Cuba diz que pode dialogar com EUA, mas não sobre mudança de regime

Cuba está pronta para um diálogo “significativo” com os Estados Unidos, mas não está disposta a discutir a mudança de governo, declarou o vice-ministro das Relações Exteriores cubano à CNN na quarta-feira (4), em comentários que surgem em meio à crescente pressão do governo Trump sobre a ilha, com ameaças de mudança de regime.

“Não estamos prontos para discutir nosso sistema constitucional, assim como supomos que os EUA não estejam prontos para discutir o seu sistema constitucional, o seu sistema político, a sua realidade econômica”, afirmou Carlos Fernández de Cossío.

Ele afirmou que os países ainda não estabeleceram um diálogo bilateral, mas que houve algumas trocas de mensagens que foram direcionadas aos mais altos escalões do governo cubano.

Suas declarações vêm dias depois de o secretário de Estado americano, Marco Rubio, ter dito que os EUA “adorariam ver” uma mudança de regime em Cuba, embora não necessariamente a concretizassem.

Isso ocorre em um momento em que o governo Trump intensificou a pressão sobre a ilha caribenha, tentando interromper o fornecimento de petróleo. Os EUA já haviam interrompido o fornecimento de petróleo da Venezuela após a destituição do ditador do país.

Na semana passada, ameaçaram impor tarifas a nações que exportam petróleo para Cuba, alegando que Havana representa uma “ameaça extraordinária” por se aliar a “países hostis e atores malignos, (e) abrigar suas capacidades militares e de inteligência”.

De Cossío contestou a justificativa americana. “Cuba não representa nenhuma ameaça aos Estados Unidos. Não é agressiva contra os Estados Unidos. Não é hostil. Não abriga terroristas, nem os patrocina”, afirmou.

Ele pediu que os EUA aliviem sua campanha de pressão, que, segundo ele, já prejudicou o país.

Os cubanos têm enfrentado apagões constantes e longas filas em postos de gasolina devido à escassez de combustível.

Autoridades do país afirmam que as sanções econômicas americanas são as principais responsáveis ​​pela situação precária do setor energético do país, embora críticos também apontem a falta de investimento governamental em infraestrutura.

O vice-ministro afirmou que Cuba pode ter que considerar medidas de austeridade e fazer sacrifícios não especificados para conservar o fornecimento de combustível, embora não tenha dito quanto resta em suas reservas.

“O que Cuba sofre é equivalente a uma guerra em termos de medidas coercitivas econômicas”, declarou ele.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que Cuba poderia evitar um corte total no fornecimento de combustível fechando um “acordo”, que potencialmente exigiria a devolução de propriedades confiscadas de exilados cubanos que deixaram a ilha após a revolução de 1959.

Operação na Venezuela

Os cubanos ficaram chocados com a operação dos EUA em janeiro, que capturou seu principal aliado, o líder venezuelano Nicolás Maduro, e resultou na morte de mais de 30 membros das forças de segurança cubanas que o protegiam.

Autoridades prometeram combater qualquer ação militar semelhante dos EUA contra Cuba. A mídia estatal tem mostrado, nas últimas semanas, um aumento nos exercícios e preparativos militares.

Trump afirmou na segunda-feira (2) que o México — outro aliado próximo do governo cubano — também suspenderá os embarques de petróleo em meio à crescente pressão dos EUA.

O México declarou na quarta-feira (4) que seus contratos de petróleo com Cuba continuam em vigor, mas que está buscando maneiras alternativas de ajudar Cuba a evitar ser afetado pelas tarifas americanas.

Na terça-feira (3), a Embaixada dos EUA em Havana alertou os cidadãos americanos em Cuba a tomarem precauções em meio à crise energética, economizando combustível, água e alimentos, e carregando seus celulares.

A embaixada também alertou para casos de cidadãos americanos que tiveram a entrada negada ao chegarem ao país, bem como para um aumento nos protestos patrocinados pelo governo contra os Estados Unidos.

De Cossío argumentou que o diálogo é uma alternativa melhor para os EUA do que a coerção. Embora Cuba não esteja disposta a discutir mudança de regime com autoridades americanas, ele afirmou que o país está aberto a conversar sobre assuntos que possam beneficiar as duas nações, incluindo a segurança regional.

“Se os EUA quiserem cooperação no combate ao tráfico de drogas, Cuba pode ajudar”, disse ele. “Já ajudamos no passado e podemos continuar ajudando no combate ao tráfico que ocorre dentro da região.”

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