O surgimento de novos casos do vírus Nipah, na Índia, acendeu um alerta de saúde global e levou diversos países asiáticos a retomarem protocolos sanitários rigorosos.
O vírus Nipah é transmitido por morcegos do gênero Pteropus. De acordo com um artigo publicado na revista científica Veterinary Quarterly, esses morcegos são os principais reservatórios do vírus, e o contato com os animais infectados ou com hospedeiros intermediários, como porcos, é responsável pela infecção em humanos.
Os morcegos Pteropus são conhecidos como raposas-voadoras devido ao seu tamanho. Eles são especialmente encontrados em ilhas costeiras da África, Ásia e Oceania.
Por se alimentarem de frutas e outros vegetais, esses morcegos são considerados frugívoros, e a maioria possui hábitos noturnos.
Os morcegos dessa espécie são conhecidos por serem ecologicamente benéficos, por possuírem funções na regeneração de florestas por meio da dispersão de sementes.
Por outro lado, assim como outros morcegos, as raposas-voadoras são reservatórios de doenças ameaçadoras da saúde humana. Além do vírus Nipah, esses animais são reservatórios de agentes patogênicos como o vírus da raiva australiano (Lyssavirus), que causa uma doença semelhante à raiva, e o vírus Hendra.
Relação entre morcegos e vírus Nipah
Vários estudos relataram que o principal fator responsável pelo surgimento do vírus Nipah foi a interação intensa entre o reservatório silvestre, particularmente as raposas-voadoras, e a população animal criada e manejada em condições intensivas.
Em 1999, o vírus Nipah foi descoberto após um surto em porcos e humanos na Malásia e em Singapura. Trezentas pessoas adoeceram e mais de cem morreram. Nesse primeiro surto, os morcegos inicialmente transmitiram o vírus Nipah para os porcos. As pessoas que trabalhavam em contato próximo com os porcos infectados também adoeceram.
Segundo o artigo publicado na Veterinary Quarterly, morcegos do gênero Pteropus, como P. vampyrus, P. hypomelanus, P. lylei e P. giganteus, foram associados a surtos da doença viral de Nipah em diversos países do Sul e Sudeste Asiático, incluindo Bangladesh, Camboja, Timor-Leste, Indonésia, Índia, Papua-Nova Guiné, Vietnã e Tailândia.
Apesar disso, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a infecção pelo vírus Nipah não parece causar doença em morcegos frugívoros.
O que é o vírus Nipah e por que é preocupante?
Em entrevista à CNN Brasil, o infectologista Renato Kfouri explicou que o Nipah é um vírus zoonótico descoberto há cerca de 30 anos na Malásia.
Segundo o especialista, o reconhecimento do morcego frugívoro como principal agente transmissor decorreu de observações em comunidades locais. “Foi observado inicialmente em uma comunidade que provavelmente consumia água contaminada de um poço, e aí reconheceram o morcego como principal agente transmissor dessa doença”, afirma Kfouri.
Além do contato direto com morcegos, a transmissão pode ocorrer pelo consumo de alimentos contaminados ou pelo contato com animais infectados, como porcos.
Hoje, a maior preocupação das autoridades de saúde está na potencial gravidade da doença. Estimativas da OMS apontam que a taxa de mortalidade varia entre 40% e 75%.
Os sintomas da doença podem evoluir rapidamente, incluindo febre alta e dor de cabeça, mialgia (dores musculares), dor de garganta, vômitos e mal-estar geral.
À medida que a doença avança, o quadro pode se agravar para uma pneumonia atípica ou insuficiência respiratória aguda, condição em que os pulmões perdem a capacidade de oxigenar o organismo adequadamente.
O maior risco do Nipah reside na sua capacidade de inflamar o cérebro (encefalite aguda). Sinais como tontura, sonolência excessiva e confusão mental são alertas críticos. Em casos severos, o paciente pode sofrer convulsões e entrar em estado de coma em apenas 24 ou 48 horas.
Vírus Nipah pode chegar ao Brasil?
Tanto a OMS quanto o Ministério da Saúde do Brasil não indicam qualquer risco imediato de disseminação internacional do vírus Nipah.
O Ministério da Saúde segue monitorando a situação em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras instituições, sem indicar qualquer ameaça iminente.
No Brasil, o Ministério da Saúde mantém protocolos de vigilância contínua para lidar com agentes patogênicos altamente perigosos, como o Nipah. O país também trabalha em estreita colaboração com instituições como a Fiocruz e o Instituto Evandro Chagas, além de contar com o apoio da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) e da OMS.
De acordo com o Ministério da Saúde, não há nenhum indicativo de risco para a população brasileira e a situação continua sendo monitorada de perto.
O infectologista Renato Kfouri, em entrevista à CNN Brasil, afirmou que a chance de uma disseminação global do vírus Nipah, como ocorreu com a COVID-19, é muito baixa. Ele destacou que os dois vírus têm características de transmissão completamente diferentes.
*Com informações de André Nicolau e Giu Aya, da CNN Brasil