Um homem de 43 anos foi acusado em relação a um suposto atropelamento intencional contra uma parlamentar australiana.
Segundo a polícia, o ato foi “direcionado” e causou ferimentos graves à parlamentar — que, de acordo com a imprensa, levaram à amputação de sua perna.
Helen Haines, de 65 anos, que representa o distrito eleitoral federal de Indi, foi atingida por um veículo 4×4 Toyota Land Cruiser na cidade rural de Wangaratta, por volta das 15h30 (horário local) de segunda-feira (19).
O ataque gerou um debate em todo o país sobre as motivações do motorista e a segurança dos políticos australianos.
A polícia não confirmou o nome do suspeito nem sua motivação, mas a imprensa local o identificou como Brendan Nugent.
Ele comparecerá ao tribunal na quarta-feira (21), enfrentando acusações de direção perigosa que resultou em ferimentos graves, causar ferimentos graves intencionalmente e, sob a legislação federal, o crime de causar dano a um funcionário público federal.
Nesta terça-feira (20), seu pai, Rod Nugent, divulgou um comunicado descrevendo Haines como uma amiga e uma “membro profundamente respeitada, valorizada e muito querida de nossa comunidade local”.
“Helen é nossa amiga há mais de 20 anos, e o que aconteceu com ela ontem é devastador e incompreensível”, disse o pai, segundo a Associated Press.
Em uma série de entrevistas nesta terça-feira, o primeiro-ministro Anthony Albanese afirmou que o veículo percorreu a rua principal antes de fazer o retorno e atingir a popular política independente, que representa seus eleitores há sete anos.
No momento do incidente, ela estava na parte de trás de seu carro, retirando itens do porta-malas.
A mídia local indica que ela ficou prensada entre dois veículos; afiliadas da ABC e da CNN relatam que uma de suas pernas sofreu danos tão graves que precisou ser amputada.
Os médicos estão tentando salvar a outra, acrescentaram relatos locais.
Logo após o ocorrido, testemunhas correram para socorrer Haines e detiveram o motorista do veículo, de 43 anos, até a chegada da polícia, segundo a superintendente interino da Polícia de Victoria, Ashley Mason.
O barbeiro Ricky Jefferies relatou à emissora ABC que saiu correndo de seu estabelecimento, pegou uma faca que estava no bolso do motorista e o retirou de dentro do carro, antes de tentar acalmá-lo. Desde então, ele tem sido aclamado como herói.
“Não tive outra escolha a não ser tirá-lo do carro, porque era a atitude correta e a mais segura a se tomar”, disse Jefferies. “As pessoas nem sequer avaliaram o perigo; simplesmente correram para ajudar”, comentou ele sobre os outros presentes no local.
A violência política é rara na Austrália, mas, no último ano, houve um aumento nos relatos de comportamentos de assédio e ameaças contra políticos, de acordo com estatísticas da AFP (Polícia Federal Australiana) citadas pelo governo.
A comissária da AFP, Krissy Barrett, afirmou em um comunicado que o ataque parece ter sido um incidente isolado.
No final desta terça-feira, Haines permanecia em estado crítico, porém estável, segundo a Polícia de Victoria.
Parlamentar ‘íntegro’
Embora a polícia ainda não tivesse interrogado o suspeito, Albanese prontamente informou ao país que se tratava de um “ato deliberado”.
Ele afirmou não ter conhecimento de ameaças específicas contra Haines, mas observou que a “temperatura” do discurso político “aumentou nos últimos tempos” e defendeu que ela seja reduzida.
“Não há lugar para a violência política em uma democracia”, disse ele à ABC na segunda-feira (19).
Haines foi levada de avião para Melbourne, onde passou por uma cirurgia no hospital The Alfred naquela mesma noite.
Em um comunicado publicado nas redes sociais, sua família agradeceu às pessoas que estavam no local pelo “pronto atendimento”.
Uma investigação abrangente está em andamento, conduzida pela Polícia de Victoria e envolvendo membros da Equipe Conjunta de Contraterrorismo — que inclui a AFP (Polícia Federal Australiana) — e a ASIO (Organização Australiana de Inteligência e Segurança).
Haines foi eleita para o parlamento federal em 2019 como candidata independente, defendendo a melhoria dos serviços de saúde em áreas rurais.
Ela tem dedicado sua atuação à integridade na política, além de defender reformas no setor de jogos de azar, um melhor tratamento para a saúde mental e o fim da guerra em Gaza.
Antes de ingressar na política, ela trabalhou como parteira, estabelecendo um dos serviços de assistência ao parto rural mais duradouros do país, segundo seu site.
“Helen Haines é extremamente dedicada ao trabalho”, disse Albanese em uma coletiva de imprensa na segunda-feira. “Ela é inteligentíssima, mas, acima de tudo, é um ser humano profundamente íntegro e decente, respeitado em todo o Parlamento e por todos que entram em contato com ela.”
Políticos de todo o espectro partidário prestaram homenagens a Haines, que era admirada e respeitada no Parlamento australiano, sendo descrita por colegas, entre outras formas, como uma “força para o bem” e um “farol de luz”.
O líder do Partido Liberal, Angus Taylor, afirmou que a segunda-feira foi um “dia chocante para a nação”.
“Os australianos ficarão indignados e chocados com o ataque sofrido por Helen do lado de fora de seu gabinete eleitoral em Wangaratta”, escreveu ele na rede social X. “Nossa nação não pode se tornar um lugar onde ataques violentos sejam normalizados.”
Pauline Hanson, líder do partido de direita One Nation — que tem ganhado popularidade nos últimos meses —, também afirmou que não há espaço para a violência contra qualquer representante eleito.
“Os parlamentares e suas equipes devem poder servir às suas comunidades sem temer por sua segurança”, disse ela no X.