Nos Estados Unidos, pouco depois da investigação policial sobre Jeffrey Epstein se tornar pública em meados dos anos 2000, Donald Trump telefonou para o Departamento de Polícia de Palm Beach, na Flórida, para expressar gratidão.
Isso consta em um documento dos arquivos do caso Epstein divulgado recentemente pelas autoridades americanas.
“Graças a Deus que vocês estão parando ele”, disse Trump, segundo o documento. “Todo mundo já sabia que ele estava fazendo isso”, completou.
O documento – um registro por escrito de um depoimento de um ex-chefe de polícia do Condado de Palm Beach ao FBI – provavelmente alimentará ainda mais questionamentos sobre quando e o que, especificamente, Trump sabia sobre Epstein e seus crimes.
O presidente americano e a Casa Branca afirmaram repetidamente que Trump rompeu relações com Epstein no início dos anos 2000, por considerá-lo um “nojento”.
O jornal Miami Herald noticiou que o depoimento registrado no documento foi com Michael Reiter, cujo nome foi omitido.
Ele era o chefe de polícia de Palm Beach na época da ligação, que parece ter acontecido por volta de 2006, segundo o Herald.
De acordo com o documento do FBI, Trump disse a ele na ligação que as pessoas em Nova York sabiam que Epstein era repugnante. E disse que a cúmplice de Epstein, Ghislaine Maxwell, era “agente de Epstein”, acrescentando que “ela é má e para focarem nela”.
Trump também disse que esteve com Epstein uma vez, quando adolescentes estavam presentes, e que “deu o fora de lá”, segundo o documento.
Trump foi uma das “primeiras pessoas” a ligar para o Departamento de Polícia de Palm Beach quando souberam que estavam investigando Epstein, de acordo com o documento, que estava entre os milhões divulgados pelo Departamento de Justiça em virtude de uma nova lei aprovada pelo Congresso.
A CNN solicitou um comentário à Casa Branca, que repassou o pedido ao Departamento de Justiça americano.
Uma autoridade do Departamento de Justiça afirmou em nota: “Não temos conhecimento de nenhuma evidência que corrobore o fato de o presidente ter contatado as autoridades policiais há 20 anos.”
A empresa de segurança privada de Michael Reiter respondeu a um e-mail solicitando comentários: “Michael Reiter não está concedendo entrevistas neste momento.”
A questão do que Trump sabia sobre Epstein e seus crimes lançou sombras sobre o segundo mandato do presidente, em meio ao renovado interesse na história e à divulgação de milhões de páginas de documentos relacionados ao falecido criminoso sexual condenado.
Trump afirmou que os dois eram amigos na década de 1990 e frequentavam os mesmos círculos sociais em Palm Beach, antes de se desentenderem no início dos anos 2000, o que resultou na expulsão de Epstein de Mar-a-Lago.
Trump afirmou que o desentendimento foi motivado pelas tentativas de Epstein de roubar seus funcionários, mas negou ter qualquer conhecimento de seus crimes.
“A ideia de pessoas tirarem funcionários que trabalhavam para mim é ruim”, disse Trump a repórteres em julho. “Em outras palavras, pessoas foram tiradas do spa, contratadas por ele, foram embora.”
“Quando soube disso, eu disse a ele: não queremos que você leve nossos funcionários – seja em um spa ou não. Não quero que ele leve pessoas, e ele concordou, mas pouco tempo depois ele fez a mesma coisa e eu disse: ‘Fora daqui’”, disse Trump.
Trump disse acreditar que uma das pessoas levadas era Virginia Giuffre, uma das principais vítimas de Epstein, que cometeu suicídio no ano passado.

A descrição que Trump faz de Ghislaine Maxwell como “má” no documento contrasta com a forma como ele reagiu à sua prisão em 2020. Na época, ele disse: “Desejo que ela fique bem”. Maxwell está cumprindo uma longa pena de prisão por tráfico sexual.
Embora Maxwell tenha invocado a 5ª Emenda para permanecer em silêncio durante seu último depoimento ao Comitê de Supervisão da Câmara, seu advogado afirmou que ela estaria disposta a “falar completa e honestamente se o presidente Trump lhe concedesse clemência”.
Em uma entrevista anterior com o vice-procurador-geral Todd Blanche , Maxwell disse que “absolutamente nunca” ouviu Epstein ou qualquer outra pessoa dizer que Trump havia feito algo inapropriado.
Trump disse à CNN em julho que não havia pensado em conceder um perdão ou reduzir a pena de Maxwell, embora não tenha descartado a possibilidade.
“É algo em que eu não pensei”, disse ele. “Eu tenho permissão para fazer isso, mas é algo em que eu não pensei.”