O empresário Magno Alves, conhecido como “rei da babosa” no Brasil, prepara uma nova etapa para expandir o uso de aloe vera no agronegócio. Depois de quase duas décadas desenvolvendo um biofertilizante à base do extrato da planta, ele fechou uma parceria com a Bunge para comercializar o produto por meio de operações de CPR (Cédula de Produto Rural), modelo que deve facilitar o acesso dos produtores e reduzir custos de comercialização.
A estratégia ocorre em um momento em que cresce a busca por bioinsumos capazes de aumentar a resiliência das lavouras diante das mudanças climáticas e da maior pressão por sistemas de produção mais sustentáveis.
Hoje, a empresa Aloe Fértil Brasil produz fertilizantes e bioestimulantes certificados como orgânicos a partir do gel da babosa. Segundo Alves, os produtos já são utilizados em aproximadamente 2 milhões de hectares, em culturas como soja, milho, arroz, feijão, café e hortaliças.
Além da parceria com a Bunge, a empresa também conta com a Manuchar, distribuidora presente em cerca de 150 países, para levar os produtos ao mercado internacional, inicialmente voltado às cadeias de fertilizantes, micronutrientes e defensivos para culturas como café, citros, tomate e fruticultura.
“O produtor hoje faz muitos insumos dentro da própria fazenda. A babosa passou a ser uma matéria-prima importante nesse processo”, afirmou.
Nova pesquisa reforça potencial contra seca
Além da expansão comercial, Alves afirma ter recebido nesta semana os resultados de uma pesquisa realizada por um centro de pesquisa no Pará indicando que a babosa melhora o aproveitamento da água pelas plantas, característica que pode aumentar a tolerância ao estresse hídrico.
Segundo ele, os testes apontam ganhos médios de produtividade próximos de 10%, com custo estimado de R$ 90 por hectare para aplicação do produto.
Os resultados se somam aos estudos conduzidos pela Embrapa Soja entre 2022 e 2025. Nos experimentos coordenados pelo pesquisador Adonis Moreira, lavouras de soja submetidas à seca apresentaram incremento médio de até 14% na produtividade quando receberam o extrato de babosa. Em anos de condições climáticas mais favoráveis, os ganhos ficaram em torno de 5%. No milho, os aumentos variaram entre 4% e 9%, dependendo da safra.
Segundo Moreira, o extrato de babosa deve ser visto como um bioinsumo promissor, mas os efeitos não são constantes entre anos, culturas e condições climáticas. O pesquisador afirma que o composto pode aumentar a tolerância das plantas ao calor e ao estresse térmico, funcionando como uma espécie de proteção adicional para as lavouras.
Da indústria da beleza para a agricultura
A trajetória da empresa começou de forma bem diferente. Alves iniciou o cultivo da aloe vera motivado pela tentativa de ajudar uma tia em tratamento contra câncer, que pretendia utilizar a planta para minimizar a queda de cabelo durante a quimioterapia.
Na época, o objetivo era abastecer as indústrias de cosméticos e farmacêutica. O plano, porém, não avançou.
“Eu vendi no ano passado 145 mil litros do meu bioestimulante. Para cosméticos? Nenhum. Eles não compram. Meu cliente hoje é o produtor rural”, contou.
A mudança de rumo ocorreu após Alves adquirir os direitos de uma tecnologia desenvolvida originalmente para agricultura orgânica, baseada nas propriedades da aloe vera. Desde então, ele concentrou os investimentos no desenvolvimento de bioinsumos.
Mercado em expansão
A empresa cultiva atualmente cerca de 1 milhão de pés de aloe vera distribuídos entre São Paulo, Minas Gerais, Pará, Paraguai e Bolívia, ocupando aproximadamente 35 hectares.
Somente em Santa Cruz do Rio Pardo (SP), onde fica a principal fazenda da empresa, são 18 hectares — a maior plantação comercial de aloe vera do país. A produtividade chega a cerca de 200 toneladas por hectare, o equivalente a aproximadamente 10 quilos de gel por planta ao ano.
Além de abastecer a própria fábrica, o gel também é fornecido para empresas que utilizam a matéria-prima na produção de medicamentos e outros derivados.
Todo o sistema de produção, do cultivo da babosa à fabricação dos bioinsumos, possui certificação orgânica.
Segundo Alves, a empresa faturou cerca de R$ 100 milhões e pretende ampliar a presença no mercado agrícola aproveitando o crescimento da demanda por bioinsumos.
Ele afirma ainda que estudos internacionais indicam possibilidade de escassez global de aloe vera até o fim da década, impulsionada pelo aumento do consumo da planta nas indústrias de alimentos, cosméticos e saúde.