A startup brasileira Pax levantou cerca de R$ 200 milhões, ou US$ 40 milhões, em uma rodada seed (primeira etapa formal para captar recursos) liderada pelos fundos Greenoaks e Benchmark, considerada uma das maiores já realizadas nesse estágio na América Latina.
A empresa desenvolve uma plataforma de IA (inteligência artificial) voltada às forças de segurança pública e pretende usar os recursos para ampliar sua atuação no Brasil.
A captação ocorre em um momento de maior seletividade no mercado de venture capital, mas, para Fernando Czapski, cofundador da Pax, o tamanho do aporte reflete a dimensão do problema que a empresa busca enfrentar.
“A inteligência artificial é uma tecnologia poderosa e deveria ser usada para nos ajudar a resolver os grandes problemas da humanidade. No Brasil, segurança pública é o maior deles”, afirmou em entrevista ao CNN Money.
Segundo Czapski, os investidores apostaram na combinação entre a missão da empresa e a capacidade técnica do time.
“Os investidores entenderam o tamanho desta missão, combinada com a qualidade dos engenheiros brasileiros que fazem parte da Pax, muitos voltando ao Brasil depois de passarem por empresas como Google, Meta e Uber. O investimento foi expressivo porque o impacto é gigante e, onde existe impacto desse tamanho, também há uma grande oportunidade de negócio”, afirmou.
Em sua primeira implantação em larga escala, realizada em Luziânia (GO), a plataforma esteve associada à redução de 27% dos crimes prioritários, como homicídios, roubos e furtos, em seis meses.
No mesmo período, a taxa de elucidação de crimes dobrou e a sensação de segurança da população aumentou 59%, segundo levantamento citado pela empresa.
Ao longo do último ano, as forças de segurança que utilizam a tecnologia da Pax esclareceram mais de 2 mil casos criminais em mais de 30 cidades brasileiras, entre homicídios, roubos à mão armada e furtos de veículos, segundo a empresa.
“Se existem 10 milhões de crimes por ano no Brasil e nós conseguirmos reduzi-los em 27%, como aconteceu em Luziânia, seriam 2,7 milhões de crimes a menos. É um impacto massivo que pode ser alcançado”, disse o executivo.
A plataforma integra câmeras, registros policiais e bases criminais em um único sistema de inteligência. Utilizando IA, a tecnologia cruza informações sobre pessoas, veículos, locais e ocorrências para gerar alertas e pistas investigativas em tempo real.
“Hoje, as forças de segurança ainda trabalham com dados fragmentados, sistemas pouco integrados e uma infraestrutura tecnológica que não acompanha a complexidade da investigação. A Pax nasceu justamente para atacar esse gargalo: conectar informações do mundo real e torná-las úteis em tempo real para apoiar o trabalho policial. É o ChatGPT da polícia”, afirmou Czapski.
A empresa trabalha com governos estaduais e municipais e afirma que o crescimento dependerá da capacidade de gerar resultados concretos em cada nova implementação.
“A Pax não nasceu para crescer a qualquer custo. Nasceu para ajudar forças de segurança a resolverem casos mais rápido e reduzirem crimes com apoio de inteligência artificial. Crescer de forma sustentável significa fazer bem feito em cada implantação e trazer resultados claros”, disse.
Segundo dados citados pela empresa, o custo total do crime e da violência no Brasil equivale a cerca de 6% do PIB (Produto Interno Bruto), ou mais de R$ 760 bilhões por ano, de acordo com o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
Para Czapski, a principal oportunidade no setor está na integração de dados. “O processo de investigação policial é, acima de tudo, um problema de análise de dados e organização da informação. A IA é a tecnologia perfeita para resolver isso.”
A startup, fundada por David Peixoto, ex-executivo da Arco e cofundador da isaac, reúne profissionais formados em instituições como Stanford, Harvard, MIT, ITA e USP, além de ex-funcionários de empresas globais de tecnologia.
Sem divulgar metas financeiras para os próximos anos, a empresa afirma que pretende ampliar sua presença no país e, futuramente, levar a tecnologia para outros mercados.
“Queremos ser a melhor empresa de IA para segurança pública do mundo. Se conseguirmos ajudar a resolver o problema de segurança pública no Brasil, conseguiremos escalar essa tecnologia para qualquer lugar do mundo”, concluiu o cofundador.