O Senado dos Estados Unidos aprovou, nesta sexta-feira (7), a indicação de Daniel Perez para a embaixada americana no Brasil. O indicado, no entanto, ainda precisa do aval do governo brasileiro — o chamado agrément — o que, segundo análises, não deve ocorrer antes das eleições.
Para discutir os desdobramentos da decisão e seus possíveis impactos no cenário eleitoral brasileiro, Silvio Cascione, diretor da Eurasia Group no Brasil, concedeu entrevista ao CNN 360°.
Cascione avaliou que a política externa não é um fator decisivo para as eleições no Brasil, mas tampouco pode ser ignorada. “A política externa não importa muito para a eleição. Não é um fator decisivo. Agora, dizer que não importa nada também seria um exagero”, afirmou.
Como exemplo, ele citou a cautela do governo e do PT (Partido dos Trabalhadores) ao lidar com o tema da Venezuela nos últimos anos, justamente por causa da repercussão interna que o assunto provoca.
Segundo o analista, temas como segurança pública, corrupção e economia são os que de fato levam o eleitor a tomar sua decisão de voto. Ainda assim, a política externa pode reforçar alinhamentos ideológicos e mobilizar bases tanto da direita quanto da esquerda.
“Esse tema de política externa, além de reforçar alguns alinhamentos ideológicos, mobiliza a base da direita, mobiliza a base da esquerda, e também serve para realçar ou enfraquecer atributos dos candidatos”, disse Cascione.
Lula, soberania e a disputa com os EUA
Na avaliação de Cascione, abordar o tema da relação com os Estados Unidos pode ser estratégico para Lula (PT) na campanha. Ao atribuir o desgaste diplomático ao adversário político, o governo tenta valorizar atributos como experiência e defesa da soberania nacional.
“Para o Lula, falar desse tema, falar da briga com os Estados Unidos — uma briga que o governo insiste foi provocada pelo Bolsonaro — é uma tentativa de realçar atributos que ele quer valorizar”, explicou o analista.
Sobre a declaração de Lula de que deseja ligar para Donald Trump para tratar da conjuntura internacional, Cascione interpretou o gesto como um sinal de moderação. “Quando você sinaliza que quer pegar o telefone e conversar com outro presidente para tentar aparar essas arestas, é um sinal de que a gente não vai ter essa escalada saindo do controle”, disse.
Ele ponderou, porém, que o momento e o resultado dessa conversa ainda estão em aberto e podem tanto beneficiar quanto prejudicar a campanha do governo, a depender das circunstâncias.
Associação com Trump e o cenário eleitoral
Ao ser questionado sobre como as políticas de Donald Trump podem impactar a eleição brasileira, Cascione foi direto: “Essa associação com o Trump hoje é negativa no Brasil. Não é uma unanimidade, mas a maioria do eleitorado tende a ver com maus olhos o governo Trump e as suas políticas.”
Por isso, na visão do Cascione, usar símbolos de apoio ao movimento MAGA durante a campanha não traria benefícios eleitorais a nenhum candidato.
Ao comentar informações de que Tarcísio de Freitas (Republicanos) não repetiria o gesto de usar um boné MAGA, Cascione afirmou que, embora tal atitude não fosse suficiente para fazê-lo perder a eleição — dado seu nível confortável de aprovação —, tampouco traria qualquer ganho.
“Não vai aumentar a sua popularidade, nem aumentar a sua margem, nem facilitar a eleição dos seus deputados, dos seus senadores”, concluiu.