A OpenAI, criadora do ChatGPT e uma das gigantes da tecnologia americana, lançou suas operações de negócios no Brasil.
Com escritório situado em São Paulo e parcerias com a capital paulista, o objetivo da companhia de Inteligência Artificial é ampliar a conexão com as empresas nacionais que contratam produtos de laboratórios como ChatGPT e Codex.
Com exclusividade, o CNN Money entrevistou o vice-presidente de estratégia internacional da OpenAI, Oliver Jay, que comentou sobre a disputa de preços das principais ferramentas de inteligência artificial e também detalhou um pouco da estratégia para o mercado brasileiro.
Confira, a seguir, a entrevista na íntegra:
CNN Money: O que levou à decisão de lançar essa operação comercial aqui no Brasil?
Oliver Jay, VP da OpenAI: A nossa história com o Brasil já vêm de alguns anos. Quando o ChatGPT foi lançado, Sam Altman, nosso fundador, veio ao Brasil imediatamente, poucos meses depois, para conhecer e ouvir a comunidade, além de entender o feedback sobre como poderíamos desenvolver o produto.
Nos anos seguintes, abrimos um escritório em São Paulo, contratamos uma equipe local e, ainda hoje, estamos anunciando uma parceria com a cidade de São Paulo, por meio de um programa para utilizar nossa inteligência artificial avançada no governo.
Será a nossa primeira cidade na América Latina a utilizar o nosso produto.
Por isso, estamos extremamente animados. Vemos uma grande demanda no mercado brasileiro. O Brasil é o nosso terceiro maior mercado em número de usuários ativos.
Além disso, também estamos pensando em apoiar diferentes comunidades como, por exemplo, a comunidade de desenvolvedores.
O número de desenvolvedores brasileiros que estão construindo com a nossa API (Interface de Programação de Aplicações) é o segundo maior do mundo. Portanto, vemos uma demanda enorme.
Para nós, aprofundar nosso compromisso com o Brasil significa estabelecer cada vez mais parcerias e contratar uma equipe local forte para ajudar empresas e organizações a aproveitarem ao máximo a inteligência artificial.
CNN Money: E qual é o objetivo imediato e o principal projeto neste momento?
OJ: A missão da nossa empresa é desenvolver inteligência artificial e garantir que ela beneficie toda a humanidade.
Portanto, tudo isso faz parte de uma estratégia central. Vocês continuarão vendo investimentos na distribuição do nosso produto gratuito. Também vamos distribuir nosso produto voltado para educação.
Estamos fazendo uma parceria com o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e oferecendo o ChatGPT, nosso produto educacional, a todos os estudantes, professores e funcionários, justamente para investir na próxima geração e prepará-la para utilizar inteligência artificial avançada.
Também estamos investindo bastante no apoio tanto a pequenas quanto a grandes empresas. Com pequenas empresas, temos parcerias com organizações como a Lanter, que está trabalhando para capacitar todo o setor jurídico brasileiro.
Ademais, com a Estímulo, estamos desenvolvendo um programa nacional de alfabetização em inteligência artificial para apoiar pequenas e médias empresas. E, é claro, também estamos trabalhando com grandes empresas, como Nubank e Itaú.
Uma parte importante do nosso foco é construir equipes que possam levar nossa experiência do nosso laboratório de pesquisa, nossa experiência na implementação de inteligência artificial de fronteira em todo o mundo, e trazer esse conhecimento e talento para empresas e organizações no Brasil.
CNN Money: Existe uma percepção generalizada de que o uso de inteligência artificial está mudando nas empresas brasileiras. Num primeiro momento, os líderes dessas empresas diziam: “Por favor, usem IA à vontade. Experimentem, façam mudanças, façam o que quiserem”. Agora, há uma mudança de direção. Como vocês estão se adaptando a essa nova realidade?
OJ: Você está absolutamente certo. Estamos vendo uma demanda enorme por parte das empresas. No Brasil, especificamente, vemos uma demanda cinco vezes maior ano a ano.
Para nós, trata-se realmente de garantir que tenhamos os modelos com melhor desempenho em cada faixa de preço, para que as empresas possam aproveitar ao máximo a inteligência artificial da maneira mais econômica possível.
Por exemplo, quando lançamos o GPT-5.6, nossos modelos tinham, na verdade, vários níveis. Temos o 5.6 Sol, que é incrivelmente poderoso. Mas nem todas as empresas precisam utilizar esse modelo para todas as tarefas.
Por isso, temos diferentes níveis. Temos o Terra e o Luna. São modelos com preços diferentes, que permitem às empresas utilizá-los também em casos que não exigem aquele mesmo nível de inteligência.
Acho que vocês verão investimentos cada vez mais nessa direção: combinar o modelo mais inteligente, pelo melhor preço, para cada tarefa.
CNN Money: E quais são os ganhos de produtividade que as empresas brasileiras ainda não estão aproveitando com o devido esforço?
OJ: Acho que estamos vendo uma grande mudança neste momento. Quando disse que o uso empresarial está crescendo no Brasil, o que estamos observando é uma grande mudança entre utilizar a IA, quando ela surgiu, como um chatbot e, agora, utilizar a IA para efetivamente realizar tarefas.
É aí que entra a palavra que está em alta neste ano: agentes.
Estamos vendo cada vez mais empresas utilizarem inteligência artificial para realmente executar tarefas.
Há alguns meses lançamos o ChatGPT Work. O ChatGPT Work é a nossa versão do ChatGPT capaz de realizar tarefas de forma autônoma, seja criando uma apresentação em PowerPoint, analisando planilhas do Excel ou construindo um site.
Essas são tarefas que o ChatGPT agora consegue realizar de forma autônoma em nome dos usuários. E é aí que estamos vendo muita demanda. Existe um grande potencial para uma adoção ainda maior dessa tecnologia.
CNN Money: Você falou sobre preços. Seus concorrentes chineses, principalmente os de código aberto e os que trabalham com modelos abertos, têm uma barreira de preço bastante menor. Como vocês estão se preparando para esse tipo de competição?
OJ: O que estamos observando é que, no fim das contas, as empresas não avaliam o custo por token. Elas avaliam o custo por trabalho realizado ou por tarefa. E essa é uma área na qual temos investido muito esforço para garantir que nossos modelos sejam os mais eficientes possíveis.
Então, mesmo que o custo por token provavelmente sempre tenha opções mais baratas no mercado, nossos modelos de eficiência são tão bons que o retorno que recebemos dos clientes é que, quando eles fazem avaliações no mundo real, essa eficiência compensa qualquer vantagem de custo que possa existir.
Continuaremos investindo na construção dos modelos mais eficientes. A outra questão é o que mencionei anteriormente: garantir que tenhamos diferentes faixas de preço para diferentes níveis de inteligência.
Queremos oferecer o melhor modelo para cada faixa de preço. E é isso que estamos observando na prática. O feedback que recebemos é que, no fim das contas, o que importa é qual é o custo por trabalho realizado.
CNN Money: É impossível terminar nossa conversa sem tocar em geopolítica e nos custos que ela traz para o seu negócio. Empresários brasileiros ficaram surpresos quando ouviram a possibilidade mencionada por Sam Altman de entregar 5% da participação da empresa à Casa Branca, apelando para que outras empresas do setor fizessem o mesmo.
Existe um risco de interferência política e de não serem tomadas as decisões mais eficientes no nível de gestão e da alta administração. Gostaria que você discorresse sobre essa questão.
OJ: Para nós, fazer parcerias é realmente sempre o primeiro passo. A primeira pessoa que contratamos em qualquer país é alguém da equipe de relações governamentais, que trabalha com o governo.
Acho que, para nós, sempre que chegamos a um país, a primeira coisa que pensamos é: como podemos apoiar a agenda de inteligência artificial daquela empresa local? E isso é diferente em cada país. É por isso que estamos aqui.
Uma grande razão pela qual estamos reforçando e aprofundando nossas raízes no Brasil é porque queremos fazer parte do diálogo. Queremos ouvir. Queremos aprender sobre o que é mais importante para o país.
Assim, podemos nos adaptar e, esperamos, desempenhar um papel importante na concretização dos benefícios que a inteligência artificial pode proporcionar.