A capacidade humana de questionar, conectar ideias e construir o próprio conhecimento está sendo desafiada pela forma como interagimos com a inteligência artificial.
Embora a tecnologia tenha surgido para expandir o intelecto, um comportamento recente acende o alerta: o uso das ferramentas apenas para a execução de ordens diretas
Segundo o relatório The Anthropic Economic Index Report 1, de setembro de 2025, o índice de usuários que pedem para a IA completar tarefas inteiras com intervenção mínima saltou de 27% para 39% em menos de um ano. O dado sugere que, em vez de usarmos a IA para pensar melhor, estamos entregando a ela a própria função de pensar.
Especialistas alertam que essa terceirização cognitiva pode atrofiar o pensamento crítico. Diego Nogare, mestre e doutorando em inteligência artificial, compara o cenário ao uso de uma calculadora sem o domínio da lógica matemática.
“Se você usa apenas para obter o resultado final sem entender a fórmula, você automatiza, mas não aprende. Terceirizamos a reflexão e o pensamento crítico; estamos nos tornando meros apertadores de botão.”
Essa tendência de abdicar da autoria intelectual não apenas empobrece o raciocínio individual, mas também degrada a qualidade da informação global.
O fenômeno conhecido como “AI Slop” —enxurrada de conteúdos sintéticos sem curadoria humana— cria um ciclo onde modelos de IA são treinados por outros modelos, resultando em informações superficiais e sem profundidade analítica.
Impacto no desenvolvimento do cérebro
O risco de “derretimento” da capacidade crítica é ainda mais severo entre jovens. Ana Luisa Meirelles, educadora parental e cofundadora da Universidade de Pais, explica que a neurociência é clara: o cérebro se fortalece através do esforço cognitivo.
O córtex pré-frontal, área responsável pelo raciocínio complexo e tomada de decisão, depende de desafios para se desenvolver plenamente.
“Se a IA faz tudo, essa sinapse simplesmente não acontece. É mais ou menos como querer fortalecer um músculo sem nunca usá-lo”, afirma Ana Luisa.
Ela defende que a tecnologia deve ser uma parceira de brainstorming, e não a executora final.
Para a educadora, a habilidade de questionar o resultado da máquina, o famoso “por que isso faz sentido?”, é o que define o desenvolvimento do senso crítico.
A resposta para esse impasse não parece ser a proibição, mas o letramento digital. Ensinar os usuários a serem “diretores” da tecnologia, dominando a arte de fazer bons pedidos (prompts) e revisando criticamente cada entrega, é o que garante que a cabeça humana continue no comando.
“O futuro não é escolher entre IA ou desenvolvimento humano, mas usar a tecnologia sem perder a essência do que nos torna humanos: a criatividade e o pensamento crítico”, diz Ana Luisa.
Dicas para manter a autonomia intelectual no uso da IA:
- Processo, não produto: use a ferramenta para organizar argumentos ou sugerir rascunhos, mas escreva a versão final com suas próprias palavras;
- Validação obrigatória: nunca aceite uma resposta da IA como verdade absoluta; questione a fonte e a lógica dos dados apresentados;
- Estímulo cognitivo: para estudantes, a orientação é pedir que a IA ajude a explicar um conceito difícil, em vez de apenas entregar a lição pronta;
- Diálogo reflexivo: pergunte à ferramenta: “Quais são os pontos fracos desse argumento?” para forçar uma análise de diferentes perspectivas.