A endometriose é frequentemente associada à cólica menstrual intensa, mas a doença pode provocar dores em diferentes regiões do corpo, como lombar, quadril, virilha e pernas, além de desconforto durante as relações sexuais, ao evacuar ou ao urinar.
Para explicar de forma mais simples por que isso acontece, o ginecologista especializado em endometriose profunda e cirurgia minimamente invasiva, Dr. Igor Chiminacio, desenvolveu a chamada “Teoria do Polvo”, um modelo visual que relaciona a anatomia da pelve feminina aos mecanismos de propagação da dor.
Segundo o autor, a proposta não cria uma nova doença nem substitui os conhecimentos já consolidados sobre a endometriose, mas traduz conceitos anatômicos complexos em uma linguagem mais acessível para pacientes e profissionais da saúde.
De acordo com o médico, a teoria pode contribuir para que mulheres reconheçam sinais da doença mais precocemente e consigam descrever melhor seus sintomas durante a avaliação médica, favorecendo o raciocínio clínico.
O conceito foi apresentado no Congresso Global da AAGL (American Association of Gynecologic Laparoscopists), realizado em Vancouver, no Canadá, e publicado no “Journal of Minimally Invasive Gynecology”.
Como funciona a “Teoria do Polvo”
O modelo utiliza a anatomia da pelve feminina como uma metáfora visual. Nele, o útero representa a “cabeça” de um polvo, enquanto os tecidos responsáveis por sustentá-lo — conhecidos como paramétrios — são comparados aos tentáculos. Segundo Chiminacio, esses tecidos de sustentação são ricos em vasos sanguíneos, nervos e fibras de colágeno e frequentemente são acometidos pela endometriose.
“Dessa forma, o problema não estaria restrito apenas aos focos visíveis da doença. Quando essas estruturas profundas são afetadas pela inflamação e pela fibrose, a dor pode irradiar para diferentes regiões da pelve e até dos membros inferiores”, explica o especialista.
Na prática, a proposta busca ilustrar por que mulheres com endometriose podem apresentar sintomas aparentemente desconectados da região uterina.

Dor pode ir muito além da menstruação
Um dos principais objetivos da teoria é ampliar a compreensão de que a endometriose não provoca apenas cólicas menstruais.
Entre os sintomas que podem estar relacionados à doença estão:
- cólicas menstruais intensas ou incapacitantes;
- dor pélvica persistente;
- dor durante as relações sexuais;
- dor ao evacuar ou urinar, principalmente durante o período menstrual;
- dores na lombar, quadril, virilha e pernas relacionadas ao ciclo menstrual;
- dificuldade para engravidar.
Segundo o médico, muitas pacientes procuram inicialmente ortopedistas, neurologistas, urologistas ou gastroenterologistas antes que a possibilidade de endometriose seja considerada, justamente porque os sintomas podem se manifestar em diferentes partes do corpo.
Diagnóstico ainda demora anos
A endometriose é considerada uma das doenças ginecológicas mais subdiagnosticadas. Estimativas apontam que ela afeta cerca de uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva.
Apesar da elevada prevalência, o diagnóstico costuma demorar entre oito e dez anos após o início dos sintomas. Nesse intervalo, muitas mulheres passam por diversos especialistas, realizam inúmeros exames e, frequentemente, têm suas dores atribuídas apenas ao ciclo menstrual.
Segundo Chiminacio, parte dessa demora ocorre porque a investigação costuma se concentrar nas lesões visíveis da doença, enquanto alterações nos tecidos profundos podem explicar sintomas mais amplos e irradiados.
Para o especialista, compreender o funcionamento conjunto dessas estruturas anatômicas pode facilitar tanto a comunicação entre médico e paciente quanto a individualização do tratamento.
Ferramenta para pacientes e profissionais
Além do atendimento clínico, a Teoria do Polvo também vem sendo utilizada em apresentações científicas e atividades de ensino voltadas a profissionais da saúde.
A proposta busca reforçar a importância de uma avaliação abrangente da anatomia da pelve durante a investigação da endometriose, considerando não apenas os focos superficiais da doença, mas também o comprometimento dos tecidos de sustentação e sua relação com nervos e outras estruturas.
Segundo o autor, quando a paciente compreende a origem da dor, consegue relatar seus sintomas com mais precisão, o que pode contribuir para um diagnóstico mais precoce.
Quando procurar avaliação médica
Especialistas recomendam que mulheres procurem avaliação ginecológica quando apresentarem sintomas persistentes ou incapacitantes relacionados ao ciclo menstrual, especialmente se houver:
- cólicas intensas que interferem nas atividades diárias;
- dor durante as relações sexuais;
- dor ao evacuar ou urinar durante a menstruação;
- dores recorrentes na lombar, quadril, virilha ou pernas associadas ao período menstrual;
- dor pélvica crônica;
- dificuldade para engravidar.
O diagnóstico precoce é considerado um dos principais fatores para reduzir o impacto da doença na qualidade de vida e preservar a fertilidade, permitindo o início do tratamento mais adequado para cada caso.