A confirmação de três focos da doença de Newcastle em granjas comerciais de perus no Oeste de Santa Catarina colocou a avicultura brasileira novamente diante de um desafio sanitário e comercial. Em menos de dez dias, o Ministério da Agricultura e Pecuária confirmou ocorrências em Nova Itaberaba, Coronel Freitas e Nova Erechim, municípios próximos e que concentram uma importante parcela da produção avícola catarinense.
A sequência de casos ampliou a preocupação com a circulação do vírus na região, levou ao sacrifício sanitário de milhares de aves e provocou restrições comerciais de países importadores de produtos avícolas brasileiros.
Apesar da evolução das ocorrências, o cenário não aponta, até o momento, para risco de desabastecimento de carne de frango, peru e outras aves especiais no mercado brasileiro, especialmente durante o Natal, período de maior procura por esses produtos. A avaliação é de Rodrigo Dutra, analista da Pasto & Consultoria, e Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado. Segundo eles, a produção destinada às festas de fim de ano é planejada com antecedência, e boa parte dos produtos natalinos já passou pelo abate e está armazenada para atender à demanda de dezembro.
O impacto mais imediato está concentrado na cadeia produtiva de Santa Catarina, na operação da MBRF e no comércio internacional. A companhia tem forte presença na região e ocupa posição de destaque no mercado brasileiro de aves especiais e perus. Os focos identificados em propriedades fornecedoras da empresa exigiram medidas sanitárias, reorganização dos fluxos de produção e redirecionamento de pedidos destinados ao exterior.
O primeiro caso foi confirmado pelo Ministério da Agricultura em 18 de outubro, em uma propriedade comercial de criação de perus de corte em Nova Itaberaba. A ocorrência foi identificada durante ações de vigilância epidemiológica, após a coleta de amostras na propriedade no final de setembro. Um segundo foco foi confirmado em 24 de outubro, em Coronel Freitas. Já em 27 de outubro, o ministério anunciou a terceira ocorrência, em Nova Erechim, também dentro da área de emergência sanitária estabelecida pelas autoridades.
Com a identificação do terceiro estabelecimento infectado, o número de aves envolvidas nas propriedades atingidas ultrapassou 48 mil, segundo informações divulgadas pela defesa agropecuária catarinense. As granjas de Nova Itaberaba e Coronel Freitas, com aproximadamente 6 mil e mais de 33 mil perus, respectivamente, foram identificadas como fornecedoras da MBRF. A propriedade de Nova Erechim tinha cerca de 9,6 mil aves, mas não havia confirmação pública sobre a empresa à qual fornecia.
O avanço dos registros chama atenção não apenas pela proximidade geográfica entre as propriedades, mas também pelo intervalo relativamente curto entre as confirmações. A sequência levou à ampliação das medidas de vigilância e ao reforço da fiscalização sobre outras granjas localizadas no entorno.
O Ministério da Agricultura declarou emergência zoossanitária por 60 dias em Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim. As medidas incluem investigação epidemiológica, controle do trânsito de animais e materiais, despovoamento sanitário das propriedades atingidas, limpeza e desinfecção das instalações e monitoramento intensificado dos estabelecimentos próximos.
Em Nova Itaberaba, as medidas sanitárias foram concluídas e a propriedade entrou em vazio sanitário. Em Coronel Freitas, o despovoamento das aves foi finalizado, enquanto os procedimentos de limpeza e desinfecção estavam em andamento. No terceiro estabelecimento, em Nova Erechim, as autoridades iniciaram os protocolos de contenção e investigação.
O que está por trás da sequência de casos?
A principal questão para o setor é entender como o vírus chegou às propriedades comerciais e se existe uma circulação mais ampla entre as populações de aves da região. Embora a proximidade entre os três estabelecimentos seja um elemento importante para a investigação, ainda não há uma conclusão oficial sobre a origem da contaminação ou sobre o caminho percorrido pelo agente infeccioso.
A doença de Newcastle é provocada por um vírus do paramixovírus aviário tipo 1 (APMV-1), que pode infectar diferentes espécies de aves. A transmissão ocorre principalmente pelo contato com secreções e excreções de animais infectados, por partículas dispersas no ambiente e por materiais contaminados. Equipamentos, instalações, água, alimentos, roupas e calçados também podem funcionar como veículos de disseminação. Roedores, insetos e outros vetores podem contribuir para o transporte do agente entre ambientes.
Por esse motivo, a biosseguridade é considerada uma das principais barreiras de proteção da produção comercial. O controle do acesso às granjas, a higienização de veículos e equipamentos, a separação entre aves domésticas e silvestres e a vigilância permanente dos plantéis são medidas fundamentais para reduzir o risco de introdução e circulação do vírus.
Um elemento adicional de preocupação surgiu com a identificação do paramixovírus aviário tipo 1 em pombos de vida livre fora da área de emergência sanitária. A detecção chamou a atenção dos especialistas porque evidencia a presença do agente em aves que circulam livremente pelo ambiente e que podem representar um desafio adicional para a vigilância sanitária.
Entretanto, existe uma distinção importante já que o Ministério da Agricultura esclareceu que a identificação do vírus nesses pombos não configura um novo foco comercial de Newcastle e que a ocorrência não apresenta relação epidemiológica estabelecida com os casos registrados nas granjas de produção.
O sequenciamento genético realizado pelo Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de São Paulo identificou, no foco de 2026, 97,35% de identidade com uma sequência do Pigeon paramyxovirus 1 (PPMV-1). Trata-se de uma variante virulenta do mesmo grupo viral. O dado é relevante para a investigação, mas não permite, isoladamente, afirmar que os pombos identificados tenham sido a origem da infecção nas granjas.
A hipótese de uma pressão ambiental maior sobre os estabelecimentos, portanto, merece atenção, mas a origem efetiva da circulação viral ainda depende da investigação epidemiológica.
Outro ponto que precisa ser considerado é que a identificação do vírus não significa necessariamente que tenha ocorrido uma falha de manejo nas propriedades. A ocorrência de um agente infeccioso pode envolver diferentes vias de exposição, e a determinação de eventuais falhas depende da análise das condições sanitárias de cada estabelecimento, dos protocolos adotados e da investigação conduzida pelas autoridades.
O que está confirmado é que o primeiro foco foi identificado durante uma ação de vigilância ativa, mesmo sem sinais clínicos nas aves. Isso demonstra a importância do monitoramento laboratorial, inclusive em plantéis que não apresentam manifestações aparentes da doença.
O Brasil havia registrado o último foco comercial de Newcastle em
, em uma granja de frangos de corte no Rio Grande do Sul. Antes disso, a enfermidade era considerada erradicada da avicultura comercial brasileira desde 2006. A nova ocorrência em Santa Catarina, portanto, representa mais um episódio que exige resposta coordenada do serviço veterinário oficial e do setor privado.
Por que os casos atingem diretamente a MBRF?
A concentração dos registros em granjas de perus ajuda a explicar por que a MBRF está no centro das preocupações do setor. A empresa tem uma presença expressiva na produção avícola catarinense e opera uma unidade de abate de perus em Chapecó, no Oeste do estado.
De acordo com Rodrigo Dutra, da Pasto & Consultoria, a estrutura de produção de perus em Santa Catarina apresenta uma concentração importante em torno da companhia. Como a unidade de Chapecó é a única planta de abate de perus no estado, as granjas comerciais da região que trabalham com essa proteína estão diretamente vinculadas à operação da empresa.
Na avaliação do analista, esse modelo ajuda a explicar por que os focos identificados em propriedades da região tiveram repercussão tão direta sobre a MBRF. As granjas atingidas estão inseridas em uma cadeia de fornecimento concentrada, na qual a companhia possui participação relevante.
Dutra destaca que a presença da MBRF no segmento de aves em Santa Catarina é superior à de sua principal concorrente, a JBS. Segundo as estimativas apresentadas pelo analista, a empresa detém aproximadamente 75% do mercado brasileiro de peru e 60% do segmento de aves especiais.
Essa participação aumenta a exposição operacional da companhia quando há uma ocorrência sanitária em sua região de atuação. Ao mesmo tempo, a dimensão nacional da empresa funciona como um fator de proteção, já que a produção não está concentrada exclusivamente em Santa Catarina.
A avaliação de Dutra é que os três estabelecimentos atingidos representam um elo relativamente pequeno diante da escala total da MBRF. As propriedades envolvidas somam aproximadamente 46 mil aves na estimativa inicial do analista, volume que não compromete, por si só, a capacidade de abastecimento da companhia.
O primeiro estabelecimento atingido, em Nova Itaberaba, também teve uma particularidade importante que segundo Dutra as aves não deixaram a propriedade nem foram encaminhadas para o abate. Isso significa que não houve entrada daquele lote na cadeia de comercialização de produtos destinados ao consumidor.
Ainda segundo Dutra, a companhia, por sua vez, precisou reorganizar parte de sua operação para atender aos compromissos comerciais e reduzir os efeitos das restrições impostas pelos países importadores.
Como a MBRF está reorganizando a produção?
De acordo com Rodrigo Dutra, a resposta operacional da companhia deve ficar estruturada em três frentes. A primeira envolve o sacrifício sanitário das aves das propriedades atingidas, seguido pelos procedimentos de limpeza, desinfecção e vazio sanitário. A medida busca eliminar o agente infeccioso dos estabelecimentos e reduzir o risco de disseminação para outras granjas.
A segunda frente é o redirecionamento dos pedidos internacionais para unidades industriais localizadas no Paraná e no Rio Grande do Sul, que permanecem habilitadas a exportar para determinados mercados. A estratégia permite que a empresa preserve parte dos contratos e mantenha o atendimento aos compradores internacionais sem depender exclusivamente da produção catarinense.
A terceira envolve a estocagem de produtos que já foram industrializados em Santa Catarina, mas que ficaram sem destino comercial em razão das restrições sanitárias. Em vez de direcionar imediatamente esse volume ao mercado brasileiro, a companhia mantém os produtos armazenados, aguardando a retomada das autorizações de exportação.
“Essa estratégia é importante porque evita que uma quantidade adicional de carne seja direcionada de uma só vez ao mercado doméstico. Caso o produto impedido de seguir para o exterior fosse imediatamente colocado à venda no Brasil, poderia haver pressão sobre os preços e sobre a comercialização de outras aves”, informou à CNN Brasil.
Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, também chama atenção para o efeito da estocagem. Segundo ele, a preocupação não está concentrada na disponibilidade de peru para o Natal, mas no destino da produção que continuará sendo abatida ao longo das próximas semanas.
O problema é que os frigoríficos precisam administrar o volume que deixa de seguir para os mercados internacionais enquanto os embargos permanecem em vigor. Isso pode aumentar a necessidade de armazenagem e elevar os custos operacionais, especialmente se as restrições demorarem a ser retiradas.
O impacto, portanto, não se resume às aves sacrificadas. Há também uma questão logística e comercial relacionada ao armazenamento, à reorganização dos embarques, à utilização das plantas industriais e à preservação dos contratos com clientes internacionais.
Procuradas pela CNN, a MBRF e a ABPA, associação que representa as indústrias de abate de aves, ainda não se manifestaram sobre o assunto.
Exportações têm impacto, mas regionalização reduz perdas
Santa Catarina ocupa uma posição estratégica no comércio internacional de proteínas avícolas. Em 2025, o estado exportou aproximadamente 29,5 mil toneladas de carne de peru, o equivalente a 44,8% de todo o volume embarcado pelo Brasil, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior e compilados pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil).
No mercado de carne de frango, a importância também é expressiva já que Santa Catarina exportou cerca de 1,2 milhão de toneladas em 2025, correspondente a 23,3% do total nacional. A receita com as exportações de carne de aves do estado alcançou aproximadamente US$ 2,1 bilhões naquele ano.
Com esse peso no comércio exterior, qualquer restrição sanitária envolvendo a produção catarinense tem potencial para afetar o desempenho das exportações brasileiras.
Até a atualização divulgada pelo Ministério da Agricultura em 27 de outubro, as suspensões estavam distribuídas de maneira diferente entre os países compradores.
México e Malásia haviam suspendido importações de determinados produtos avícolas provenientes de todo o Brasil. Já Arábia Saudita, China e Chile restringiram produtos originários de Santa Catarina, com diferenças entre os itens abrangidos por cada medida.
A regionalização é um ponto fundamental para evitar que a ocorrência em uma região comprometa toda a produção nacional. No caso da China, por exemplo, a negociação conduzida pelo governo brasileiro permitiu limitar a restrição a Santa Catarina, evitando a suspensão das compras provenientes dos demais estados.
Para Rodrigo Dutra, os mercados e produtos atingidos representam aproximadamente 46 mil toneladas mensais, volume próximo de 10% dos embarques brasileiros de produtos avícolas. O analista avalia, contudo, que parte significativa dessa quantidade poderá ser absorvida por unidades industriais localizadas em outros estados, desde que estejam habilitadas a atender aos requisitos sanitários de cada destino.
Essa possibilidade reduz o impacto sobre o comércio exterior, mas não elimina as dificuldades. O redirecionamento depende da capacidade disponível nas plantas, da logística de transporte, da adequação dos produtos e das exigências específicas de cada mercado.
Iglesias avalia que o efeito das restrições tende a permanecer administrável enquanto os focos estiverem concentrados na região e as autoridades conseguirem demonstrar que as medidas de contenção foram eficazes. A retomada dos embarques dependerá da evolução epidemiológica e do cumprimento dos protocolos sanitários exigidos pelos importadores.
O analista ressalta que o setor precisa acompanhar especialmente o avanço da vigilância nas propriedades próximas, porque novos registros podem prolongar o período de restrições e dificultar a normalização do fluxo comercial.
Na avaliação dos analistas é que o Natal está protegido, mas estoque e preços exigem atenção. A proximidade das festas de fim de ano é uma das principais preocupações do mercado, já que o consumo de peru, chester e outras aves especiais costuma crescer em dezembro. A questão é se a perda de parte dos plantéis e as dificuldades operacionais da MBRF poderiam reduzir a oferta justamente no período de maior demanda.
Ainda segundo Dutra, os focos atingiram uma parcela pequena de uma operação industrial muito maior e que o volume de aves envolvido não representa uma ameaça ao abastecimento nacional. Além disso, o analista destaca que a companhia possui estrutura produtiva em diferentes estados e pode reorganizar parte dos pedidos e da distribuição.
Fernando Henrique Iglesias reforça que existe uma característica importante na produção de aves natalinas, que é o planejamento industrial começa muito antes das festas. O abate de perus e outras aves especiais acontece ao longo do ano e se estende até aproximadamente meados de novembro. Com isso, uma parcela significativa dos produtos destinados ao Natal já está pronta e armazenada.
Na prática, a perda de aproximadamente 46 mil aves, na estimativa inicial de Dutra, ou o volume superior a 48 mil envolvido nas três propriedades não representa uma redução relevante diante da escala nacional de produção.
O momento em que os focos foram identificados também é determinante. Como boa parte da produção natalina já passou pelo abate e está estocada, a ocorrência sanitária não compromete diretamente o volume que foi planejado para atender à demanda de dezembro.
Iglesias avalia que o efeito sobre a oferta de aves natalinas será limitado. A preocupação maior está relacionada à produção corrente, principalmente frangos e outras aves que continuarão sendo abatidos enquanto as restrições comerciais estiverem em vigor.
Se os embargos forem prolongados, os frigoríficos poderão enfrentar um aumento dos estoques e custos adicionais de armazenagem. Dependendo da duração das restrições e da capacidade de redirecionamento da produção, esse cenário poderá afetar a estratégia comercial das empresas e a formação de preços no mercado interno.
Por outro lado, a liberação dos mercados internacionais tende a permitir que os produtos armazenados voltem a seguir para seus destinos originais, reduzindo a pressão sobre a cadeia doméstica.
O Ministério da Agricultura também reforçou que o consumo de produtos avícolas submetidos à inspeção oficial permanece seguro, sem contraindicações. A doença exige medidas rigorosas de controle sanitário, mas os produtos que chegam regularmente ao comércio, sob fiscalização oficial, não representam risco ao consumidor.
O que pode acontecer daqui para frente?
O desdobramento dos casos dependerá de dois fatores principais, sendo eles a capacidade de conter a circulação do vírus no Oeste Catarinense e a velocidade das negociações com os parceiros comerciais.
No campo sanitário, a prioridade é impedir que novas propriedades comerciais sejam atingidas. A ampliação da vigilância, a investigação epidemiológica e o controle do trânsito de animais e materiais são fundamentais para identificar possíveis vias de disseminação e evitar que a ocorrência se espalhe para outras regiões produtoras.
No campo comercial, o desafio será demonstrar aos países importadores que os focos estão controlados e que as regiões não afetadas continuam aptas a fornecer produtos avícolas. A regionalização das restrições é um instrumento importante nesse processo, mas a retomada não ocorre automaticamente após o encerramento das medidas dentro das propriedades.
A MBRF, por sua vez, terá de administrar a produção das unidades afetadas, preservar a capacidade de atendimento dos mercados internacionais e equilibrar os custos de armazenagem com a necessidade de manter o fluxo de comercialização.
A avaliação dos analistas é que, com o controle dos focos e o cumprimento do vazio sanitário, a tendência é de normalização gradual das operações. Entretanto, a identificação de novos casos poderá prolongar as restrições e ampliar os custos para a indústria.