No domingo (30), Honduras realizará eleições gerais marcadas por alegações antecipadas de fraude eleitoral e pela intervenção dos Estados Unidos.
A corrida presidencial está envolta em incertezas. Dos vários candidatos que concorrem para suceder a atual presidente hondurenha Xiomara Castro, três se destacam como favoritos, mas ainda não há como prever um vencedor.
“Estamos em uma eleição com uma profunda divisão política e econômica”, disse o cientista político Héctor Soto Caballero à CNN. “Isso evidencia o choque entre duas visões completamente diferentes para o país.”
O mandato de Xiomara Castro termina no dia 27 de janeiro de 2026, o que marcaria a primeira vez que um presidente de esquerda concluiria um mandato no país.
Seu marido, o ex-presidente de esquerda Manuel Zelaya, foi deposto em um golpe de Estado em 2009.
Nestas eleições, a presidente apoia a candidata de esquerda do partido governista LIBRE (Liberdade e Refundação), a advogada Rixi Moncada, que foi a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Defesa de Honduras e prometeu dar continuidade à agenda de Xiomara Castro.
Embora a economia de Honduras tenha apresentado um crescimento moderado sob o governo da atual presidente, que manteve o foco na proteção social e deu continuidade ao programa de crédito do Fundo Monetário Internacional, a campanha eleitoral tem se concentrado em outras questões polarizadoras.

“O que está em jogo não são as promessas típicas de campanha, com problemas relacionados à saúde, educação e segurança. O partido LIBRE entrou na disputa propondo um debate que atinge os próprios alicerces do sistema: a democratização da economia”, afirmou o analista Héctor Soto Caballero.
“Mas (o partido) não propõe isso por meio do diálogo com o setor empresarial; em vez disso, adota uma postura confrontativa. Isso polarizou a sociedade”, acrescentou Soto.
O centrista-liberal Salvador Nasralla, um populista do Partido Liberal, também está na disputa pela Presidência. O astro da televisão é um ex-aliado de Xiomara Castro, tendo atuado como seu vice-presidente até o ano passado. Ele defende reformas trabalhistas e relações comerciais mais fortes com o Ocidente.
Já o candidato do Partido Nacional é o empresário de direita e ex-prefeito de Tegucigalpa, Nasry “Tito” Asfura. O magnata da construção civil, que se candidata com uma plataforma de livre mercado, recebeu o apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Alegações de Fraude
Tanto o partido no poder quanto a oposição alimentaram alegações de fraude eleitoral antes da eleição, o que, segundo críticos, mina a integridade do sistema.
O clima tenso está pressionando o CNE (Conselho Nacional Eleitoral), um órgão independente liderado por três conselheiros de cada um dos principais partidos políticos do país.

Recentemente, o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de Honduras, Roosevelt Hernández, solicitou ao CNE uma cópia dos registros de votação presidencial no dia da eleição, algo não previsto em lei. A presidente do Conselho, Ana Paola Hall, classificou a ação como “interferência”.
Xiomara Castro afirmou esta semana, em uma publicação na rede social X, que seu governo “defende e honra” os princípios da liberdade individual, da democracia e da prestação de contas, entre outros.
Organizações internacionais também manifestaram suas preocupações.
Juanita Goebertus, diretora para as Américas da Human Rights Watch, alertou em um comunicado que “alegações de possível fraude, ações agressivas tanto por parte da promotoria quanto do exército, e o impasse político na autoridade eleitoral ameaçam o direito dos hondurenhos de participar de eleições livres e justas”.
A OEA (Organização dos Estados Americanos) e a União Europeia também apelaram às autoridades para que garantam a independência do órgão eleitoral.
Eduardo Fuentes, codiretor do CNE, reconheceu que “houve circunstâncias atípicas e posições muito conflitantes”, mas assegurou que a instituição cumpriu a maior parte de suas obrigações.
A política externa de Honduras e a influência de Washington
A pressão dos Estados Unidos, o maior parceiro comercial de Honduras, agrava ainda mais as tensões.
Trump declarou seu apoio ao candidato de direita Nasry “Tito” Asfura esta semana, afirmando em um post na Truth Social que eles poderiam trabalhar juntos “para combater os narcocomunistas e fornecer a ajuda necessária ao povo hondurenho”.
O presidente americano acrescentou que Asfura “defende a democracia e luta contra Maduro”, o ditador venezuelano que enfrenta uma campanha de pressão militar dos EUA que começou em setembro.

Na sexta-feira (28), Trump fez outra publicação, dizendo que concederia indulto ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, do Partido Nacional, de centro-direita, que cumpre pena de 45 anos de prisão nos EUA após ser condenado por tráfico de drogas.
O analista Héctor Soto Caballero afirma que os candidatos da oposição têm demonstrado seus laços ideológicos com Washington, enquanto o partido governista tem se comprometido a manter uma relação transacional com Washington.
“Se Nasralla vencer, ele já demonstrou abertamente sua flexibilidade em relação à liderança dos EUA. No caso de Asfura, ele não representaria muita oposição (à Casa Branca); seria uma influência próxima”, disse Soto.
O partido governista de Castro atendeu a muitas das exigências de Washington em questões de segurança e migração, evitando o confronto direto.
O país é fortemente impactado por medidas de imigração americana, como o fim do TPS (Status de Proteção Temporária na sigla em inglês) para imigrantes, que afetou milhares de hondurenhos nos EUA; e pelas remessas de dinheiro, que representam aproximadamente 25% do PIB de Honduras, segundo dados do Banco Mundial.
Outro aspecto fundamental da política externa de Honduras é a relação com a Venezuela, cujo movimento chavista, no poder, apoiou fortemente o marido de Xiomara Castro após o golpe.
“O governo certamente é um ator próximo, mas compreende que se trata de uma relação complexa e desconfortável”, disse Soto.

Xiomara Castro foi uma das poucas líderes da região que reconheceu a vitória de Nicolás Maduro nas eleições de 2024. Seu sucessor escolhido a dedo, Moncada, evitou comentar sobre o país durante a campanha, enquanto candidatos da oposição garantiram que romperiam relações com Caracas caso se tornassem presidentes.
Segundo o analista Héctor Soto, se as tensões entre os EUA e a Venezuela escalassem para um conflito militar, isso levaria a uma maior presença americana em Honduras, onde militares dos EUA estão estacionados na base aérea de La Palmerola.
“De uma perspectiva hemisférica, isso teria um impacto, pelo menos em termos logísticos. Se houvesse um governo mais alinhado com Washington, seria uma oportunidade para estreitar os laços”, afirmou o analista.
A Casa Branca também enfrenta outro desafio em Honduras: a crescente influência da China em toda a América Latina.
Honduras estabeleceu relações diplomáticas com a China em 2023 e rompeu relações com Taiwan. No entanto, Soto destaca que não houve progresso significativo em direção a um acordo de livre comércio desde o estabelecimento das relações.
O MSII (Miami Strategic Intelligence Institute), um centro de pesquisa conservador com sede na Flórida, afirmou em um relatório recente que os resultados das eleições podem “tanto consolidar a influência de Pequim quanto recalibrar suas posições para se alinhar aos EUA”.