Análise: Brasil precisa se adaptar na disputa entre grandes potências

As potências se ajustam, o mundo assiste. E o Brasil precisa se adaptar.

Neste mês, houve o grande encontro de cúpula entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder da China, Xi Jinping. Na semana passada, foi a vez do russo Vladimir Putin visitar o território chinês.

Com os americanos, a cúpula resultou em um empate, um equilíbrio entre as duas maiores potências do mundo. Ambos destravaram algumas pautas, mas não tiveram grandes avanços na agenda bilateral. Isso ficará para outros encontros. Mas o resultado principal para Xi foi alcançado: certa estabilidade e previsibilidade nas relações entre Washington e Pequim.

Já a reunião entre Xi e Putin teve um caráter mais político e estratégico. 

Ela reforçou o laço entre eles e demonstrou uma contestação cada vez maior à hegemonia americana, com o pleito por um mundo mais multipolar, mais equilibrado. Do ponto de vista da cooperação bilateral, muitos acordos assinados, cerca de 40, em educação, em pesquisa, em ciência e em tecnologia.

No entanto, a China não quis realizar o investimento em um grande gasoduto que passaria pela Sibéria – o fator mais importante para a Rússia. Essa postura demonstra a maneira como a China lida com seus parceiros: procurando equilibrar as transações, ter estabilidade, mas mantendo a predominância e o controle nas relações.

Foi o que Xi Jinping fez com Putin. E é o que ele quer fazer com o Brasil.

O Brasil é um grande fornecedor de produtos agrícolas para a China, mas é também um grande importador de fertilizantes e de manufaturados. O país também tem no mercado chinês o seu principal consumidor atual e, por isso, precisa entender o jogo de Pequim.

Diante disso, é importante para os brasileiros expandirem mercados, abrirem outros parceiros e, especialmente, prestarem atenção nos vínculos com os Estados Unidos e Rússia.

O Brasil precisa ajustar com muita sensibilidade as suas relações com essas grandes potências, porque elas se ajeitam entre si.

A ideia de uma estabilidade com tensionamentos é o que vai caracterizar o mundo atual e o futuro próximo. O Brasil precisa se adaptar a isso.

*Alberto Pfeifer é coordenador-geral do grupo de Defesa, Segurança e Inteligência da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisador de geopolítica do Insper Agro Global. Foi diretor de projetos especiais e diretor de assuntos internacionais estratégicos da Presidência da República. Este texto foi transcrito em primeira pessoa de análise em vídeo para o WW.

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