Com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entendendo que precisa limitar candidaturas próprias do Partido dos Trabalhadores, o Palácio do Planalto começou a estruturar um desenho pragmático para as eleições de 2026.
A estratégia do petista passa pelo fortalecimento de alianças com partidos de centro e centro-esquerda — sobretudo PSD, MDB e PSB — para isolar o bolsonarismo nos estados e construir maiorias regionais capazes de sustentar o próximo ciclo político.
A avaliação interna é de que as disputas estaduais terão peso decisivo tanto na formação do Congresso Nacional quanto no desempenho presidencial. Por isso, Lula já sinalizou que onde o PT não for competitivo, não hesitará em subir em palanques de aliados de outros partidos para evitar vitórias do Partido Liberal e de nomes ligados ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Sudeste e Sul: o campo mais difícil para o Planalto
No Sudeste e no Sul, regiões com maior resistência ao PT, o governo atua para reduzir a rejeição e quebrar hegemonias da direita.
Em São Paulo, o cenário depende do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Caso ele dispute a reeleição, o Planalto trabalha para unificar a esquerda em torno do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), ou do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB). Os movimentos ainda dependem das vontades pessoais do vice e do ministro de Lula.
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Em Minas Gerais, com a saída de Romeu Zema (Novo), a disputa está aberta. O nome preferencial de Lula é o do ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), além do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD). Já a direita aposta no senador Cleitinho (Republicanos) e no vice-governador Mateus Simões, que recentemente migrou para o PSD, ampliando a complexidade do tabuleiro local.
No Rio de Janeiro, a aliança governista está consolidada. Lula apoia o prefeito Eduardo Paes (PSD). A oposição ainda avalia nomes já que o cenário de incerteza estadual dificultou os que estavam sendo desenhados pelo atual governo do estado, Cláudio Castro (PL). Nomes do clã Bolsonaro podem entrar na disputa.
O Paraná segue como um dos cenários mais hostis ao PT. O senador Sergio Moro (União) lidera pesquisas iniciais. O governo tenta construir uma alternativa de centro, como o ex-prefeito Rafael Greca (PSD), ou manter um palanque próprio com Enio Verri (PT).
No Rio Grande do Sul, a disputa é fragmentada entre Juliana Brizola (PDT), o deputado federal Zucco (PL) e Edegar Pretto (PT). Lula tenta atrair o MDB do vice-governador Gabriel Souza para ampliar o arco de alianças.
Em Santa Catarina, estado considerado o mais bolsonarista do país, o PT tenta viabilizar Décio Lima, enfrentando a força do grupo do governador Jorginho Mello (PL).
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Nordeste: base sólida, mas com riscos de racha
No Nordeste, principal reduto eleitoral de Lula, o foco é evitar conflitos entre aliados.
Na Bahia, a reeleição de Jerônimo Rodrigues (PT) é prioridade absoluta, em nova disputa contra ACM Neto (União).
Em Pernambuco, o Planalto enfrenta um dilema estratégico: apoiar o prefeito João Campos (PSB), fenômeno eleitoral no estado, ou manter a relação institucional com a governadora Raquel Lyra (PSD).
No Ceará, Elmano de Freitas (PT) tenta a reeleição, enquanto a oposição pode lançar Capitão Wagner (União Brasil) ou Ciro Gomes (PSDB), agora tucano, que não agrada toda a base bolsonarista.
No Maranhão, o governo busca consolidar o grupo político ligado ao ex-governador Flávio Dino, atualmente ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), e que é base do PT no estado. No entanto, o nome a ser escolhido ainda é incerto.
Em Alagoas, a aliança com os Calheiros, liderada por Renan Filho (MDB), é tratada como estratégica.
Piauí, Paraíba e Sergipe aparecem como cenários mais estáveis para o Planalto, com Rafael Fonteles (PT), o grupo de João Azevêdo (PSB) e Fábio Mitidieri (PSD), respectivamente.
No Rio Grande do Norte, a saída de Fátima Bezerra abre disputa pela sucessão. O PT ainda avalia cenários, mas as incertezas e a rejeição da atual governadora podem dificultar a escolha. A direita vai apostar em Alvaro Dias (Republicanos), ex-prefeito de Natal, com apoio do senador Rogério Marinho (PL).
Norte e Centro-Oeste: pragmatismo para não ficar isolado
No Norte e Centro-Oeste, regiões de forte influência do agronegócio e do eleitorado evangélico, a estratégia é pragmática.
No Pará, Helder Barbalho (MDB) é o principal aliado de Lula e deve indicar o sucessor, com a vice-governadora Hanna Ghassan como nome mais citado.
Em Goiás, sem Ronaldo Caiado (União) no páreo, o Planalto tenta atrair os partidos de centro para uma aliança contra candidatos do PL.
Em Mato Grosso, o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro (PSD), é a aposta para tentar romper a hegemonia do grupo do governador Mauro Mendes (União).
Em Mato Grosso do Sul, o cenário é incerto.
No Amazonas, a disputa envolve o grupo do governador Wilson Lima (União), o senador Eduardo Braga (MDB) e o deputado Capitão Alberto Neto (PL). O PT deve seguir tentando uma costura de centro.
Em estados como Acre, Rondônia e Roraima, o Planalto busca nomes do MDB ou PSD para não ficar sem palanque.
No Distrito Federal, a esquerda tenta se reorganizar com Leila Barros (PDT), Leandro Grass (PT) ou Ricardo Cappelli (PSB) para enfrentar o grupo do governador Ibaneis Rocha (MDB).
Unidade como fator decisivo
No entorno de Lula, o principal risco apontado é o “fogo amigo”. Disputas entre PT, PSB e PSD podem fragmentar o campo governista e abrir espaço para a direita. Por isso, a ordem no Planalto é priorizar a unidade, mesmo que isso signifique abrir mão de candidaturas próprias.
A leitura é que o sucesso em 2026 dependerá menos da força isolada do PT e mais da capacidade de Lula montar um xadrez estadual capaz de conter o avanço bolsonarista e garantir governabilidade no próximo ciclo.