Cinco senadores republicanos se juntaram à bancada democrata do Senado americano para avançar com uma medida que visa impedir Donald Trump de realizar novas ações militares contra a Venezuela sem autorização do Congresso. A votação, que terminou com 52 votos a favor e 47 contra, representa um raro momento de união bipartidária contra os planos do presidente para o país sul-americano. O analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna e Maurício Moura, professor da Universidade George Washington, debatem o assunto no WW.
A medida, embora ainda precise passar pela Câmara e possa enfrentar um veto presidencial, sinaliza uma crescente preocupação entre legisladores sobre os limites do poder executivo em questões de política externa. Para derrubar um eventual veto de Trump, seria necessário o apoio de dois terços das duas casas do Congresso americano, o que exigiria uma ampla coalizão bipartidária.
Em suas redes sociais, Trump reagiu duramente à votação, afirmando que os senadores que apoiaram o texto democrata “jamais deveriam ser eleitos novamente” e que a resolução “prejudica gravemente a autodefesa e a segurança nacional americanas”. O presidente também declarou ao New York Times que “os Estados Unidos podem permanecer envolvidos na Venezuela durante anos”, contradizendo sua tradicional postura contra intervenções militares prolongadas no exterior.
Reação ao plano para a Venezuela
A votação ocorreu um dia depois de a Casa Branca ter apresentado detalhes sobre seu plano para a Venezuela aos parlamentares. Enquanto democratas saíram do encontro falando em “insanidade” e “roubo de petróleo”, alguns republicanos demonstraram ceticismo com o fato de Trump ter deixado a oposição venezuelana de lado após a derrubada de Maduro.
Segundo apurações junto aos senadores republicanos que mudaram de lado, há um elemento eleitoral importante nessa decisão. “Existe uma sensação, baseada em números de pesquisas às quais os senadores têm acesso, dos estados deles, de que esta operação e a maneira como Trump a conduziu não cai bem entre os eleitores independentes”, explica Maurício Moura. “Uma frase repetida que tenho ouvido é ‘quem vai estar na urna em novembro não é o Trump, somos nós'”.
Lourival Sant’Anna destaca que a questão político-eleitoral não é de menor importância, já que mais da metade dos americanos são contra as políticas de Trump contra imigração e contra a Venezuela.
Em declaração aos líderes republicanos, o presidente dos EUA disse temer que democratas ganham maioria na Câmara e no Senado, pois isto poderia causar o seu impeachment. “Quando ele olha que não são só os democratas, mas também uma parte significativa, ainda que pequena, de republicanos estão deixando de apoiá-lo, aumenta, digamos, o pânico dele”, avalia Sant’Anna.
A medida representa também uma tentativa do Congresso americano de recuperar protagonismo nas decisões presidenciais, especialmente em relação a operações militares no exterior. Durante seu governo, Trump tem ampliado os poderes do executivo, muitas vezes relegando o papel tradicional do legislativo em questões de política externa.
Analistas apontam que a postura atual de Trump contradiz sua promessa de campanha de evitar envolvimentos militares prolongados no exterior e intervenções para mudança de regime. Ao sugerir um envolvimento de longo prazo na Venezuela, o presidente contraria sua própria retórica do “America First”, que criticava as chamadas “guerras intermináveis”. “Essa mobilização militar para manter o terror é inviável do ponto de vista de custos e capacidade de mobilização das forças armadas”, explica Moura.