O BNP (Partido Nacionalista de Bangladesh), da oposição, venceu as eleições parlamentares nesta sexta-feira (13) com uma vitória esmagadora, retornando ao poder após quase duas décadas e posicionando o líder do partido, Tarique Rahman, para se tornar primeiro-ministro, em um momento em que o país emerge de meses de agitação e crise econômica.
Rahman, filho da ex-primeira-ministra Khaleda Zia e do ex-presidente assassinado Ziaur Rahman, enfrenta desafios imediatos para restaurar a estabilidade política, reavivar a confiança dos investidores e reconstruir setores-chave da economia — incluindo o têxtil — após a prolongada turbulência que se seguiu ao colapso do governo da ex-primeira-ministra Sheikh Hasina em 2024.
Um governo interino liderado pelo ganhador do Prêmio Nobel Muhammad Yunus está no poder desde então.
A contagem oficial, em uma votação considerada a primeira eleição verdadeiramente competitiva em anos na nação sul-asiática, deu ao BNP e seus aliados pelo menos 212 das 299 cadeiras em disputa, segundo a Comissão Eleitoral.
O partido de oposição Jamaat-e-Islami e seus aliados conquistaram 77 cadeiras no Jatiya Sangsad, ou Câmara da Nação.
Rahman, de 60 anos, ainda não se pronunciou, mesmo após mais de 12 horas da divulgação dos resultados favoráveis ao seu partido. O BNP, no entanto, pediu à população que evitasse grandes comemorações e, em vez disso, realizasse orações especiais.
Ele não falou com a imprensa reunida em frente à sua casa em Dhaka, capital do país, sorrindo e acenando de dentro do carro ao sair para uma mesquita, segundo relatos da mídia local.
“Apesar da vitória… por uma ampla margem de votos, nenhuma passeata ou comício comemorativo será organizado”, afirmou o partido em um comunicado divulgado na madrugada desta sexta-feira (13).
O NCP (Partido Nacional Cidadão), liderado por jovens ativistas que desempenharam um papel fundamental na queda de Hasina, conquistou apenas cinco das 30 cadeiras que disputou. O NCP fazia parte da aliança liderada pelo Jamaat.
Um resultado claro era considerado crucial para a estabilidade na nação de maioria muçulmana, com 175 milhões de habitantes, após meses de violentos protestos contra Hasina que interromperam a vida cotidiana e as indústrias, incluindo a confecção de roupas. Bangladesh é o segundo maior exportador de vestuário do mundo.
“Uma maioria expressiva confere ao BNP a força parlamentar necessária para aprovar reformas de forma eficiente e evitar a paralisia legislativa. Só isso já pode gerar estabilidade política a curto prazo”, afirmou Selim Raihan, professor de economia da Universidade de Dhaka.
Empregos, proteção dos agricultores e dos pobres
Em seu manifesto, o BNP prometeu priorizar a criação de empregos, proteger famílias de baixa renda e marginalizadas e garantir preços justos aos agricultores.
“Se as fábricas funcionarem regularmente e recebermos nossos salários em dia, é isso que importa para nós. Eu só quero que o governo do BNP restabeleça a estabilidade para que mais encomendas cheguem a Bangladesh e possamos sobreviver”, disse Josna Begum, 28, operária da indústria têxtil e mãe de dois filhos, à agência de notícias Reuters.
O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, e o embaixador dos EUA em Bangladesh, Brent T. Christensen, estiveram entre os primeiros a parabenizar Rahman pela vitória de seu partido.
A Índia, a China e os Estados Unidos estão disputando influência em Bangladesh. O embaixador americano declarou à Reuters no início desta semana que Washington estava preocupado com a crescente influência chinesa no país.
As relações entre Nova Déli e Dhaka deterioraram-se drasticamente desde que Hasina fugiu e se refugiou na Índia, afetando gravemente os serviços de visto e os laços no críquete entre os dois países vizinhos.
“É uma oportunidade para Bangladesh… o país tem essas grandes potências ao seu redor disputando influência. Mas também é um desafio. Como administrar essas relações?”, questionou Thomas Kean, consultor sênior do International Crisis Group.

O Jamaat-e-Islami admitiu a derrota na noite de quinta-feira, após a apuração dos votos ficar mais clara, mas afirmou em comunicado na sexta-feira que “não estava satisfeito” com o processo e pediu paciência aos seus seguidores.
O partido conquistou seu maior número de cadeiras no parlamento, com 70 assentos, em sua primeira eleição desde que foi banido em 2013. A proibição foi suspensa após a destituição de Hasina.
A vitória do BNP, com mais de 200 cadeiras, é uma das maiores do país, superando a de 2001, quando obteve 193 cadeiras. No entanto, a Liga Awami de Hasina, que governou por 15 anos e foi impedida de concorrer desta vez, conquistou um número maior de cadeiras, 230, em 2008.
Mas as eleições de outros anos foram boicotadas por um dos principais partidos ou foram controversas.
A participação eleitoral desta vez ultrapassou os 42% da última eleição, em 2024, com relatos da mídia indicando que quase 60% dos eleitores registrados participaram da votação na quinta-feira.
Mais de dois mil candidatos, muitos deles independentes, estavam na cédula eleitoral, que contou com um número recorde de pelo menos 50 partidos. A votação em um distrito eleitoral foi adiada após a morte de um candidato.
A emissora Jamuna TV informou que mais de 2 milhões de eleitores votaram “Sim”, enquanto mais de 850 mil votaram “Não” em um referendo sobre reformas constitucionais realizado simultaneamente às eleições, mas não houve divulgação oficial do resultado.
As mudanças incluem a limitação de dois mandatos para primeiros-ministros, maior independência do judiciário e maior representação feminina, além da previsão de governos interinos neutros durante períodos eleitorais e a criação de uma segunda câmara para o parlamento de 300 cadeiras.