Análise: Como BTS pode reinventar a indútria do k-pop?

Quando o maior grupo de K-pop do mundo anunciou seu hiato no final de 2022, eles estavam no auge do estrelato. Regularmente lideravam as paradas musicais, ganhavam prêmios prestigiosos e, sem dúvida, transformaram o gênero em um fenômeno cultural global.

Agora, o BTS está de volta – e chegando a uma cidade próxima de você. O grupo anunciou as datas e locais de uma aguardada turnê mundial, com seu novo álbum previsto para março – o primeiro do grupo em quase quatro anos.

Os fãs do grupo, conhecidos como Army, têm esperado ansiosamente pelo retorno de seus ídolos desde que o último de seus integrantes completou o serviço militar obrigatório no ano passado – embora a rapidez do anúncio tenha sido uma surpresa agradável para alguns. “É como se os deuses estivessem descendo do Monte Olimpo”, disse Carla Nicholson, uma fã de San Diego que atualmente estuda em Seul e visitou uma instalação promocional do BTS na capital sul-coreana na semana passada. Quando o álbum for lançado, ela planeja alugar um cinema inteiro para assistir aos videoclipes com seus amigos, disse.

Outra fã, Jing Lee, de Taiwan, disse que quando soube do retorno iminente, “não consegui dormir por duas noites porque estou muito animada, mas também com medo de não conseguir um ingresso”. “Usei meus três desejos de aniversário para o BTS, apenas esperando conseguir pelo menos um ingresso para o show”, disse e acrescentou que está pronta para viajar aos EUA se o grupo se apresentar lá. “Vou segui-los onde quer que eles vão.”

Os fãs também têm analisado minuciosamente uma imagem enigmática divulgada pela banda, que mostra três círculos vermelhos – com teorias sobre seu significado variando desde “olá” até os símbolos da bandeira sul-coreana.

Mas o grupo está retornando a um cenário muito diferente daquele que deixou. O k-pop não é mais uma novidade, com a “onda coreana”, também conhecida como Hallyu, levando as exportações culturais do país para todos os cantos do globo. E durante o último ano, a indústria foi abalada por uma batalha judicial de alto perfil envolvendo a Hybe, empresa controladora do BTS.

“O desafio não é apenas exposição, é realmente sobre como se destacar e também ganhar a confiança entre os fãs globais”, disse Ray Seol, professor associado do Berklee College of Music em Boston, que pesquisa K-pop. “É um jogo bem diferente agora.”

Ascensão ao estrelato global

Quando o BTS estreou em 2013, o K-pop já era popular em toda a Ásia – mas tinha feito apenas progressos limitados na conquista dos mercados ocidentais.

Isso começou a mudar com o sucesso viral de Psy em 2012, “Gangnam Style”, que foi um precursor inicial do que estava por vir. Nos anos seguintes, o BTS alcançou reconhecimento global, com sua chegada na cultura pop americana sendo celebrada como um grande avanço para o gênero. Eles foram o primeiro grupo de K-pop a vencer um Billboard Music Award em 2017, a se apresentar no “Saturday Night Live” em 2018 e a receber uma indicação ao Grammy em 2020.

Especialistas apontam diversos fatores que contribuíram para seu sucesso estrondoso. Claro, há as músicas cativantes e as coreografias detalhadas – mas também as letras inovadoras que abordavam questões sociais, e uma presença ativa nas redes sociais que os diferenciou de outros grupos de K-pop e atraiu uma base de fãs internacional.

Mas essa jornada entrou em pausa quando os membros – conhecidos pelos nomes artísticos V, Jin, Jimin, RM, J-Hope, Suga e Jung Kook iniciaram seu serviço militar. Na Coreia do Sul, todos os homens aptos entre 18 e 28 anos são obrigados por lei a cumprir 18-21 meses de serviço militar sob um sistema de alistamento obrigatório.

O grupo já havia conseguido adiar seu serviço uma vez, graças a uma lei aprovada pelo parlamento sul-coreano que permitia que grandes estrelas do pop adiassem seu serviço até os 30 anos. Mas esse prazo chegou em 2022 para o membro mais velho, Jin – e os outros logo seguiram. Todos os sete completaram seu serviço até 2025 e começaram a fazer nova música logo depois – embora cada membro também tenha lançado trabalhos solo durante os anos de hiato.

Indústria em evolução

No entanto, muita coisa mudou de 2022 até agora. Por um lado, a Coreia do Sul se consolidou como uma potência cultural – fonte do k-beauty, k-pop, k-dramas e mais. O que antes era novo e estrangeiro para o público ocidental agora é amplamente adorado – basta pensar em “Guerreiras do K-Pop” do ano passado, que se tornou o filme mais assistido de todos os tempos na Netflix.

Seol, que leciona um curso sobre k-pop em Berklee, diz que a cada semestre suas salas de aula estão “cheias de alunos não-coreanos” curiosos sobre a indústria.  Ao caminhar por seu bairro nos subúrbios de Boston, ele ouve crianças cantando músicas de “Guerreiras do K-Pop” — a trilha sonora que dominou as paradas da Billboard por semanas, com uma faixa conquistando o Critics” Choice Award e o Globo de Ouro de Melhor Canção Original.

“Em 2022, quando o BTS pausou suas atividades em grupo, o k-pop ainda estava em fase de expansão global“, disse Seol. “Agora é diferente. Mega hits como “Guerreiras do K-Pop” realmente mostraram o quanto a cultura k-pop se integrou profundamente ao mainstream global.”

O gênero também se globalizou em termos de idioma, nacionalidade e estilo. Tome como exemplo o Katseye, um grupo baseado em Los Angeles que se apresenta como “o primeiro girl group global formado usando metodologias de desenvolvimento de artistas do k-pop”. Criado através de uma série de competição reality show parcialmente produzida pela Hybe, suas integrantes vêm de quatro países diferentes e frequentemente incorporam seus respectivos idiomas em suas músicas – uma abordagem multicultural que pode indicar o futuro do k-pop.

Também é cada vez mais comum ver estrelas coreanas colaborando com artistas de outros gêneros. Por exemplo, o hit de 2024 “APT” foi uma colaboração entre Bruno Mars e Rosé, do popularíssimo girl group Blackpink.

Ao mesmo tempo, a indústria do k-pop tem enfrentado seus próprios desafios – refletidos na batalha judicial entre o girl group NewJeans e sua gravadora Ador, uma subsidiária da Hybe, que abalou o mundo do entretenimento no ano passado. A controvérsia levantou questões sobre a limitada autonomia dos artistas sob grandes gravadoras.

Muitos fãs, assim como investidores apreensivos, “estão ansiosos para ver como o BTS pode realmente reformular a indústria. Tem sido bastante tumultuado, especialmente o que a Hybe tem enfrentado”, disse Seol. Para manter sua estabilidade financeira, “a Hybe precisa fazer algo, e o BTS pode ser a resposta“, acrescentou.

E apesar do mercado saturado, ele afirmou que o BTS tem a vantagem distintiva de ter sido o primeiro a transformar a indústria — um impacto que os elevou em status, longevidade e influência, mesmo durante seu longo hiato. “Acho que eles estão voltando mais fortes e mais relevantes“, disse Seol. “O BTS não é apenas mais um grupo de k-pop. Eles são realmente o motor da própria indústria.”

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