O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou nesta semana uma “estrutura” para um acordo em relação à Groenlândia. Segundo ele afirmou, o entendimento envolverá recursos minerais.
Ele não especificou nenhum termo preliminar, mas a riqueza mineral inexplorada da Groenlândia ajudou a colocar a ilha no topo da lista de desejos de Trump.
Veja no mapa abaixo onde estão os minerais na Groenlândia:

A Groenlândia possui mais de 1.100 jazidas minerais identificadas, mas apenas duas minas estão em operação e apenas oito licenças de mineração estão em vigor.
Mais de 600 dessas jazidas contêm minerais considerados essenciais pelos Estados Unidos para sua economia e segurança nacional.
Ainda assim, a presença de minerais não indica a viabilidade econômica de sua extração. O governo dos EUA define 60 “minerais críticos”, dos quais 15 são elementos de terras raras. Os dados no mapa mostram apenas o recurso primário em cada local.
Recursos de difícil extração
De toda forma, pesquisadores afirmam que seria extremamente difícil e caro extrair os minerais da Groenlândia.
Isso porque muitos dos depósitos minerais da ilha estão localizados em áreas remotas acima do Círculo Polar Ártico, onde existe uma camada de gelo polar com mais de um quilômetro de espessura e a escuridão reina durante grande parte do ano.
Além disso, a Groenlândia não possui a infraestrutura e a mão de obra necessárias para tornar esse sonho de mineração uma realidade.
“A ideia de transformar a Groenlândia na fábrica de terras raras dos Estados Unidos é ficção científica. É simplesmente uma loucura”, disse Malte Humpert, fundador e pesquisador sênior do Instituto Ártico.
“Seria o mesmo que minerar na Lua. Em alguns aspectos, é pior que a Lua”, alertou.
Aproximadamente 80% da Groenlândia é coberta por gelo. Com isso, a extração mineral — ou praticamente qualquer outra atividade — pode ser de cinco a dez vezes mais cara do que em qualquer outro lugar do planeta.
O mito do “pote de ouro”
Convencer empresas americanas a investir na Groenlândia pode ser uma fantasia, dizem especialistas.
“Se houvesse um ‘pote de ouro’ esperando no fim do arco-íris na Groenlândia, empresas privadas já teriam ido para lá”, avaliou Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador sênior não residente do Instituto Peterson de Economia Internacional.
Funk Kirkegaard, que trabalhou anteriormente no Ministério da Defesa da Dinamarca, destaca que é “muito difícil” justificar o enorme investimento inicial que seria necessário.
De toda forma, é possível que Trump esteja tentando oferecer incentivos financeiros e garantias para atrair empresas americanas a fazerem esses investimentos maciços, semelhantes às garantias que as grandes petrolíferas buscam para perfurar agressivamente na Venezuela.
“Se tivessem dinheiro suficiente dos contribuintes, as empresas privadas estariam dispostas a fazer quase tudo”, ponderou o especialista.
“Mas essa é uma boa base para comprar um território? A resposta é não na Groenlândia, assim como não na Venezuela”, adicionou.
Fatores ambientais dificultam mineração
A crise climática causou o derretimento do gelo e o rápido aumento das temperaturas no Ártico, fazendo com que algumas pessoas esperassem novas oportunidades econômicas.
No entanto, ainda é cedo para afirmar que isso será suficiente para superar os desafios ambientais da mineração na Groenlândia.
Embora o derretimento do gelo tenha aberto algumas rotas de navegação, também tornou o solo menos estável para perfuração e aumenta o risco de deslizamentos de terra.
“Mudanças climáticas não significam facilidade. Não estamos no Mediterrâneo nem na sua banheira. Há apenas menos gelo”, disse Humpert, do Instituto Ártico.
Além disso, as rigorosas regulamentações ambientais da Groenlândia aumentariam os custos e as dificuldades da mineração em larga escala.
É claro que essas regulamentações refletem o desejo da população local de manter o meio ambiente preservado. Se o governo Trump, de alguma forma, revogasse essas regulamentações, isso poderia se mostrar extremamente impopular.
“Você pode acabar tendo uma situação política local hostil”, advertiu Funk Kirkegaard.