A polêmica envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro está impactando diretamente as intenções de voto para as eleições deste ano. É o que aponta a pesquisa AtlasIntel divulgada nesta terça-feira (19) e analisada pelo cientista político Alberto Carlos Almeida em entrevista ao Hora H. Segundo o especialista, o noticiário negativo gerou uma queda nas intenções de voto em Flávio Bolsonaro, ampliando o grupo de eleitores sem candidato definido.
Queda de Flávio Bolsonaro e eleitores indecisos
Alberto Carlos Almeida avaliou que os dados da pesquisa confirmam o que já era esperado. “Ele teve, desde a semana passada até hoje, um noticiário francamente desfavorável, um noticiário negativo. A mídia tem efeito sobre isso”, afirmou.
Para o especialista, um grupo de eleitores passou a não declarar voto em Flávio Bolsonaro durante esse período de cobertura negativa, embora isso não signifique necessariamente uma mudança permanente.
Almeida destacou um dado relevante revelado pela pesquisa: os eleitores que deixaram de declarar voto em Flávio Bolsonaro não migraram para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “A candidatura de Flávio cai e aumenta nulo, branco, indeciso. Eles não foram para Lula, isso é um fato”, disse.
Na avaliação do especialista, esses eleitores estariam, provavelmente, aguardando o fim da turbulência para, possivelmente, retornar ao candidato. “Depois que passar toda essa tempestade, todo esse maremoto, aí eles voltam para Flávio”, analisou.
Lula estagnado e possibilidade de vitória no primeiro turno
Questionado sobre a estagnação de Lula nas pesquisas e a possibilidade de uma vitória já no primeiro turno, Almeida ponderou que esse cenário é possível, mas improvável diante do atual quadro eleitoral. “É claro que pode acontecer uma vitória em primeiro turno, ela só aconteceu duas vezes, nas duas vitórias de Fernando Henrique Cardoso”, recordou.
O especialista argumentou que a presença de múltiplos candidatos, incluindo nomes como Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), torna matematicamente difícil uma definição já na primeira rodada. “Se a distância for pequena, candidatos nanicos dificilmente permitiriam uma decisão em primeiro turno”, explicou.
Almeida também comentou o crescimento de Renan Santos nas pesquisas, descrevendo-o como um fenômeno típico das redes sociais. “Ele simplesmente entra nas redes sociais, começa a falar coisas que chamam muita atenção e daí obtém votos. É uma nova realidade que a gente vive”, observou.
O especialista contrastou esse perfil com o de Caiado, descrito como alguém do sistema político tradicional, e com o de Zema, que acumulou experiência após anos à frente do governo de Minas Gerais.
Dados de rejeição e medo dos candidatos
A pesquisa AtlasIntel também mediu o índice de rejeição dos candidatos. Flávio Bolsonaro lidera com 52% de rejeição, seguido de Lula com 50,6%, o ex-presidente Jair Bolsonaro com 49,1% — em cenário hipotético, já que não concorrerá — e Michelle Bolsonaro com 45,6%. Romeu Zema registrou 42,2% de rejeição, enquanto Renan Santos apresentou a menor rejeição entre os nomes avaliados, com menos de 38%.
Além disso, 47,4% dos entrevistados afirmaram temer a eleição de Flávio Bolsonaro, ante 40,5% que temem a reeleição de Lula.
PL aciona TSE contra pesquisa AtlasIntel
O PL acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pedindo a suspensão da divulgação da pesquisa AtlasIntel. O partido alega que o questionário direciona negativamente os entrevistados contra Flávio Bolsonaro ao incluir a exibição do áudio da conversa com Daniel Vorcaro.
Segundo os advogados do partido, das 48 perguntas feitas, oito tratam do suposto envolvimento de Flávio com o dono do Master, o que foi classificado como “claro induzimento”. O PL também solicita a aplicação de multa por supostas irregularidades, e em nota, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro pediu a apuração de possível prática de crime eleitoral.
Em nota, o Instituto AtlasIntel afirmou que ainda não foi notificado oficialmente, mas manifestou “plena tranquilidade” diante das acusações. O instituto esclareceu que os entrevistados responderam se já tinham conhecimento ou não do áudio — sem que ele fosse reproduzido durante a coleta dos dados principais — e declarou estar à disposição do TSE para prestar esclarecimentos sobre a metodologia aplicada.
Ataques à credibilidade das pesquisas
Para Alberto Carlos Almeida, a ação do PL faz parte do jogo político e representa um risco para a credibilidade das pesquisas eleitorais. “Você começa a atacar a credibilidade das pesquisas, então as pesquisas são partidarizadas”, alertou.
O especialista recordou que esse tipo de estratégia já foi utilizado na eleição anterior e pode levar à divisão das empresas de pesquisa em “petistas” e “bolsonaristas” na percepção do público. “Metodologicamente, todo mundo que está aí sabe fazer pesquisa e, a princípio, ninguém tem má-fé”, concluiu Almeida, ressaltando que os resultados podem ser analisados, confrontados e até questionados metodologicamente, mas não simplesmente descartados como errados.