Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato derrotado à Presidência da República, divulgou, nesta quarta-feira (28), uma carta com teor golpista questionando a legitimidade da vitória de Lula nas eleições brasileiras.
O analista de Internacional da CNN, Lourival Sant’Anna, explicou durante o CNN Prime Time, que o conteúdo da carta se encaixa diretamente na estratégia política adotada pelo presidente norte americano, Donald Trump, no contexto das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.
Fraude eleitoral como narrativa estratégica
O interesse imediato de Trump na versão de fraude na eleição brasileira, segundo Lourival Sant’Anna, é associar a ideia de irregularidade à vitória da esquerda.
“De imediato, o interesse de Donald Trump nessa versão de fraude na eleição do Brasil é para associar a fraude à vitória da esquerda, porque na terça-feira, provavelmente, os republicanos serão derrotados pelos democratas na eleição de meio de mandato”, afirmou o analista.
Essa derrota, ainda de acordo com Sant’Anna, deve ocorrer tanto na Câmara quanto, possivelmente, no Senado.
Trump teria preparado essa narrativa há bastante tempo, utilizando o Brasil como exemplo para reforçar a tese de que a esquerda venceria eleições por meio de fraudes — argumento que ele também aplica à sua própria derrota em 2020, que até hoje não reconhece. “Ele utiliza o Brasil para reforçar essa tese de que a esquerda vence eleições por meio da fraude”, explicou Sant’Anna.
Interesses de médio prazo em relação ao Brasil
No médio prazo, Lourival Sant’Anna aponta que a prioridade de Trump em relação ao Brasil seria reduzir a influência chinesa no país.
A eleição de Flávio Bolsonaro seria a forma mais direta de alcançar esse objetivo, mas como isso não se materializou, Trump tentaria atuar junto a Lula para obter resultados semelhantes. O analista citou como exemplo uma reunião realizada pouco antes de uma visita a Pequim, na qual Trump teria demonstrado capacidade de interlocução com o maior país da América Latina.
Caso as pressões dos democratas sobre Trump se intensifiquem — por meio de investigações, intimações e denúncias de corrupção e abuso de poder a partir das maiorias nas comissões da Câmara —, o analista avalia que Trump pode recorrer à carta da ameaça nacional proveniente do Brasil.
Isso incluiria caracterizar o país como uma não-democracia, mencionando organizações que ele classifica como narcoterroristas e a projeção chinesa sobre a América do Sul. “Toda essa percepção pode ser útil para o Trump no médio prazo”, disse Sant’Anna. Por ora, porém, Trump prefere manter uma boa relação com Lula, limitando-se a acolher Flávio e a tese de fraude eleitoral.
Enfraquecimento de Trump pode beneficiar estratégia de Flávio
Questionado sobre se um eventual enfraquecimento de Trump nas eleições de meio de mandato afetaria a estratégia de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos, Lourival Sant’Anna respondeu de forma surpreendente: segundo ele, esse cenário, na verdade, reforçaria a estratégia. “Isso reforça a estratégia de Flávio Bolsonaro, porque torna o Trump mais agressivo na estratégia de concentrar o poder presidencial para se defender desses freios e contrapesos que virão do Congresso”, explicou o analista. Nesse contexto, Trump estaria ainda mais inclinado a utilizar o Brasil como alvo, caracterizando-o como uma ameaça à segurança nacional que justificaria a concentração de poder em suas mãos.