Vacinação é proteção para o coração: novo pilar da prevenção cardiovascular

Quando pensamos em prevenir um infarto, geralmente lembramos do controle do colesterol, da pressão arterial, da alimentação e da atividade física. Poucas pessoas, entretanto, associam a vacinação à proteção do coração. Essa relação vem ganhando importância na medicina e representa uma mudança na maneira como entendemos a prevenção cardiovascular.

Em 2025, a Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) publicou um documento de consenso propondo que a vacinação seja reconhecida como o quarto pilar da prevenção cardiovascular, ao lado do controle dos fatores de risco, das mudanças no estilo de vida e do tratamento medicamentoso.

A recomendação parte de uma constatação importante: determinadas infecções não afetam apenas os pulmões ou as vias respiratórias. Elas também podem aumentar o risco de complicações cardiovasculares, especialmente em pessoas que já apresentam doenças cardíacas.

Por que uma gripe pode desencadear um infarto?

Durante uma infecção, o organismo desencadeia uma resposta inflamatória para combater o agente infeccioso. Esse processo pode provocar alterações na coagulação, aumentar a frequência cardíaca e exigir maior esforço do coração.

Em pessoas com aterosclerose, doença caracterizada pela formação de placas de gordura nas artérias, a inflamação pode contribuir para a instabilidade dessas placas e favorecer a formação de coágulos. Dependendo da artéria comprometida, o resultado pode ser um infarto ou um acidente vascular cerebral (AVC).

Um estudo publicado no New England Journal of Medicine demonstrou que o risco de infarto foi aproximadamente seis vezes maior na primeira semana após a confirmação laboratorial de influenza. É importante observar que esse resultado representa um aumento relativo e temporário do risco, não significa que uma em cada seis pessoas com gripe terá um infarto.

A COVID-19 também demonstrou capacidade de provocar complicações cardiovasculares, tanto durante a fase aguda quanto após a infecção. Em pessoas com insuficiência cardíaca, infecções respiratórias podem ainda desencadear descompensações que exigem atendimento hospitalar.

Esses efeitos ajudam a explicar por que prevenir infecções também pode representar uma forma de proteger o sistema cardiovascular.

Quais vacinas entram nessa estratégia?

A vacina contra influenza é uma das mais estudadas nesse contexto. Além de reduzir o risco de gripe e suas complicações, existem evidências de benefício cardiovascular, especialmente em pacientes com doença coronariana.

No estudo IAMI, publicado na revista Circulation, pacientes que receberam a vacina contra influenza logo após um infarto ou durante uma internação por doença coronariana apresentaram menor ocorrência de um desfecho combinado de morte, novo infarto e trombose de stent em comparação com aqueles que receberam placebo.

A vacinação contra COVID-19 também integra essa estratégia, principalmente pela proteção contra formas graves da doença, hospitalizações e complicações associadas à infecção.

Outras vacinas merecem atenção. A pneumocócica protege contra infecções causadas pelo pneumococo, incluindo determinadas pneumonias. Já a vacinação contra o vírus sincicial respiratório (VSR) ganhou importância com a disponibilidade de imunizantes para grupos específicos, especialmente idosos e pessoas com fatores de risco.

Isso não significa que todas essas vacinas tenham o mesmo nível de evidência de redução de infartos ou AVCs. O benefício cardiovascular direto é mais bem estudado para a influenza. Para outros imunizantes, parte da proteção esperada decorre da prevenção de infecções graves capazes de descompensar doenças cardíacas.

As indicações devem respeitar a idade, as condições clínicas e as recomendações vigentes do Programa Nacional de Imunizações e das sociedades médicas.

O coração não pode ser avaliado isoladamente

A prevenção cardiovascular evoluiu muito nas últimas décadas. Aprendemos a controlar melhor o colesterol, tratar a hipertensão, reconhecer os riscos do diabetes e utilizar medicamentos capazes de reduzir eventos cardiovasculares.

Hoje, sabemos que uma avaliação completa precisa ir além desses fatores tradicionais. Obesidade, doença renal crônica, qualidade do sono, processos inflamatórios e histórico de infecções também influenciam a saúde cardiovascular.

A situação vacinal deve fazer parte dessa conversa, especialmente no acompanhamento de pacientes com doença coronariana, insuficiência cardíaca e outras condições que aumentam o risco de complicações. Isso não significa substituir medicamentos, exames ou mudanças de hábitos por vacinas. A proposta é acrescentar uma camada de proteção a estratégias que já demonstraram benefícios.

Um paciente que controla adequadamente a pressão arterial e o colesterol, mas permanece vulnerável a infecções potencialmente graves, pode estar deixando de utilizar uma medida preventiva importante.

A vacinação não elimina o risco de infarto ou AVC, assim como nenhuma intervenção isolada consegue fazê-lo. Mas reconhecer a relação entre infecções e eventos cardiovasculares amplia nossa capacidade de prevenção.

O coração não funciona separado do restante do organismo. Protegê-lo também significa reduzir as agressões que outras doenças podem provocar. É por isso que perguntar sobre a vacinação deve se tornar tão natural na consulta cardiológica quanto perguntar sobre medicamentos, atividade física e alimentação.

*Artigo escrito por Dra. Ana Paula Garcia – CRM/SP – 151.840 | Cardiologista e membro da Brazil Health

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