Janeiro marca o Mês da Visibilidade Trans, período que amplia o debate sobre as condições de vida da população trans no país. A ativista Benny Briolly tem utilizado sua própria trajetória para chamar atenção a dados e relatos que apontam para violência, exclusão social e dificuldades de acesso a direitos básicos.
Benny afirma que episódios de constrangimento, insegurança e isolamento fazem parte da rotina de muitas pessoas trans.
“Ser uma pessoa trans no Brasil é viver todos os dias sob o impacto do ódio, da violência e da rejeição”, afirma.
Ela também chama atenção para a chamada solidão afetiva, caracterizada por relações marcadas por ocultamento e medo de exposição pública, o que impacta a saúde emocional e a sensação de pertencimento social.
Criada na Favela da Palmeira, no bairro Fonseca, em Niterói, Benny nasceu em 1991 e enfrentou, ainda na adolescência, a perda da mãe. Ao longo da juventude, relata ter lidado com rejeição familiar, interrupções no percurso escolar e obstáculos para acessar o mercado de trabalho. Formada em Jornalismo, passou a atuar publicamente a partir de experiências pessoais relacionadas à identidade de gênero, à vivência na periferia e ao enfrentamento cotidiano de situações de discriminação
A partir desses relatos, a ativista passou a reunir dados que ajudam a dimensionar o cenário enfrentado pela população trans no país. Segundo informações citadas por ela, o Brasil permanece, pelo 16º ano consecutivo, como o país com maior número de assassinatos de pessoas trans no mundo. Ela ressalta que a violência não se restringe aos homicídios e se manifesta também em diferentes áreas da vida social.
Entre os indicadores apresentados estão os relacionados ao mercado de trabalho. Apenas cerca de 25% das pessoas trans estão no emprego formal, percentual que cai para aproximadamente 20,7% entre mulheres trans. Mesmo quando conseguem inserção profissional, a renda média permanece cerca de 32% inferior à da população geral com o mesmo nível de escolaridade.
Na educação, levantamentos indicam que aproximadamente 82% das pessoas trans abandonam o ensino médio antes da conclusão, frequentemente em função de episódios de discriminação no ambiente escolar. No ensino superior, a presença desse grupo é estimada em cerca de 0,2% do total de estudantes em universidades federais.
Na área da saúde, Benny relata dificuldades relacionadas à falta de acolhimento, estigmas e ausência de políticas específicas. Mais da metade das pessoas trans já recebeu diagnóstico de transtornos associados à ansiedade, depressão ou estresse. A vulnerabilidade ao HIV também é apontada como maior, agravada por barreiras no acesso ao atendimento integral.
Benny também afirma ter sido alvo de ameaças e ataques, o que resultou em medidas de proteção e afastamento temporário do país em 2021, com acompanhamento de organismos internacionais de defesa de direitos humanos.