Guerra com Irã expõe vulnerabilidade do país em refino e fertilizantes

Ao interromper o fluxo comercial das petroleiras pelo Estreito de Ormuz, a guerra no Oriente Médio expõe economias que dependem do petróleo que passa por lá.

O impacto imediato foi visto no mercado financeiro: a cotação do barril Brent – referência internacional – disparou 27,2% na primeira semana do conflito dos Estados Unidos e de Israel com o Irã, fechando na sexta-feira (6) aos US$ 92,69.

 

 

Especialistas ressaltam que todo importador de petróleo e de seus derivados está exposto ao conflito. E esse é o caso do Brasil.

Vulnerabilidade em refino de combustíveis

Quando o assunto é o petróleo em si, o país está bem. O Brasil está entre os 10 maiores produtores do mundo e tem a commodity como sua maior exportação.

 

 

“Vale ressaltar também que o petróleo nacional é estratégico por ter baixo teor de enxofre e baixa emissão de carbono e no cenário atual o Brasil se apresenta como um fornecedor seguro e confiável em um ambiente de negócios estável”, segundo Roberto Ardenghy, presidente do IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis).

Mas apesar de o país ser um grande produtor e exportador de petróleo, a produção de combustíveis derivados no país não atende a demanda nacional.

Com 18 refinarias, o Brasil possui o nono maior parque de refino do mundo, uma capacidade instalada de cerca de 2,4 milhões de bpd (barris por dia) e processamento real em torno de 2 milhões, segundo dados do IBP.

“A capacidade das refinarias instaladas no Brasil atendem aproximadamente 70% da demanda de diesel e 85% da demanda de gasolina. Portanto, o Brasil não é autossuficiente e se faz necessário importar volumes equivalentes a 30% da demanda de diesel e 10% a 15% da demanda de gasolina”, afirma Sergio Araujo, presidente-executivo da Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis).

Isabela Garcia, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, ressalta que “há, portanto, uma vulnerabilidade”. E desde o início do conflito, ela tem ficado mais evidente.

“Os spreads de refino do diesel e da gasolina subiram 30% e 29%, respectivamente. Consequentemente, os preços de paridade de importação e exportação (IPP) da gasolina e do diesel aumentaram acentuadamente, deixando o IPP 18% acima dos preços domésticos da gasolina e 23% acima dos preços domésticos do diesel”, aponta a equipe de análise O&G (Oil & Gas) do Itaú BBA em relatório.

Petrobras

Da capacidade atual de 2,4 milhões de bpd apontada pelo IBP, a Petrobras representa 1,8 milhão bpd, ou 75% do total, segundo informação de seu plano quinquenal de negócios.

Ao longo dos próximos anos, até 2030, a petroleira prevê destinar US$ 15,8 bilhões em investimentos na carteira para o segmento de “Refino, Transporte, Comercialização, Petroquímica e Fertilizantes”.

A companhia mira expandir e modernizar seu parque de refino, “visando à produção de combustíveis de alta qualidade e de baixo carbono”, segundo o PN 2026-30 (Plano de Negócios 2026-2030). A expectativa é de expandir a capacidade instalada de processamento a 2,1 milhões bpd.

“Além disso, até o fim do quinquênio do PN 2026-30, o perfil da produção também será aprimorado, com maior participação de produtos de alto valor agregado. A produção do diesel passará de 40% para 45% do total, com redução do teor de enxofre e melhoria da qualidade”, promete a companhia.

Em seu balanço financeiro de 2025, a Petrobras informou ter atingido um fator de utilização de 91% em suas refinarias, com 68% da produção composta por derivados de maior valor agregado, como diesel, gasolina e QAV (querosene de aviação).

Ainda assim, combustíveis foram os produtos mais importados pelo país em 2025, segundo dados do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços).

 

 

“Os investimentos no parque de refino e na capacidade de processamento não acompanharam o crescimento da oferta de petróleo, gerando um descompasso no balanço doméstico”, conclui Garcia.

Exposição à guerra

“O Brasil é vulnerável sim a um contexto de guerra, no sentido dos derivados. Nós somos importadores. Em particular de diesel, é o que mais importamos, entre 25% e 30%. O nosso problema é que somos exportadores de petróleo e importadores de derivados”, diz Adriano Pires, diretor do CBIE (Centro Brasileiro de Infra Estrutura).

“Nossas refinarias não tem capacidade para refinar todo o produto que consumimos. Temos poucos investimentos em refinos nos últimos anos”, enfatiza.

Os especialistas ressaltam, porém, que o perigo está se o conflito se estender.

“Para o curto prazo tem estoque, um monte de coisa que dá para segurar. Mas se isso se estende por mais tempo, aí a situação fica mais complicada. O mercado tenta se antever. Mas as coisas acredito que voltem ao normal [antes disso]”, pondera Eberaldo de Almeida Neto, ex-diretor da Petrobras, ex-presidente do IBP e conselheiro em consultorias de mercado.

Ele ressalta que maior parte do combustível que o país importa não passa diretamente pelo Estreito de Ormuz, via marítima nas águas iranianas, por onde passa cerca de 20% da demanda mundial de petróleo. Porém, países que o Brasil importa combustíveis, como a Índia, dependem desse óleo.

 

 

“Minha preocupação é que a Índia tem um grande consumo de petróleo que vem do Golfo Pérsico, que passa pelo Estreito de Ormuz. [A Índia] importa muito [petróleo], mas tem muita capacidade de refino. [Se o conflito se estender e impactar a cadeia de comércio] o Brasil teria que se virar e poderia ter aperto no diesel”, pontua Eberaldo.

Em nota, a Petrobras destaca que seus fluxos de importação são “majoritariamente fora da região de crise e as poucas rotas que existem podem ser redirecionadas”.

“A Petrobras reforça que não há risco de interrupção das importações e exportações no momento”, enfatiza a estatal em nota.

A petroleira reforça ainda que sua nova política de preços – que colocou fim à paridade internacional – visa proteger o mercado de volatilidades externas.

“A Petrobras monitora diariamente os fundamentos do mercado internacional e seus possíveis desdobramentos para o mercado brasileiro, tendo como premissas a prática de preços competitivos com as principais alternativas de suprimento e o não repasse da volatilidade externa para os preços internos”, diz a nota da companhia.

“Dessa forma, considerando as nossas melhores condições de refino e logística, proporcionamos períodos de estabilidade de preços para os nossos clientes evitando a prática de reajustes diários, para cima e para baixo, adotada no passado. Essa prática é especialmente importante em momentos de alta volatilidade, como o que vivemos agora”, conclui.

Sergio Araujo, da Abicom, ressalta, porém, que “se o conflito durar mais alguns dias sustentando os elevados preços dos combustíveis e a Petrobras não alinhar os seus preços à ‘paridade de importação’, poderá haver redução dos estoques e risco de desabastecimentos pontuais”.

Fertilizantes

Outra vulnerabilidade que o país fica exposto com a guerra são os fertilizantes. Em 2025, de acordo com o Mdic, o Brasil importou US$ 66,8 milhões em fertilizantes do Irã.

Só entre os meses de janeiro e fevereiro, já foram importados R$ 21,6 milhões em fertilizantes do Irã, quase um terço de tudo que foi importado em 12 meses no ano anterior e uma alta de 9.720,8% em comparação com o mesmo período de 2025.

A fatia é de 1,2% de todo o grupo de “adubos ou fertilizantes químicos (exceto fertilizantes brutos)” comprados pelo país neste ano, contudo, o efeito na economia é algo a se ficar atento, segundo economistas ouvidos pelo CNN Money.

Como um todo, o produto é o terceiro mais importado pelo Brasil neste ano, segundo os números do Ministério. E o fluxo na região dita grande parte da produção e da logística mundial de fertilizantes, o que, por sua vez, pode ditar o preço do insumo.

E de tudo que importamos do Irã, o adubo representa 90,4% das compras brasileiras.

O Brasil produz em torno de 15% do consumo de quase 50 milhões de toneladas de fertilizante.

“Atualmente, o Brasil está mais vulnerável a fertilizantes. Importamos 80% dos fertilizantes consumidos pelo agronegócio. Agora mesmo, a questão da uréia a gente importa 30% do Irã, então isso é um problema que o Brasil tem. Para ter fertilizante, precisa de gás natural barato e o gás no Brasil é caro, por conta do monopólio da Petrobras”, afirma Pires.

Em coletiva de imprensa nesta sexta sobre o balanço financeiro de 2025, Claudio Schlosser, diretor de comercialização e logística da Petrobras, afirmou que a companhia projeta chegar até 2030 produzindo o equivalente a 40% da demanda nacional de uréia.

Solução

Os especialistas ouvidos pela reportagem apontam quatro caminhos que o país precisa avançar para melhorar as condições de refino de combustíveis e produção de fertilizantes.

Como a produção de fertilizantes demanda o uso de gás, e o insumo é importado a preços caros no país, Eberaldo de Almeida Neto aponta a necessidade de subsídios para bancar uma atividade competitiva. Adriano Pires, do CBIE, ressalta a necessidade de políticas que promovam a compra de um gás a metade do que é comprado hoje.

Para o refino, são indicadas duas vertentes.

“O melhor que se faria é o governo sinalizar de forma clara não intervenção em preços. Isso atrai investimentos. Eu concordo que não tem que mudar o preço por questão pontual, mas ninguém investe num produto que o governo intervém no preço”, pontua o ex-diretor da Petrobras e ex-presidente do IBP.

A outra maneira de atrair capital privado, segundo Pires, é promovendo a privatização de refinarias e realizar leilões.

Com a modernização do parque, Roberto Ardenghy destaca que o Brasil pode se destacar na produção de biocombusíveis.

“O país tem diversos caminhos como a modernização de unidades existentes para aprimorar o processamento do petróleo do pré-sal. Além disso, o parque de refino brasileiro pode se posicionar fortemente no processo de transição energética com o desenvolvimento de biocombustíveis (diesel coprocessado, SAF, diesel verde), integrando a estrutura atual para reduzir a pegada de carbono e a emissão de gases de efeito estufa”, pontua.

Por fim, para manter a produção de petróleo estável no país, apontam a necessidade de se explorar novas fronteiras, uma vez que as estimativas apontam para esgotamento das reservas atuais a partir de meados de 2030.

“Além de importante, é estratégico para a garantia da segurança energética do Brasil, que o país continue aumentando suas reservas, avançando em novas fronteiras, como na Margem Equatorial, que tem potencial de 30 bilhões de barris, segundo estimativa da ANP”, conclui Ardenghy.

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