Análise: Trump diz que guerra com o Irã acabou

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou, nesta quinta-feira (11), que os EUA “encerraram a guerra com o Irã”, após afirmar ter obtido um compromisso de que Teerã nunca desenvolverá uma arma nuclear.

A declaração, no entanto, foi imediatamente contestada por representantes iranianos, que negaram qualquer resolução definitiva e reafirmaram que qualquer tratado deverá incluir o Líbano entre suas cláusulas.

Cerca de cinco horas separaram uma ameaça de Trump de tomar o controle da Ilha de Kharg da publicação em que o presidente anunciava a suspensão de ataques programados, alegando ter alcançado algum entendimento com o Irã nas negociações em curso.

O memorando de entendimento

Estados Unidos e Irã caminham em direção a um memorando de entendimento estruturado em duas etapas. A primeira prevê o desbloqueio do tráfego no Estreito de Ormuz em até 30 dias. A segunda estabeleceria uma janela de 60 dias para discussões sobre um novo acordo nuclear, ainda sob premissas e compromissos desconhecidos.

Trump chegou a afirmar que o memorando poderia ser assinado no próximo final de semana, com a participação do vice-presidente americano, JD Vance, na Europa. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, porém, ressaltou que o país ainda não havia tomado uma decisão final.

O pesquisador e professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) Vitélio Brustolin observou que o conteúdo divulgado sobre o memorando pelos portais Axios e Al Jazeera é muito semelhante à proposta apresentada pelo Paquistão em abril, que Trump havia chamado de “totalmente inaceitável“.

Para Brustolin, o que se vislumbra é, na prática, uma extensão da pausa já existente no conflito. “Parece uma pausa maior, uma extensão da pausa aqui”, afirmou.

O especialista alertou ainda que, caso Trump declare oficialmente o fim da guerra, será muito difícil retomar uma ofensiva caso o Irã não cumpra os termos negociados — especialmente no que diz respeito à entrega do urânio enriquecido.

Os pontos de impasse

O pesquisador de Harvard e professor de Relações Internacionais da USP (Universidade de São Paulo) Hussein Kalout delineou os principais obstáculos às negociações. Segundo ele, o Irã não aceita negociar o abandono do seu programa de mísseis balísticos, que considera um escudo de defesa convencional.

Também resiste a cessar o financiamento e o armamento de grupos armados na região, vistos como uma extensão do seu poderio bélico. Por fim, os iranianos exigem contrapartidas concretas: o desbloqueio de parte dos cerca de US$ 100 bilhões retidos pelos Estados Unidos como condição para abrir mão do urânio enriquecido a 60%.

“O avanço do acordo depende de todas essas variáveis. O que houve entre as partes é a intenção de discutir essas variáveis. Agora, a profundidade delas e o compromisso em torno delas ainda está em processo de evolução”, declarou Kalout.

Pressões internas e o papel de Israel

Trump enfrenta pressões domésticas significativas. Uma pesquisa divulgada recentemente aponta que 81% dos norte-americanos são contrários à forma como ele tem conduzido o conflito, e apenas 27% da população apoia a guerra, segundo Vitelio Brustolin.

Desde o início das hostilidades, o preço do galão de gasolina subiu cerca de 50% nos postos americanos, e a inflação atingiu 4,20% — a maior dos últimos três anos. As eleições legislativas de novembro, que definirão o controle da Câmara e do Senado, pressionam o republicano a apresentar uma resolução célere.

Senadores como Lindsey Graham, Ted Cruz, Roger Wicker e Mitch McConnell já criticaram publicamente as negociações, comparando-as ao acordo firmado durante o governo de Barack Obama — que os republicanos sempre repudiaram.

No que diz respeito a Israel, Brustolin destacou que o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, precisa se manter no poder diante de quatro acusações de corrupção internas, de uma possível responsabilização pelos ataques de 7 de outubro de 2023 e de uma ordem de prisão do Tribunal Penal Internacional.

“Israel está fazendo a vontade específica do Netanyahu, que não necessariamente é o interesse de Israel”, afirmou. Netanyahu condiciona a retirada do sul do Líbano ao desarmamento do Hezbollah — condição que o grupo armado recusa, mesmo sob pressão do próprio governo libanês.

Kalout concluiu que Trump teme, acima de tudo, chegar a um acordo que, no contexto interno americano, seja percebido como semelhante ao tratado firmado pelo governo Obama.

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