A possibilidade de um El Niño de intensidade muito forte nos próximos meses levou a Associação Brasileira de Municípios (ABM) a lançar um guia com orientações para que prefeituras se preparem para possíveis eventos climáticos extremos. O material reúne medidas para prevenção, resposta emergencial e recuperação e recomenda que diferentes áreas da administração municipal atuem de forma integrada.
A publicação da ABM utiliza a expressão “Super El Niño” para se referir ao cenário de forte intensificação do fenômeno. Na atualização mais recente da NOAA, divulgada em 13 de agosto, a agência passou a indicar mais de 90% de probabilidade de um El Niño muito forte durante o outono e o inverno de 2026-27 no Hemisfério Norte e 69% de chance de que o episódio seja histórico, superando a intensidade dos eventos registrados desde 1950.
Com isso em mente, o “Guia Prático para Enfrentamento ao Super El Niño e Eventos Climáticos Extremos” foi elaborado para auxiliar prefeituras, secretarias e equipes técnicas a organizar medidas antes, durante e depois de situações de emergência. A proposta é que os municípios se antecipem aos riscos, em vez de concentrar a atuação apenas na resposta após um desastre.
A ABM destaca que eventos climáticos extremos não devem ser tratados exclusivamente pela Defesa Civil. Segundo a entidade, a resposta exige integração entre gabinete do prefeito, procuradoria, planejamento, saúde, assistência social, infraestrutura, mobilidade, educação, meio ambiente, comunicação e finanças.
“Os efeitos das mudanças climáticas são sentidos e vividos com mais intensidade nos municípios. O objetivo do guia é apoiar as equipes locais na proteção da população antes, durante e depois de um evento extremo”, afirma Eduardo Tadeu Pereira, diretor-executivo da Associação Brasileira de Municípios.
Quais são os possíveis impactos no Brasil
Os efeitos de um El Niño variam de acordo com a região. No cenário apresentado pela ABM, Norte e Nordeste podem enfrentar redução das chuvas, estiagens, queda no nível dos rios, pressão sobre o abastecimento e aumento do risco de queimadas.
No Centro-Oeste, o calor e a baixa umidade podem favorecer incêndios, especialmente no Pantanal. Já o Sudeste pode ter períodos de calor intenso, baixa umidade e irregularidade das chuvas.
No Sul, por outro lado, o cenário apontado pela associação é de maior risco de temporais persistentes, enchentes, alagamentos e deslizamentos.
Esses efeitos, no entanto, não devem ser interpretados como consequências inevitáveis em todas as localidades. A própria NOAA ressalta que um El Niño mais intenso aumenta a probabilidade de determinados impactos, mas não garante que eles ocorrerão em todas as regiões.
O que as prefeituras devem fazer antes de eventos extremos
Entre as medidas recomendadas pela ABM está o mapeamento das áreas de risco e a identificação das populações mais vulneráveis. O guia também orienta os municípios a atualizar planos de contingência e deixar previamente definidos abrigos, equipes, equipamentos e estoques necessários para situações de emergência.
A publicação recomenda ainda que as prefeituras antecipem procedimentos administrativos, incluindo a organização da documentação necessária para eventuais contratações emergenciais.
A ideia é reduzir o tempo de resposta quando uma situação crítica ocorrer, principalmente em municípios sujeitos a enchentes, deslizamentos, estiagens, queimadas ou interrupções de serviços essenciais.
Como agir durante uma emergência
Durante uma crise, a orientação é instalar um gabinete de crise e integrar as diferentes secretarias municipais. Entre as ações previstas estão evacuação de áreas de risco, acolhimento da população, atendimento de saúde, distribuição de suprimentos e manutenção dos serviços essenciais.
A comunicação também é tratada como parte da resposta. Segundo o guia, os municípios devem manter uma comunicação oficial, rápida e acessível para orientar os moradores e combater a disseminação de informações falsas durante situações de emergência.
A atuação municipal não termina quando o evento climático passa. O guia orienta as prefeituras a avaliar os danos, retomar os serviços públicos, prestar apoio às famílias atingidas e planejar uma reconstrução que reduza a exposição a novos riscos.
A ABM também recomenda o registro transparente de despesas, contratos e decisões administrativas tomadas durante a emergência.
El Niño pode ser histórico
A preocupação dos municípios ocorre em meio ao rápido fortalecimento do El Niño observado no Pacífico. Segundo a atualização mais recente da NOAA, as temperaturas da superfície do mar no Pacífico Equatorial Leste já apresentavam anomalias superiores a 2°C em julho. O índice Niño 3.4 chegou a +1,4°C, enquanto o Niño 1+2 atingiu +2,9°C.
A agência estima 69% de probabilidade de que, no trimestre outubro-dezembro de 2026, o fenômeno alcance uma intensidade que supere os episódios registrados desde 1950, com anomalia de 2,5°C ou mais no índice Niño 3.4. A NOAA também aponta mais de 90% de chance de um evento muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026-27.
O Guia Prático para Enfrentamento ao Super El Niño e Eventos Climáticos Extremos será disponibilizado gratuitamente pela Associação Brasileira de Municípios.