Felicidade não é o único critério para uma vida boa, mostra pesquisa

Boa parte da cultura do bem-estar — dos discursos “terapêuticos” das redes sociais ao wellness, passando pela psicologia positiva — trata a felicidade como o critério principal para decidir se uma vida deu certo. Mas será que sentir-se feliz, momento a momento, é o mesmo que viver uma vida boa?

O psicólogo Joel Wong, da Indiana University, nos EUA, diz que não. Para ele, é perfeitamente possível “sentir-se feliz e, ainda assim, meio perdido — bem como é possível atravessar um luto com um forte senso de propósito”. Em um artigo recente para a plataforma Psychology Today, ele explora a diferença entre felicidade e significado.

Ou seja, embora felicidade e sentido sejam ambos aspectos de uma vida boa, podem levar a resultados diferentes. No fundo, Wong quer desmontar a ideia muito difundida hoje de que “sentir-se feliz” é o critério principal de uma vida boa — e recolocar o sentido como eixo central.

Para entender por que essa equivalência não se sustenta, Wong começou pelo conceito mais imediato dos dois: a felicidade. Para ele, pessoas felizes tendem a vivenciar mais emoções agradáveis do que desagradáveis e relatam satisfação geral com a própria vida.

Já o sentido de vida opera em outro registro. Para defini-lo, Wong recorre a um artigo teórico dos psicólogos Login George e Crystal Park, de 2016. Eles dividem o conceito em três eixos: a vida parece coerente, ou seja, faz sentido internamente; aponta para um propósito; e importa para além de si mesma.

Sentido e felicidade: quais são os quatro tipos de vida?

Se felicidade e sentido não são a mesma coisa, então como essas duas dimensões se combinam na prática? Para tentar mapear diferentes formas de viver, Wong usou um estudo com adultos, realizado por Roy Baumeister e colegas nos EUA em 2015. Eles analisaram hábitos, emoções e prioridades.

Na prática, o que puxa felicidade não é o mesmo que puxa sentido — e, às vezes, o que reduz um pode fortalecer o outro. Enquanto o sentido está associado a ajudar pessoas, a felicidade aparece ligada ao autocuidado. Quem enfrenta mais dificuldades, tende a ser menos feliz, mas relata mais sentido de vida.

As descobertas inspiraram Wong a organizar uma matriz com quatro tipos de vida, combinando níveis altos e baixos de felicidade e de sentido. No topo, está o ideal dos dois mundos: você se sente bem e, ao mesmo tempo, percebe sentido no que faz.

Em seguida, há mais três combinações possíveis. Primeiramente, a vida agradável, na qual a felicidade é alta e o sentido, baixo, é comum em pessoas que vivem o presente, mas sem sentido de vida. Por outro lado, a vida vazia reúne baixa felicidade e baixo sentido, marcada por falta de alegria, desconexão e ausência de rumo.

O que significa viver uma “vida cara”?

O quarto tipo — o que mais interessa a Wong — é a vida cara, com sentido alto e felicidade baixa. Não é ausência de felicidade por falta de opção — é sacrifício consciente em nome de algo que a pessoa valoriza mais do que o próprio conforto, como cuidar de um familiar doente, ou denunciar uma injustiça social.

Quem vive desse jeito costuma rejeitar a ideia de simplesmente priorizar o prazer — não porque gosta de sofrer, mas porque considera o conforto uma resposta insuficiente diante do fardo que escolheu carregar, afirma Wong. É o perfil de quem chama o que faz de vocação, ligada à consciência, à fé ou ao amor.

Para ilustrar esse ponto, Wong recorre a uma experiência pessoal: ao saber do diagnóstico grave do pai, viajou a Singapura e passou a véspera de Natal ao lado dele, no hospital. Claramente, não foi um período feliz, escreve o autor — mas foi, segundo ele, um dos mais significativos da sua vida.

Tratar a felicidade como o único objetivo da vida humana talvez seja simplificar demais o que significa viver bem. Para Wong, “viver de acordo com os próprios valores, buscar o que realmente importa e se dedicar a algo maior do que o conforto talvez seja uma das coisas mais profundamente humanas da experiência de estar vivo”.

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