Moody’s rebaixa rating da Cosan e cita reestruturação da Raízen

A Moody’s Local Brasil rebaixou nesta segunda-feira (10) o rating de emissor da Cosan de AA.br para A+.br, mantendo a perspectiva “negativa”. Segundo a agência de classificação de risco, a decisão reflete o enfraquecimento do perfil de negócios da companhia, principalmente diante da deterioração da qualidade de crédito da Raízen, uma de suas principais investidas, e dos desinvestimentos realizados pela holding nos últimos dois anos.

A Cosan é uma das controladoras da Raízen, que atualmente está em recuperação extrajudicial. Para a agência, a situação da companhia de açúcar, etanol e combustíveis reduziu o valor de mercado do portfólio da Cosan e deverá resultar em um fluxo de dividendos menor e mais concentrado.

A perspectiva negativa também incorpora os riscos de execução para a redução do endividamento da holding, além das incertezas sobre a composição final do portfólio da empresa e seus efeitos sobre o perfil financeiro da Cosan.

Raízen pesa sobre Cosan

A homologação, em 30 de julho, do plano de recuperação extrajudicial da Raízen prevê o reperfilamento de aproximadamente R$ 61,4 bilhões em dívidas. O processo envolve aporte de capital, conversão de dívidas e cisão de companhias

Segundo a agência, a reestruturação tende a provocar uma diluição relevante da participação da Cosan na Raízen, embora ainda existam incertezas sobre a estrutura de capital resultante, o nível de recuperação e o controle acionário que permanecerá com a holding.

A ausência de dividendos da Raízen também deve continuar pressionando a Cosan nos próximos anos. A Moody’s afirma que não há visibilidade sobre quando a distribuição de proventos da investida poderá ser retomada.

Desinvestimentos

Para melhorar sua estrutura de capital, a Cosan realizou uma série de desinvestimentos. Entre os principais movimentos estão a venda integral de sua participação na Vale, no início de 2025, por aproximadamente R$ 9 bilhões; a monetização de cerca de 10% do capital da Rumo, que gerou cerca de R$ 3 bilhões; e o IPO secundário da Compass, em maio de 2026, que reduziu a participação da Cosan de 88% para aproximadamente 76% e levantou cerca de R$ 2,4 bilhões para a holding.

Em junho, a Cosan também anunciou a venda de 12% do portfólio de terras da Radar Propriedades Agrícolas, equivalente a cerca de 41,2 mil hectares, por R$ 1,85 bilhão. Desse montante, aproximadamente R$ 586 milhões caberiam à Cosan. A conclusão da operação está prevista para até 30 de outubro, sujeita à aprovação do Cade.

A companhia também avalia alternativas para sua participação na Rumo e contratou o BTG Pactual como assessor financeiro.

Dividendos devem cair

A redução da participação na Compass e a ausência de dividendos da Raízen devem diminuir de forma significativa o fluxo de proventos recebido pela Cosan.

Entre 2021 e 2025, Raízen e Compass responderam, juntas, por uma média de aproximadamente R$ 7 bilhões em dividendos líquidos de repasse à holding. A Moody’s estima que o dividendo líquido recorrente da Compass recue de uma média próxima de R$ 1 bilhão até 2025 para algo entre R$ 300 milhões e R$ 500 milhões.

No conjunto do portfólio, a Cosan recebeu em média cerca de R$ 2,3 bilhões por ano em dividendos líquidos de repasse entre 2021 e 2025. Para os próximos anos, a Moody’s projeta redução desse montante para aproximadamente R$ 1 bilhão a R$ 1,3 bilhão.

Dívida

Entre 2025 e 2026, a Cosan realizou cerca de R$ 18 bilhões em desinvestimentos e recebeu um aporte de capital de R$ 10,3 bilhões. Os recursos foram utilizados principalmente para reduzir o endividamento e administrar passivos, permitindo a amortização de aproximadamente R$ 11 bilhões em dívidas.

Em março de 2026, a dívida bruta ajustada da companhia era de R$ 19,1 bilhões. A expectativa da Moody’s é que o valor recue para entre R$ 16 bilhões e R$ 17 bilhões até o fim deste ano, apoiado pelas alienações já anunciadas.

Apesar dos avanços, a agência avalia que novas reduções da dívida dependerão da realização de novos desinvestimentos. O ambiente de juros elevados e os potenciais efeitos de contágio da situação da Raízen podem pressionar valores e prazos das transações, segundo a Moody’s.

Cobertura de juros fica abaixo de 1 vez

As métricas financeiras também aparecem entre os pontos de preocupação da agência. O PROD, indicador utilizado pela Moody’s que considera os proventos líquidos de repasses aos preferencialistas, despesas administrativas, receitas financeiras e outros itens, caiu para aproximadamente R$ 1,7 bilhão em 2025, ante R$ 3 bilhões em 2024 e R$ 3,7 bilhões em 2023.

Enquanto isso, as despesas financeiras chegaram a cerca de R$ 3,6 bilhões no ano passado. Com isso, a cobertura de juros ajustada caiu para 0,5 vez, ante 0,7 vez em 2024 e 1,5 vez em 2023.

A Moody’s projeta que a cobertura permaneça abaixo de 1 vez, enquanto a alavancagem bruta ajustada, que encerrou 2025 próxima de 15 vezes, deve recuar para entre 7 e 8 vezes ao final de 2026.

Apesar das pressões, a agência aponta como fatores de mitigação a forte posição de caixa da Cosan, a capacidade demonstrada de realizar desinvestimentos e o cronograma alongado da dívida. A companhia não possui vencimentos de principal até meados de 2028 e tem prazo médio de dívida de aproximadamente seis anos.

Para a Moody’s, o rating poderá ser novamente rebaixado caso haja deterioração adicional do crédito das principais investidas, queda dos proventos recebidos, perda de flexibilidade financeira ou liquidez, ou frustração no processo de desalavancagem esperado por meio dos desinvestimentos.

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