiência operacional e renovação de frota.
Para isso, a companhia tem um programa de eficiência energética, que consiste em usar energia elétrica em solo sempre que disponível, otimizar procedimentos operacionais e planejamento de rotas e peso para reduzir o consumo de combustível durante os voos.
“Nesse momento, o foco é avaliar cronogramas reais de entrada em operação, discutir modelos de precificação e contratos compatíveis com a realidade da aviação e contribuir para a criação de um ambiente que atraia investimentos para novas plantas de SAF no país”, afirmou Filipe Alvarez, gerente-executivo de sustentabilidade, governança e disciplina de gestão da Azul, ao CNN Money.
O CNN Money procurou a Gol para comentar a sua preparação para a atender a Lei do Combustível do Futuro, mas a companhia aérea não se manifestou.
Projetos pioneiros
Três projetos assumiram a dianteira na produção de SAF no Brasil: Petrobras, Acelen e Refinaria Riograndense. Os empreendimentos encontram-se em diferentes estágios de desenvolvimento, conforme a rota tecnológica adotada.
As projeções indicam que, com a entrada em operação dos projetos anunciados, a oferta nacional do produto poderá alcançar cerca de 1,7 bilhão de litros por ano a partir de 2030.
O governo federal avalia que a capacidade nominal total dos projetos anunciados e em desenvolvimento é suficiente para atender às metas do Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação nos próximos 10 anos.
O Ministério de Minas e Energia estima que a produção projetada de SAF representará, em média, cerca de 20% da demanda de combustível de aviação entre 2027 e 2035, alcançando 28% da demanda total em 10 anos.
Segundo a pasta, o cumprimento das metas do Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação poderá resultar na redução de aproximadamente 1,3 milhão de toneladas de CO₂ equivalente por ano em 2035, considerando apenas os voos domésticos.
Ao considerar os efeitos do programa brasileiro às metas do CORSIA, programa internacional de descarbonização da aviação, a redução total estimada para 2035 pelo governo federal chega a cerca de 7,1 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano.