Cientistas do projeto europeu Beyond EPICA (Projeto Europeu de Perfuração de Gelo na Antártida, em tradução livre do inglês) anunciaram a extração de um núcleo de gelo com cerca de 1,2 milhão de anos na Antártica, o registro contínuo de gelo mais antigo já analisado com esse nível de detalhe.
O material foi obtido após uma década de trabalho e quase três quilômetros de perfuração, em uma região remota. Os pesquisadores encontraram bolhas de ar preservadas, capazes de mostrar como era a composição da atmosfera terrestre há mais de 1 milhão de anos.
Os primeiros resultados, apresentados na assembleia da União Europeia de Geociências, revelam variações importantes nos níveis de dióxido de carbono em um período decisivo da história climática do planeta.
Segundo os pesquisadores, há cerca de 950 mil anos, no fim de um período interglacial, a concentração de CO2 aumentou cerca de 50 partes por milhão em poucos milhares de anos, um intervalo considerado muito curto em escala geológica.
Depois desse pico, os níveis caíram para 170 partes por milhão, a menor concentração já registrada em um núcleo contínuo de gelo. Atualmente, a concentração atmosférica está acima de 420 ppm.
Os dados podem ajudar a explicar a chamada Transição do Pleistoceno Médio, período em que os ciclos glaciais da Terra deixaram de ocorrer a cada 40 mil anos e passaram a durar cerca de 100 mil anos.
“É realmente importante. Esses núcleos de gelo remontam a um período suficientemente longo para permitir observar mudanças nos padrões climáticos da Terra”, afirmou Edward Brook.
Os cientistas agora tentam entender se essa mudança brusca no dióxido de carbono foi o gatilho direto para a mudança no ritmo das eras glaciais ou parte de um processo climático mais longo.